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Memento Mori... carpe diem


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A morte infunde medo porque além de inevitável ela é vista como um mistério incompreensível, como algo insondável ou como um absurdo inevitável. O medo que todo ser humano sente diante da própria finitude vira pânico e mesmo a morte natural acaba como sinônimo de aniquilamento sumário, de abreviamento. O medo da morte aparece na infância a partir das primeiras experiências de perda e tem várias facetas: é o medo do desconhecido somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva, da solidão e do sofrimento. De perder tudo: os amigos, o status social, o carro novo, os imóveis. De qualquer forma, o medo da morte nos força a viver, a nos relacionarmos, a procriarmos, a criarmos, a construirmos coisas que nos transcendam.

Quase não se consegue falar sobre a morte, menos ainda, refletir sobre suas implicações. Mas, seja como for, aceitemos ou não, a morte é um fato, uma realidade inexorável. A morte é a única coisa certa na existência de todos nós, ela faz parte da vida, aliás, como pode ser demonstrando pela Segunda Lei da Termodinâmica, deixar de existir é uma coisa mais natural do que existir. Todos nós estamos programados para nascer, crescer e morrer; uma obviedade esquecida por boa parte da sociedade contemporânea, que teima em ver a morte como um evento artificial, inesperado e injusto. Uma inimiga que poderia ser vencida pelos avanços científicos. Três coisas permitem-nos conviver melhor com a idéia da morte:

- A primeira é esquecer aquela imagem medieval e tétrica de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como um fim de festa. Já sabíamos que ela acabaria e, pensando bem, talvez não seja de todo mal que a festa termine. Por melhor que seja a música, será que agüentaríamos dançar para sempre? Dependendo do quão o sapato é ajustado aos nossos pés, haverá um momento de sair da pista, serenamente, sem traumas e dar lugar a quem está chegando. A segunda está calcada no fato de que na morte não podemos levar nada conosco. Nem bens, nem diplomas, nem o sucesso. Então, para viver bem, sem o terror e o tormento da idéia do fim, é preciso cultivar certo desapego em relação à vida.

- A terceira exige que deixemos de olhar exclusivamente para a camada exterior da vida, o componente físico circunscrito pelo corpo humano. É preciso aprender a penetrar nesta camada e ver a alma humana, nossa ligação com a eternidade. O corpo e a alma são adversários, cada um lutando por diferentes necessidades e pela dominância. No entanto, eles têm que aprender a se valorizar mutuamente. A alma precisa de um corpo sadio para se expressar. O corpo precisa reconhecer a autoridade da alma. Existe um exemplo tradicional que diz que um homem é como uma carruagem, destas que, antigamente, era utilizada como meio de transporte.

A carroça simboliza o corpo do homem, que sozinho não pode realizar nenhum movimento. Os cavalos que puxam a carroça são os instintos que movimentam, fisicamente, a carroça em diferentes direções. O cocheiro simboliza a emoção que indica: parar, à direita ou à esquerda, mais rápido, mais devagar, etc. Mas, quando a carruagem encontra-se frente à possibilidade de seguir diferentes caminhos, quem decide? A carroça sozinha não pode se movimentar; os cavalos esperam a ordem do cocheiro. E o cocheiro, a quem obedece?

Ao passageiro, que nós não vemos, mas é quem faz com que tudo se movimente e gire em torno de sua vontade, já que foi ele quem “contratou” a carroça com os cavalos e o cocheiro para conduzi-lo ao seu “destino”. A essência interior da alma é representada pelo passageiro. Nós sentimos sua presença. Ela revela-se no corpo através da intuição, das emoções e dos pensamentos para atingir seu objetivo no mundo: compartilhar, compartilhar, compartilhar cada vez mais; evoluir, evoluir, evoluir e, um dia, fundir-se à Luz infinita. Portanto, para se ter um dia significativo reconheça sua alma, a intensidade e a força moral que ela proporciona. Ela confere um novo sentido para cada atividade, permite descobrir a santidade e a divindade em tudo o que se faz. Lembre-se que vai morrer... Aproveite o dia.

O autor, Paulo Cezar Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Unesp-Bauru

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