O desenvolvimento industrial do Interior do Estado de São Paulo, assim como de todo País, está diretamente ligado aos incentivos do governo ao setor. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), fez dessa afirmação o principal argumento para as dificuldades apontadas por empresários de Bauru e região durante o “Encontro da Indústria”, realizado ontem na cidade.
A redução da carga tributária, dos juros, da burocracia e a ampliação e maior acesso a linhas de crédito à indústria foram veemente ressaltadas por Skaf como medidas fundamentais ao maior crescimento do setor e, conseqüentemente, da economia. As reclamações do empresariado não fugiram desses temas.
“O cenário não vai mudar se não houver reformas estruturais, desburocratização e investimentos públicos em vez de desperdício público. Também precisamos de crédito fácil e uma taxa de juros que nos possibilite concorrer com outros países”, acrescenta.
O presidente da Fiesp aproveitou a oportunidade para criticar como “pífio” o crescimento de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do País obtido no segundo trimestre desse ano em relação aos primeiros três meses. Segundo ele, os números do ano passado revelam que a indústria sofreu um recuo de 0,3% e que o PIB brasileiro, a exemplo do ano passado, está crescendo 2,2%. Skaf acredita que o desempenho do PIB projeta crescimento médio de 2,5% a 3% para este ano. “É um crescimento muito pequeno. O resultado final disso tudo será mais uma vez um ano de desempenho muito abaixo do nível que o Brasil precisa”, avalia.
Para o diretor do Departamento de Ação Regional (Depar) da Fiesp em Bauru, José Luiz Miranda Simonelli, os apontamentos de Skaf fazem sentido, inclusive entre o parque industrial bauruense. “De fato, nossos grandes entraves são a falta de crédito, o câmbio desvalorizado, que nos faz perder rentabilidade na exportação, e claro, a alta carga tributária e os juros”, reitera.
Fisco federal
Simonelli considera que a esfera federal é a principal determinante dessa situação, já que, segundo ele, a maior parte da carga tributária aplicada sobre a indústria corresponde a impostos da União. “De uma certa forma, essa realidade acaba levando toda a renda para um único lugar, que é Brasília, onde é distribuída. Aqui em Bauru, portanto, ficamos somente com o recurso do arroz com feijão. Como não temos deputados para defender os interesses da cidade, ficamos sem fatiar esse bolo”.
Skaf emenda a análise de Simonelli ao se referir à desaceleração que a indústria de transformação tem sofrido nos últimos meses por conta das variações econômicas. O setor, citou ele, apresentou crescimento de 1% no primeiro semestre deste ano. Ao contrário desse resultado, a indústria extrativa cresceu 6,7% no mesmo período e a construção civil, 4,7%. O crescimento industrial nos primeiros seis meses desse ano, relatou ele, foi 2,6% acima do PIB.
O mau desempenho da indústria de transformação também é apontado por Skaf como conseqüência do câmbio baixo e dos juros altos, que prejudicam a competitividade e as exportações do setor.
“Em vista disso, nitidamente temos dois ‘Brasis’. O Brasil do setor sucroalcooleiro, do petróleo, da mineração, do papel e da siderurgia, que vai muito bem, e o Brasil da agricultura, da indústria de transformação, moveleira, têxtil, confecção e calçadista, que vai muito mal”, observa Skaf.
Ricardo Coube, diretor regional do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em Bauru, entende que as mazelas que prejudicam o rendimento industrial são comuns em todo o Brasil. Porém, em Bauru a prioridade tem de ser a viabilização de todo o potencial logístico como atração de investimentos. “À medida em que viabilizarmos o aeroporto, a ferrovia, a hidrovia, estaremos integrando esses modais e, conseqüentemente, chamando novas empresas. Naturalmente, o investimento vem através dessa atratividade toda da qual dispomos”, conclui Coube.