Santa Cruz de la Sierra - Os presidentes da Bolívia e da Argentina, Evo Morales e Néstor Kirchner, assinaram ontem, em Santa Cruz de la Sierra, o segundo maior contrato de venda de gás natural boliviano. O negócio envolve a produção, processamento e transporte de mais 20 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia para a região Nordeste da Argentina. Esse contrato se soma a outro, menor, de 7,7 milhões de metros cúbicos diários.
Os 27,7 milhões de metros cúbicos por dia, que passarão a ser vendidos a partir de 2009, dará à Argentina o peso que tem o Brasil na pauta boliviana de exportação de gás natural. O Brasil tem um contrato de importação de até 30 milhões de metros cúbicos por dia até 2019. A Bolívia afirma que o acordo com os argentinos dará ao país US$ 17 bilhões, em valor presente, em ingressos ao longo dos 20 anos do contrato.
Para cumpri-lo, entretanto, a Bolívia precisará receber grandes investimentos na expansão da oferta de gás. Yussef Akly, gerente de Coordenação e Estratégia da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos (CBH), que reúne empresas do setor de petróleo e gás, afirmou que o negócio é positivo para o país, mas exigirá a atração de grandes investimentos, interrompidos depois da nacionalização, e a mudança de contratos com as petroleiras que estão no País.
O investimento neste ano, pondera Akly, será seis vezes menor que o internalizado na Bolívia em 2000. A projeção é que o setor receba US$ 100 milhões neste ano. “Para atender ao contrato com a Argentina, a Bolívia precisará ter pelo menos dois megacampos de gás, como os de San Alberto e San Antonio, os dois que sustentam o contrato com o Brasil”, disse. O investimento necessário para isso pode ser de US$ 3 bilhões.
Akly afirma que ainda não está claro quem fará esses investimentos. A Energia Argentina Sociedade Anônima (Enarsa), estatal argentina, poderá encampar projetos de exploração e produção na Bolívia, em parceria com a Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB).
Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE), assegura que a Bolívia não tem condições de cumprir o novo contrato. “Neste momento, o país nem sequer tem condições de cumprir o contrato de 7,7 milhões com os argentinos”, afirma.
Pelo acordo, a Bolívia terá de atingir esse limite até o fim deste ano. Pires afirma que o Brasil poderá ter problema de abastecimento, o que foi negado pelo governo Evo Morales.
Por dia, a Bolívia é obrigada a produzir e entregar cerca de 43 milhões de metros cúbicos. Esse é o comprometimento com o Brasil, a Argentina (excluído o novo contrato) e a demanda interna. Com o acordo de ontem, a Bolívia passa a ter que produzir diariamente 63 milhões de metros cúbicos, a partir de 2009, quando a Argentina espera receber os 27 milhões de metros cúbicos por dia. Até lá, Bolívia e Argentina investirão num gasoduto para o transporte, o que demandará recursos de US$ 1,2 bilhão.
Além disso, ambos os países incluíram na negociação a construção, também em parceria, de uma planta para processamento do gás. A Argentina bancará a construção da unidade que ficará no lado boliviano. Como contrapartida, a Argentina participará em 50% nas receitas de venda do GLP e da gasolina que serão produzidas na unidade. Os produtos deverão ser exportados, o que renderá à Bolívia ingressos de US$ 7,9 bilhões durante a vigência do contrato.