Após 35 anos, a história do Skinão Lanches se confunde com a própria história de Bauru. Com o tempo, o local se transformou em uma espécie de parada obrigatória para os visitantes, curiosos para conhecer um pouco mais do lanche que leva o nome da cidade. É lá que se come o legítimo sanduíche bauru, com pão francês sem miolo, rosbife, queijo derretido em banho-maria, picles e tomate.
Há três anos, esse atrativo quase desapareceu. Sufocado pela falta de espaço, pela violência e pela agitação do Centro da cidade, o Skinão começou a perder freguês. O herdeiro desse patrimônio histórico, Marco Antônio Sanches Francisco, 43 anos, pensou em fechar o estabelecimento e se mudar para Goiânia (GO).
Sem dinheiro e com muitas dívidas para pagar, Marquinhos do Skinão, como é mais conhecido, aceitou o desafio de permanecer em Bauru e tentar resgatar a lanchonete herdada do pai, o comerciante José Francisco Júnior, o Zé do Skinão, morto em 2002, aos 77 anos.
Aconselhado por amigos, Marquinhos decidiu levar o estabelecimento para os Altos da Cidade, deixando para trás o prédio na esquina da avenida Rodrigues Alves com a rua Gustavo Maciel, que foi o berço de toda a tradição do Skinão. “Chegou a um ponto que ou eu mudava ou fechava as portas”, relembra.
Com apoio da mulher, Maria Lúcia, Marquinhos levou o projeto adiante e hoje comemora o renascimento do Skinão. Além de recuperar os clientes que havia perdido, conquistou novos e as vendas dispararam. Com 23 funcionários, a lanchonete vende, em média, de 150 a 200 sanduíches bauru todos os dias. Na última terça-feira, aniversário da cidade, foram consumidos 650 lanches.
“O bauru é o carro-chefe das vendas do Skinão. Pode faltar de tudo aqui, menos o sanduíche bauru”, reconhece Marquinhos. Nesta entrevista, ele fala sobre o sucesso alcançado pelo lanche ao longo do tempo, sobre as dificuldades e o recomeço na zona sul da cidade, próximo à Praça Portugal.
Jornal da Cidade – Quando surgiu o Skinão Lanches?
Marco Antônio Sanches Francisco – Meu pai comprou o Skinão em 1971. Era sempre ele que tomava conta. A partir de 1980, quando ele teve um problema de saúde, eu comecei a assumir aos poucos a lanchonete.
JC – Seus outros dois irmãos também ajudavam?
Marquinhos – Eles ajudavam sim. Mas era eu que ficava a maior parte do tempo lá. Mesmo porque, meus irmãos tinham o serviço deles. Os dois (Júlio César e José Carlos) trabalhavam na Companhia Paulista de Força e Luz. Por isso, eu fiquei mais ligado ao Skinão do que eles.
JC – Você estudava naquela época?
Marquinhos – Eu fazia faculdade de matemática na Fundação Educacional de Bauru (encampada mais tarde pela Unesp). Como eu estudava à noite, tive de parar os estudos para trabalhar.
JC – O atendimento na lanchonete ia até que horas?
Marquinhos – De sexta para sábado e de sábado para domingo não tinha hora para fechar. O dia que fechava mais cedo era às 5 horas da manhã. Quantas vezes cheguei em casa com o sol já brilhando.
JC – E vocês reabriam a que horas?
Marquinhos – Minha mãe (Mariana Sanches Francisco) chegava de manhã e abria com uma outra turma (funcionários). Eu chegava à tarde, por volta das 18h, e ficava até fechar.
JC – Essa relação entre o Skinão e o sanduíche bauru começou quando e de que forma?
Marquinhos – O sanduíche bauru foi criado na década de 30, por Casemiro Pinto Neto. Até 1971, era só o Ponto Chic, em São Paulo, que fazia o lanche. Dois anos depois que o meu pai comprou o Skinão, o Ponto Chic fechou após o falecimento do dono. Meu pai ficou sabendo disso e pensou que o lanche bauru ia morrer. Então, como o meu pai conhecia a receita, ele e minha mãe começaram a fazer o lanche. Depois de pronto, ele cortava o pão em quatro pedaços e dava para os clientes. Dessa forma, ele foi fazendo um trabalho de marketing e graças a isso estamos há 35 anos vendendo o sanduíche bauru.
JC – Por que vocês decidiram deixar o Centro da cidade?
Marquinhos – Não vou cuspir no prato que eu comi, porque tudo que nós temos hoje foi conquistado lá, mas mudou muito o perfil do Centro. No tempo que o Skinão era ‘top de linha’, o movimento ficava da avenida Duque de Caxias para baixo. Era onde estavam as cantinas, restaurantes, choperias, churrascarias, discoteca, cinemas. Era uma vida gostosa. Do lado de cima não tinha nada. Mas isso foi mudando. Mudou uma pizzaria para cima, mudou outra e todo mundo foi saindo. O Skinão acabou sendo um dos últimos estabelecimentos antigos a sair do Centro. Alguns poucos ainda permanecem lá.
JC – De quem foi a idéia de mudar para os Altos da Cidade?
Marquinhos – Meu pai faleceu em 2002. Nessa época, a lanchonete só abria das 17h até a 1h da madrugada. Durante o dia, já não tinha mais aquele movimento grande de antigamente. O comércio foi crescendo e outros lugares começaram a oferecer comida mais barata. As vendas caíram. Depois, as famílias começaram a reclamar dos problemas para estacionar o carro. Nem bem eles paravam e vinha uma pessoa pedindo para cuidar do carro. Às vezes, saía gente brigando dos botecos que tinham por ali e iam parar na frente da lanchonete. Então, as pessoas pararam de levar a família. Com isso, você vai perdendo freguês. Chegou um ponto que a maior parte das vendas era para entregar em casa. Porque as pessoas tinham medo de ir até a lanchonete.
JC – Foi aí que você decidiu mudar de endereço?
Marquinhos – Eu comecei a ver que não estava dando certo. O movimento estava cada vez menor e as contas aumentando. Eu tenho dois filhos. Tinha que dar escolas para eles. Depois que meu pai faleceu, foram dois anos bem difíceis. Eu pensei até em ir embora de Bauru. Quando você está com a cabeça cheia de preocupações, começa a pensar em mil coisas.
JC – Você pensou em ir para onde?
Marquinhos – Eu tenho um cunhado que mora em Goiânia. Um ano antes de mudar para os Altos da Cidade, eu estive na casa dele e gostei da cidade. É grande, bonita, bem movimentada, cheia de dinheiro. Cheguei a conversar com meu cunhado sobre isso. Mas aí a minha esposa pediu para eu pensar melhor. Porque tudo que a gente tinha estava em Bauru. E Goiânia era longe.
JC – No fim das contas, decidiu ficar?
Marquinhos – Aí eu fiquei sabendo que o lugar aqui estava para alugar e comecei a correr atrás. Foi assim meio de brincadeira para ver como ia ficar, quanto iria custar. Eu não tinha noção de nada. Fomos conversar com o arquiteto e aos poucos o negócio foi tomando forma. Aí você começa a se entusiasmar. Vamos fazer isso, vamos fazer aquilo e fomos atrás. Isso foi no começo de junho de 2003. Quando percebi era agosto e já estava mexendo com pedreiro, eletricista. O sonho já estava virando realidade e não tinha mais como recuar.
JC – E valeu a pena?
Marquinhos – Graças a Deus deu certo. A mudança foi da água para o vinho. Para quem estava querendo fechar as portas e hoje ver essa casa bonita, cheia de gente.
JC – Os clientes voltaram então a freqüentar o Skinão?
Marquinhos – Nossa! O movimento melhorou muito. Todo dia tem gente. Nós só não abrimos de terça-feira. Nos outros dias, sempre tem movimento. Nosso público hoje é formado por crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos. A diversidade é muito grande. Mudou totalmente em comparação ao que era. Os clientes antigos continuam freqüentando e ainda ganhamos outros que sabiam do lanche mas não iam para o Centro comprar.
JC – Você atribui essa mudança à nova localização do Skinão. O fato da lanchonete ter mudado para um lugar menos movimentado influenciou?
Marquinhos – A avenida Rodrigues Alves é um corredor de ônibus. Então, é barulho o tempo inteiro. Chegava o fim da tarde, o ponto de ônibus que tem ali perto ficava lotado. Não estou criticando, mas queira ou não, você perde cliente por causa disso. A pessoa passa e vê aquele monte de gente na porta, ela não pára. Quando mudei para os Altos, encontrei clientes que eu não via fazia muito tempo.
JC – Esse retorno dos velhos clientes foi rápido?
Marquinhos – Foi rapidinho. Eu inaugurei aqui no dia 20 de outubro de 2003. Em fevereiro de 2004, aluguei a outra parte do salão, porque o espaço já estava pequeno. Tinha fila do lado de fora. Uma funcionária ficava distribuindo senha para o pessoal poder entrar. O Skinão hoje tem capacidade para receber de 80 a 100 pessoas.
JC – Além de continuar com o lanche, vocês voltaram a servir comida. Por que?
Marquinhos – No começo, nós só trabalhávamos com lanches. Depois, nós notamos a necessidade de oferecer também comida. O pessoal que trabalha aqui por perto quer comer comida. Então, algumas pessoas lembraram da época que comiam lá embaixo (no antigo Skinão) e perguntaram porque a gente não voltava a fazer isso novamente. E aquilo ficou na minha cabeça. Aí eu vi um prato executivo em um restaurante e pensei em fazer o mesmo. Graças a Deus, hoje, o movimento no almoço é excelente. Nós temos comida o dia inteiro. Começa às 11h e vai até meia-noite. Esse é um diferencial que nós criamos. Independentemente da hora, sempre vai ter comida para quem quiser. Aos domingos, nós temos um público fiel que são os jovens que ficam nas baladas até altas horas e acordam tarde no domingo. Quando chega por volta das 15h, eles estão com fome e vão para o Skinão.
JC – O pessoal continua reclamando do preço, como acontecia no Skinão lá do Centro?
Marquinhos – Aqui em cima é outro padrão. Embora, eu tenha freguês de todas as classes sociais, é um outro tipo de público, que não fica reclamando do preço. O cara come e paga. Raramente, ele reclama do preço.
JC – O Skinão recebe clientes de fora da cidade ou os freqüentadores são basicamente bauruenses?
Marquinhos – Vem muita gente de fora. Principalmente, aqueles que vem fazer tratamento no Centrinho. Esses dias vieram dois casais de Brasília. Tem muita gente que, quando chega na cidade, já pergunta onde vende o sanduíche bauru. No fim do ano vem gente do Brasil inteiro. Então, eu fico contente. É igual o chope pinguim. Quem vai para Ribeirão Preto quer tomar um. Aqui é a mesma coisa. Além disso, de vez em quando sai propaganda na televisão. Quando o Palmeiras veio jogar contra o Noroeste este ano, a Band esteve aqui para fazer uma matéria que foi mostrada para o Brasil inteiro.
JC – Você tem idéia de quantos sanduíches bauru o Skinão vende por dia?
Marquinhos – Sem medo de errar, nós vendemos uma média de 150 a 200 lanches por dia. Só no aniversário da cidade nós vendemos 650 sanduíches. O bauru é o carro-chefe das vendas do Skinão. Pode faltar de tudo aqui, menos o sanduíche bauru. Então, eu fico lisonjeado porque tenho uma responsabilidade muito grande de cuidar dessa criança que o meu pai deixou pra mim.