Menos gelada do que esperado, mas com a chuva que ameaçou cair a tarde toda, a noite de anteontem em Curitiba foi histórica, no braço paranaense do TIM Festival. Nesse tipo de evento, é possível comprovar como qualquer hype - a “onda” do que está em alta - de banda, diva ou DJ da última semana se dilui frente à experiência de 20, 30 ou mais anos de palco.
Foi assim com o Yeah Yeah Yeahs e DJ Shadow, que fizeram shows corretos, porém perdidos para o público de cerca de 10 mil pessoas na Pedreira Paulo Leminski. A cantora Patti Smith provou porque é ícone e merece respeito, comandando a massa com rock cru e sem floreios. E os Beastie Boys, grande atração do festival todo, ao lado da dupla Daft Punk, mostraram o que fazem melhor: um terremoto hip hop.
A noite começou com a Nação Zumbi com som perfeito e engatando hit após hit. Em sua quebradeira habitual, eles tocaram músicas antigas, como “Samba Makossa”, “Rios, Pontes e Overdrives” e “Maracatu Atômico”, ao lado de coisas mais novas, como “Blunt of Judah”, “Hoje Amanhã e Depois” e “A Ilha”, sem esfriar em quase uma hora de show.
Com o DJ Shadow, veio a chuva que enfiou parte do público sob as barracas de bebida. Enquanto os vendedores de capas plásticas faziam a festa, o produtor norte-americano apresentava faixas de seus três discos, “Endtroducing”, “Private Press” e do novo, “Outsider”. Com o MC Lateef no palco, o set ganhou forma e o DJ, considerado um dos mais inovadores nomes do hip hop atual, conseguiu empolgar na mistura de rap, rock e techno.
Política loira
“Nós não devemos obedecer o governo e as corporações. São as corporações e o governo que devem nos servir”, bradou Patti Smith, ícone do rock dos anos 1970, em show de tom politizado sem ser chato e repleto de sucessos. Empunhando uma guitarra, a cantora louvada como uma das precursoras do punk relembrou “Free Money”, “Redondo Beach”, “Southern Cross”, além das mais recentes “Stride of Mind” e “Trespasses”.
Patti Smith levantou a platéia especialmente em “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones, “Because the Night”, “People Have the Power” e “Gloria”, que encerrou o show e provou de onde vem a atitude roqueira de todas as cantoras que já tiveram uma banda atrás de si, de Debbie Harry a Karen O.
A performática vocalista do Yeah Yeah Yeahs, próximos a subirem ao palco da pedreira, fez seu espetáculo habitual. Assim como em São Paulo, o repertório incluiu os sucessos do primeiro CD da banda, como “Y Control”, “Cheated Hearts” e “Pin”, ao lado de faixas do último disco, lançado no primeiro semestre - “Gold Lion”, “Cheated Hearts” e “Way Out”.
A famosa “canção de amor” da banda, “Maps”, dessa vez foi dedicada ao Brasil - “onde já estamos há vários dias (risos) nos divertindo muito”, definiu Karen. Mas a distância do palco, a chuva fina e a falta de hits verdadeiros para o grande público levou muita gente às barracas de comida. Todo o festival de atitude da vocalista se repetiu: cuspiu para cima, rolou pelo chão, dançou com os músicos, mas nada disso funciona em um ambiente tão grande como a pedreira se a música não for o mais importante.
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Chave da cidade
Quando Mixmaster Mike, DJ que acompanha os Beastie Boys há mais de uma década, colocou o primeiro LP em sua pick-up, o que era gritaria de empolgação com o início do show tornou-se um “oooh” coletivo. Vestidos de terno e gravada, Adrock - ainda com um chapéu estiloso -, MCA e Mike D comandaram o espetáculo como se ainda tivessem 18 anos.
Revezando-se em perfeita sintonia nas letras e correndo de um lado para o outro, os três MCs, especialmente Adrock, não pararam de dançar um só minuto - uma dancinha de judeus branquelos cantando rap, mas dançaram.
Trocando discos e fazendo scratches com o cotovelo, Mixmaster Mike transmudou praticamente todas as músicas, deixando-as mais pesadas e sujas - tudo o que o público pedia com a acústica perfeita da pedreira, elogiada por MCA: “Lindo lugar”. E a pedreira respondia, quase vindo abaixo.
E além de cantar, os Beastie Boys falam, tiram sarro entre si e convidam o público a participar de suas brincadeiras internas. Adrock passou o show pedindo a presença do prefeito para lhe entregar a chave da cidade, homenagem comum nos Estados Unidos. Ainda era seu aniversário e ele ganhou bolo, champanhe e um “Happy Birthday” de 10 mil pessoas.
O repertório passeou por todas as épocas do grupo: “No Sleep Till Brooklyn”, “Time to Get Ill”, a rebolativa “Brass Monkey”, “So What´cha Want”, “Sure Shot”, “Root Down”, “Do It” e “Body Moving” às músicas do álbum de inéditas mais recente, como “Ch-Check It Out”, “Time to Build”, “3 The Hard Way” e a dançante “Triple Trouble”.
Os três moleques - MCA tem 43 anos, Mike D, 41, e Adrock completou 40 - só largaram os microfones no bis, quando voltaram ao palco para assumir seus instrumentos: Adrock cantou com uma guitarra, Mike D sentou-se à bateria e MCA distorceu um baixo violentamente para “Intergalactic” e na ultraroqueira “Sabotage”, com direito a berro gutural e tudo mais.
Se a dupla Daft Punk encantou São Paulo com um espetáculo eletrônico de luzes e efeitos, os Beastie Boys colocaram Curitiba a seus pés com nada mais do que seus vocais agudos, seu hip hop roqueiro, a mágica de seu DJ e sua experiência de mais de 20 anos.