Havana - Irmão de Fidel Castro e ocupante interino dos cargos de direção máxima em Cuba, Raúl Castro afirmou que a ilha “sempre esteve disposta” a normalizar sua relação com os EUA. Mas que o país está mobilizado, com “dezenas de milhares de reservistas e milicianos”, para responder “ao perigo real” de uma intervenção americana.
Publicadas ontem no jornal oficial “Granma”, suas declarações são as primeiras desde que Fidel foi internado para uma cirurgia, em 31 de julho. Sobre o irmão, a quem se refere como “chefe” e “companheiro”, Raúl, que é general e ministro das Forças Armadas, diz que Fidel passa por uma “recuperação satisfatória e gradua”.
Fidel transferiu “provisoriamente” os cargos de primeiro-secretário do Partido Comunista, comandante das Forças Armadas e presidente do Conselho Executivo de Estado a Raúl, que já era seu vice nessas posições. Boa parte da entrevista de Raúl no “Granma” é sobre a relação com os Estados Unidos. “Sempre estivemos dispostos a normalizar as relações em um plano de igualdade. O que não admitimos é a política prepotente e de ingerência do atual governo desse país”.
Ele cita um relatório de Fidel de 1986 em que este dizia que Cuba não é contrária a discutir suas prolongadas diferenças com os Estados Unidos e “ir à busca de paz e melhores relações entre nossos dois povos”. Os EUA decretaram um embargo econômico contra Cuba em 1962, depois que Fidel desapropriou propriedades de americanos e declarou o “caráter socialista” da revolução.
Na maior parte da entrevista, Raúl ataca o projeto de “transição” patrocinado pelo governo americano para impedir a continuidade do Partido Comunista Cubano no poder. Em 2005, o governo americano criou uma Comissão de Assistência para uma Cuba Livre para “acelerar a derrota da tirania de Castro”, segundo a secretária de Estado, Condoleezza Rice. O interino cubano chamou o projeto de transição americano de “monstrengo”.
Como parte dos planos da comissão, o governo americano anunciou no mês passado um programa orçado em US$ 80 milhões para “apoiar a transição democrática na ilha”. “Como se fossem os donos do planeta, dizem que aqui deve haver transição a um regime social do seu agrado e que vão tomar nota de quem se opuser”.
Ao criticar os planos americanos, Raúl Castro também atacou os opositores ao regime na ilha. “O governo americano poderia tomar nota dos anexionistas assalariados da Oficina de Interesses dos EUA em Havana, que vão receber as migalhas dos US$ 80 milhões para a subversão, porque o grosso será distribuído em Miami”.
Chefe e companheiro
Em toda a entrevista, Raúl reforçou sua lealdade ao irmão. Refere-se a Fidel como “o chefe” e diz que elevou desde o 1 de agosto a mobilização militar na ilha, “cumprindo os planos aprovados em 13 de janeiro de 2005 pelo companheiro Fidel”. Afirma ainda que, como ministro das Forças Armadas, determinou a mobilização de “várias dezenas de milhares de reservistas e milicianos, e de nossas principais unidades de tropas regulares”.
O sucessor de Fidel também afirma que houve um aumento substancial das transmissões “subversivas” de rádio e televisão “contra Cuba”. Segundo ele, nos dias 5 e 6 de agosto os radares cubanos detectaram que as transmissões foram feitas a partir das águas internacionais, o que é proibido pelos acordos da União Internacional de Telecomunicações.
Na entrevista, Raúl Castro se refere também ao fato de não ter falado em público desde a operação do irmão -o que provocou rumores sobre divergências entre integrantes da cúpula do regime. “Sempre fui discreto, essa é minha maneira de ser e vou continuar assim.”
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‘Fidel light’
Havana - O governo americano respondeu com ironia à primeira entrevista de Raúl Castro. “Não temos particularmente muito apreço ao governo cubano, tal como é dirigido por Fidel, e não estamos especialmente entusiasmados pelas primeiras palavras do Fidel light”, disse o porta-voz do Departamento de Estado, Tom Casey, comparando-o às versões menos calóricas de produtos conhecidos.
O porta-voz disse que os Estados Unidos não têm muito o que opinar sobre as declarações do “irmãozinho de Fidel”. EUA e Cuba romperam relações diplomáticas em 1961.
Consultado sobre as acusações de invasão americana, Casey disse desconhecer o porquê da declaração. “Os esforços do governo Castro para impor uma sucessão dinástica na ilha são algo que não só julgamos inaceitável, mas que também o será para os cubanos a longo prazo’’.
Para ele, os cubanos não optarão por um regime castrista no dia “que tiverem oportunidade de votar”. O porta-voz do Departamento de Estado para a América Latina, Eric Watnik, também assegurou que seu país “não tem planos de invadir Cuba’’, em resposta às declarações de Castro sobre as “ameaças do inimigo”. O governo Bush criou a Comissão de Assistência a uma Cuba Livre, dirigida por Caleb McCarry e com um orçamento de US$ 80 milhões.