Política

‘A oposição perdeu a chance de vencer’

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

Em dia de eleição é natural que analistas façam o balanço do que foi a campanha eleitoral, e quais seus efeitos no voto do cidadão. No entanto, o sociólogo e historiador Demétrio Magnoli, doutor em geografia humana pela Universidade de São Paulo (USP), afirma que na eleição presidencial que se define hoje, a oposição, representada pelo candidato Geraldo Alckmin da coligação Por um Brasil Decente (PSDB-PFL), perdeu o rumo e a chance de vencer o pleito contra o presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva.

Magnoli esteve em Bauru na quinta-feira, onde ministrou palestra sobre o oriente médio para os alunos do Ensino Médio do Colégio Seta. Para ele, se Alckmin for realmente derrotado na eleição de hoje, como apontam as pesquisas de intenção de votos, pode jogar a culpa em um conjunto de erros cometidos pelos partidos de oposição a Lula, o PSDB incluído. “Esse conjunto de erros vem desde o ano passado, quando era necessário, inclusive do ponto de vista legal e ético, pedir o impeachment do Lula, mesmo que ele não fosse aceito pelo Congresso”, frisou.

Outro erro oposicionista, segundo o sociólogo, foi a escolha do candidato à presidência. Ele lembra que quando foi definido que Alckmin seria o oponente de Lula, estava em pior situação nas pesquisas do que o governador eleito de São Paulo, José Serra, que na ocasião se apresentava como candidato a presidente. “O candidato em melhores condições era o Serra. Todas as pesquisas mostravam isso”, disse.

Outra falha detectada por Magnoli, que na opinião do sociólogo, levou ao aumento da vantagem de Lula sobre Alckmin nas pesquisas, foi a campanha despolitizada feita pelo PSDB. “Na falta de um programa político alternativo ao do Lula, o que vai apresentar são denúncias, que são necessárias, mas que não conseguem nunca se ligar a um programa político e econômico alternativo. Se você observar o que Alckmin diz durante a campanha, vai perceber que estamos diante de dois programas muito semelhantes, do ponto de vista político e econômico”, salientou.

Plebiscito

De acordo com Demétrio Magnoli, o candidato tucano perdeu a oportunidade de converter para si os votos contra Lula, percebidos no primeiro turno. Para ele, o eleitor não votou em Alckmin no dia 1o de outubro, mas sim contra Lula. “O primeiro turno deve ser visto como um plebiscito, e nesse plebiscito Lula perdeu de 52% a 48%”, destacou.

Contudo, o fato dos votos anti-Lula não terem se convertido em votos pró-Alckmin demonstra que o eleitorado descontente com o atual governo não encontrou na oposição, nem a voz, nem um programa político que lhe fosse satisfatório. “O que os 52% de eleitores não viram em Alckmin foi um presidente, um programa, uma perspectiva de futuro claramente diferente da de Lula”, comentou.

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Certo pelo duvidoso?

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, diante dessa falta de perspectiva dos descontentes com o atual presidente, mas sem enxergar alguém que responda seus anseios no candidato tucano, parte deste eleitorado vai votar em branco, nulo, ou votar em Lula.

Neste aspecto, funcionou bem, segundo Magnoli, a estratégia usada pelo PT, de que votar em Alckmin seria “trocar o certo pelo duvidoso”. “O mais impressionante de tudo é que Alckmin sequer conseguiu defender as privatizações feitas pelo governo anterior. E nós chegamos a um ponto patético em que Lula comemora o fato de que hoje os brasileiros têm telefone, e ao mesmo tempo acusa Fernando Henrique de ter privatizado o sistema de telefonia. Diante disso, Alckmin não tem resposta, porque não tem um programa alternativo”, salientou.

Voto útil

Outro ponto interessante, que pode explicar como se desenhou o cenário para a eleição de hoje, é o fato de que nem todos os eleitores de Geraldo Alckmin, estão votando nele, mas sim votando contra Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. “As pessoas que vão votar em Alckmin, em sua maioria, sequer estão votando nele. Elas votam contra Lula qualquer que seja o outro candidato. Votariam em um poste para votar contra Lula, e se sentem votando em um poste”, disse.

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