Rata de biblioteca... foi como referiu-se a mim Fredric Michael Litto, o diretor científico da Escola do Futuro, da USP. Com ele aprendi a usar o computador. De lá para cá as tecnologias multimídias redesenharam o horizonte da cultura moderna e mesmo assim continuo apaixonada por livros. Com ele aprendi também a diferenciar sabedoria de conhecimento. Sabedoria vê com os olhos da mente, conhecimento aceita somente o comprovado pela ciência. Durante meu doutoramento freqüentei uma disciplina intitulada Inteligência Artificial, ministrada pelo dr. Litto. O embate entre as suas idéias e as minhas era grande. Eu, na falta de argumentos, rebatia com as teorias de Capra e acabava sempre vencida pela sua fria ironia. Lembrei-me disso tudo ao encontrar um livro reeditado em 1901 e publicado pela primeira vez no século XVIII. Haja poeira... Como sou alérgica era pegar o dito cujo e espirrar até quase morrer. Desistir? Jamais. Afinal, qual é a função de uma copiadora, senão copiar... O título? Lunario e Prognostico Perpetuo, tratando de assuntos tão variados quanto agricultura, medicina natural, número de ouro, jogos de carta, jardinagem, tempo, astrologia, etc, etc... O texto está próximo da sabedoria, pois, contem conhecimento empírico, fala por enigmas e dá conselhos, tais como: trata as mulheres com a mesma cautela com que colhes as rosas. Gostaram? Tem muito mais. Contração dos dedos? Pomada de Beladona. Desculpa aí, Franzolin...
Nele descobri um segredo. A Igreja Romana regula as festas móveis pela epacta. Epacta??? Sim, senhores. O ano lunar possui 354 dias, enquanto o solar 365, epacta é a diferença de 11 dias entre os dois calendários. Como eles fazem isso? A Luciana poderia perguntar para o padre... como é mesmo o nome dele?
O autor do Lunario afirma: o mundo teve início no equinócio invernal, durante o mês de março, no momento exato em que o sol entrou no primeiro grau de Áries. Portanto, o planeta azulzinho é ariano. Faz sentido, se considerarmos a sua teimosia em continuar existindo mesmo agredido desse jeito. Cristo? Morreu no décimo quinto dia da lua de março, em sexta-feira, aos 33 anos incompletos. Se o autor sabia custava precisar a data, ou dar alguma dica: tipo horário de verão, ou talvez, a lua crescendo vazia das 9:43 as 14:10 horas. Nada de bom acontece quando a lua está vazia. Houve um eclipse parcial do sol... teria sido da lua e total?
Embora eu trabalhe interpretando imagens, às vezes, fico irritada com O Lunario, pois informações são valores para serem compartilhados. Precisava ser tão cifrado? Composto de textos e gráficos, muita coisa continua obscura para mim. Clara é a afirmação, Capricórnio = decrepitude, em português arcaico, mas compreensível. Isso contrasta com a linguagem sóbria do João Bidu. Com elegância ele avisa: o capricorniano ao envelhecer se torna uma criança. Feliz da vida eu interpretava isso como uma juventude eterna. Ledo engano... Na verdade, o João estava de maneira amena sugerindo algo como uma velhinha fora de órbita, pode um negócio desses? Vou marcar consulta com um psicólogo, afinal, estou traumatizada. Vou desistir do Lunario. Partirei para algo mais confiável como a quarta dimensão ou o mundo paralelo...
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte. Aposentada da Faac-Unesp, leciona no curso de Design do Iesb