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Faculdade de medicina - focando o real problema


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Caro leitor, mais uma vez venho me manifestar através deste conceituado jornal, porque após ler algumas cartas aqui publicadas achei que alguns esclarecimentos se fazem necessários para que não se perca o foco do que considero verdadeiramente preocupante com relação à vinda desta faculdade para Bauru.

Em primeiro lugar, acho necessário esclarecer que não há temor com relação à concorrência na área médica, pois como este mesmo JC já publicou em 7/10, Bauru tem muito mais médicos do que o considerado ideal pela OMS e o setor já convive com a realidade da concorrência. É só andar pela cidade e constatar. O problema é que a administração pública não consegue trazer estes médicos para o setor público de atendimento simplesmente por não conseguir estruturar uma rede de atendimento com boas condições de trabalho, planos de carreira e salários que sejam atraentes para o profissional, e não por falta de oferta de médicos no mercado. Outro equívoco é achar que há monopólio no setor privado de planos de saúde; Bauru tem, além da Unimed, a Beneplan (Plano da Beneficência Portuguesa ), São Lucas e São Francisco Saúde, bem como inúmeros outros planos que, embora não operem na cidade, atendem seus conveniados por intercâmbio ou reembolso.O fato de um plano se sobressair em relação ao outro é apenas questão de competência e não reserva de mercado ou de mão de obra profissional, como muitos erroneamente supõem. Portanto, é inocência achar que uma Faculdade de Medicina é temida por criar um cenário de concorrência, pois este cenário já é uma realidade há tempos em Bauru. Feitos estes esclarecimentos, quero chamar atenção para o que considero o real problema. A Faculdade da Unimar é uma instituição privada e considero possível que seu proprietário, no intuito de aumentar lucros ou diminuir prejuízos que possam estar ocorrendo, esteja buscando através de parceria com a AHB não só utilizar-se de instalações e estrutura desta instituição, como também através dessa aliança ter acesso a verbas públicas (SUS), as quais ele hoje tem dificuldades para obter. Em razão disso e aproveitando o tão acalentado sonho da Faculdade de Medicina por parte da população de Bauru, podem estar iludindo o povo que inocentemente passa a defender esta aliança por acreditar que tal faculdade vai resolver os vários problemas da saúde pública de Bauru, o que não é verdade. É por isso que muitos médicos têm se manifestado, pois esforços e dinheiro público que poderiam efetivamente ser utilizados para resolver a verdadeira razão do problema podem acabar desviados no interesse de tal faculdade.

Quero deixar bem claro que se a Unimar aqui viesse, comprasse um terreno e construísse um hospital ou mesmo comprasse um, com dinheiro próprio, eu não estaria escrevendo uma linha sequer. Na verdade, estou escrevendo não só como médico, mas como cidadão que por acaso é médico e por isso consegue ver um pouco mais a fundo o problema. Temo que se esta questão não for muito bem avaliada, amanhã possamos ter uma população mais uma vez desiludida, os problemas da saúde pública persistindo ou mesmo agravados apesar da faculdade e apenas um grupo de pessoas ligadas a essa parceria (AHB – Unimar) tendo seus interesses particulares atendidos. Caros leitores, precisamos estar atentos, nós pagamos impostos e dinheiro público vai estar implicado nesta parceria. Por isso peço às pessoas do poder público, aos formadores de opinião e aos cidadãos interessados no bem público que analisem com cautela a questão e não saiam inocentemente festejando uma faculdade de medicina, distribuindo terrenos e dando todas as bênçãos possíveis a tal negócio. Sejam mais prudentes com o nosso dinheiro. Avaliem com calma. Por que tanta pressa?!

O autor, Lourenço Antonio Zequi, é médico anestesiologista em Bauru - CRM 65268

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