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Um astronauta patriota


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Sei que o assunto que escolhi está fora de moda: falar de patriotismo em um país de mensaleiros e de sanguessugas parece insuportavelmente anacrônico. Enquanto a prefeitura municipal de São Carlos revoga as festividades da Semana da Pátria sob a argumentação de que “a baixa umidade relativa do ar pode causar problemas de saúde aos participantes”, parece absurdo que um historiador discuta civismo. O senhor prefeito preocupa-se em evitar que alguém fique com falta de ar; preocupo-me, talvez insensatamente, em evitar que os jovens possam sofrer de falta de patriotismo. Sinal dos tempos. Teimo em mostrar bons exemplos aos jovens. Sim, existem patriotas. E não são poucos. Entre meus amigos, há dezenas deles. A cada vinte anos, a população convoca Sidnei Franco da Rocha para reconstruir a cidade de Franca e esse meu corajoso amigo diz: presente! Os patriotas são muitos e me orgulho de conhecer alguns deles.

De todos os meus amigos patriotas, o que pagou o maior preço pelo seu amor ao Brasil foi Marcos Pontes. O astronauta brasileiro nasceu em Bauru, numa família humilde e numerosa. Começou a trabalhar aos 14 anos, como eletricista da Rede Ferroviária Federal. Estudou no SESI e no SENAI. Entrou na Academia de Força Aérea em 1981. Tornou-se líder de esquadrilha de caças. Formou-se engenheiro aeronáutico pelo ITA. Chegou a mestre em engenharia de sistemas, pela Naval Postgratuate School. Tem duas mil horas de vôo, pilotando caças F-15 e MIG-29. A Agência Espacial Brasileira, em 1998, selecionou Marcos Pontes para representar o Brasil como astronauta, na Estação Espacial Internacional. Marcos foi para o Texas, fazer o treinamento, o que lhe prejudicou os interesses da carreira militar brasileira: não fazendo os cursos periódicos, ficou sem condições de receber promoções, o que o obrigaria a pedir reforma nos anos seguintes. A Estação Espacial Internacional é um projeto científico conjunto que congrega 16 países. Cada país contribui para o projeto com dinheiro ou com a produção e exportação de componentes de espaçonaves. O Brasil, nos últimos anos, deu calote em seus compromissos, o que obrigou Marcos Pontes a se transformar numa espécie híbrida de diplomata e negociador.

Pensando no Veículo Lançador de Satélites, a Agência Espacial Brasileira assinou contrato com a Roscosmos (Agência Espacial Russa), para a realização da primeira missão espacial científica brasileira, denominada Missão Centenário. Lançar-se ao espaço foi um risco de vida, mas certamente valeu a pena. Marcos Pontes torna-se, enfim, o nosso primeiro astronauta. Duro foi retornar ao Brasil. Ao invés de reconhecimento pelo (bom) trabalho prestado, Marcos Pontes foi acusado de ser um arrivista, interessado em iniciar carreira política. O governo federal, ao invés de apostar no Veículo Lançador de Satélites, tentou usar Marcos Pontes como garoto-propaganda. Sem noção do que diziam, muitos jornalistas e acadêmicos divertiram-se em jogar lama sobre um brasileiro íntegro. Hoje, Marcos Pontes é um oficial da reserva, ou seja, alguém que viu seu salário diminuído. Mas, ao mesmo tempo Marcos Pontes é um defensor incansável do programa espacial brasileiro e continua lutando, quase solitário, pelo sucesso de nosso Veículo Lançador de Satélites.

Tendo total facilidade para construir uma carreira de sucesso na iniciativa privada dos EUA, Marcos Pontes continua doando seus melhores anos para nosso país. Ele é um patriota e vencerá o período de escuridão que atravessamos. Até porque o amanhecer é inexorável!

O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

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