Economia & Negócios

Preços caem, menos para a classe média

Thatiza Curuci
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos meses, os índices do governo e de órgãos de pesquisa, como o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), medido pela Fundação Getulio Vargas, têm apontado redução do nível geral de preços. A deflação, como é chamada a queda da inflação, porém, não tem sido comemorada pela classe média. O motivo da reclamação, continuamente minimizada pelo governo, está espelhado em levantamento realizado pela Fundação Getulio Vargas (FGV): é que 15 itens usualmente consumidos pelo estrato - e que não compõem os índices de preços - sofreram médias de aumento de até 3%.

Para chegar a essa conclusão, a fundação comparou as Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) de 1999/2000 e de 2002/2003. O grupo de produtos analisados inclui itens que não eram pesquisados (alimentos diet/light, telefone celular, DVD) e outros cujo consumo cresce muito (alimentação fora, mensalidade de Internet, televisão por assinatura e serviços pessoais).

Na prática, isto significa que os gastos cada vez maiores com serviços particulares estão sobrecarregando o bolso da classe média. Entre eles, encontram-se itens como telefone celular, academia, cursos, mensalidades de Internet, de televisão por assinatura ou colégio particular, que antes eram responsáveis por 21% do orçamento familiar mensal, chegaram a 25% em três anos.

Como os preços da alimentação estão mais baixos e a conta de telefone fixo e do pedágio não conseguiram suprir o aumento de preços de outros itens de serviços, há a sensação de que a deflação não chega à classe média. Exemplo nesse sentido são os alimentos, que caíram 3,22% enquanto as mensalidades de academias de ginástica aumentaram 3,78% e os planos de saúde ficaram 6,56% mais caros.

Com isso e como surgiram novos gastos em função da modernidade, a renda da classe média está cada vez mais achatada, avalia o economista Said Yussuf Lawi. “Essa deflação anunciada não serve para a classe média. Enquanto a classe baixa tem orçamento comprometido principalmente com a cesta básica, a média tem um leque de consumo maior. Com as novas tecnologias e novos produtos, o consumo da classe média aumentou”, explica.

Exemplo disso é a educação, que pesa apenas 2% na renda de uma família quando o governo faz a avaliação do índice inflacionário. Mas, para a classe média, esse gasto ultrapassa e muito essa porcentagem. “A classe média gasta muito mais. Só para comprar o material escolar, por exemplo, os 2% já são ultrapassados”, comenta.

Para o economista, os gastos maiores da classe média significam menos impulso, inclusive para os setores industrial e de bens e serviços. “Se a renda da classe média começa a ficar achatada, conseqüentemente a economia fica engessada”, avalia.

E se a pressão sobre o orçamento e a sensação de que não se ganha o suficiente aumentam entre as famílias da classe média, crescem também as dívidas. “Eles (classe média) estão tentando manter o mesmo padrão de vida, mas acabam endividados porque a renda não dá mais”, explica o economista.

A saída não pode ser outra: o corte de gastos. “O salário não vai subir na mesma proporção. Então, vai se ter que cortar gastos”, avalia. O que pode aliviar o bolso das famílias a longo prazo deixa a economia estagnada. “É assim que o governo trabalha. Ele prefere que a economia fique parada para não ter inflação e acaba afetando a produção industrial”, completa Lawi.

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Glossário

Índice

O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), que é o índice oficial do governo, apresentou em julho deflação pelo segundo mês consecutivo. No mês passado, foi registrada deflação de 0,02%. No mês anterior, a variação tinha sido negativa em 0,15%.

Deflação

É o contrário de inflação. Significa queda do nível geral dos preços e não de um ou outro produto isolado. Assim, a taxa torna-se negativa.

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Corte de gastos

A classe média já está sentindo o resultado do aumento de preços de serviços e novos produtos. É o caso da professora Vilma Serafim. Além de seus gastos pessoais, ela ajuda o sobrinho que mora em sua casa.

Na avaliação dela, a classe média tende a acabar. Um dos “luxos” que ela se permite é a Internet em casa e o colégio particular para o sobrinho. “Televisão a cabo não tenho porque o gasto extrapola o salário”, afirma.

“A classe média quer ter um padrão de vida que se iguale ou chegue perto da classe mais alta, mas não está conseguindo. Então, muitos estão passando para a classe mais baixa”, opina Vilma.

A técnica em enfermagem Maria José Goulart já vendeu o carro para cortar gastos. “Por causa do salário não aumentar, não sobra muito para o lazer. Tenho Internet, mas não freqüento a academia porque não dá”, conta.

A filha mais nova, Ana Rita Moreira, estuda em escola técnica pública, faz cursinho particular para o vestibular e paga também por aulas de informática. “Ela vai ter que estudar muito para passar em uma universidade pública”, diz a mãe.

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