Saúde

Quando o time perde

Por Fernanda Bassette | Folhapress
| Tempo de leitura: 5 min

Um dos principais motivos para que isso aconteça é o aumento dos níveis de cortisol (liberado em situações de estresse) no sangue. O cortisol é um hormônio produzido pela glândula supra-renal (que fica em cima do rim) e é considerado um “maestro do organismo”, pois interfere no funcionamento de todos os outros hormônios. Em situações de estresse físico ou emocional ele é liberado pelo organismo como forma de resposta àquela situação.

“A pessoa com os níveis de cortisol alterados pode ficar mais irritada e até mesmo agir com agressividade em algumas situações. É comum que no dia seguinte à decepção - como a derrota de um jogo importante -, muitas pessoas fiquem com o ‘pavio curto’ com os que estão ao seu redor. Em algumas situações, essa alteração pode até afetar o desempenho da pessoa no trabalho”, explicou a psiquiatra Alexandrina Meleiro, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora da USP.

Segundo Alexandrina, observar a reação dos torcedores logo após uma derrota em uma partida de futebol é um bom exemplo para verificar esse tipo de situação. “O brasileiro é fanático por futebol, muito mais do que com outros esportes. Se o time dele ganha um título, é visível que o torcedor vai trabalhar mais feliz, com mais entusiasmo, com mais vontade. Pode até render mais na empresa. Já se o time perde o jogo, a tendência é que a pessoa fique triste, irritada e queira sair quebrando tudo o que vê na frente.”

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Transferir problemas

O psiquiatra Sérgio Klepacz, do Hospital Samaritano, também destaca a alteração dos níveis de cortisol no sangue como um dos motivos para o transtorno de humor que os torcedores sofrem quando seu time perde uma partida. Ele destaca, porém, que a reação das pessoas também inclui fatores pessoais. “É como se o brasileiro transferisse para o jogo os problemas que enfrenta no dia-a-dia”, disse.

“Em geral, o ser humano precisa depositar em alguma coisa as suas expectativas para ter uma vida sem estresse. E ele acaba se apoiando nos jogos de futebol. A pessoa tem problemas em casa, no trabalho, na escola, mas acredita no futebol. Se essa expectativa for quebrada, a pessoa pode entrar num quadro de tristeza profunda, que pode acabar se tornando uma depressão”, disse.

O psiquiatra Marco Aurélio Peluso, especialista em psiquiatria e esporte, afirma que não conhece estudos específicos sobre o aumento dos níveis de cortisol nos torcedores antes e depois dos jogos. “Mas, dentro do que a gente conhece, é muito provável que os níveis estejam alterados, principalmente depois de uma derrota”, disse.

Segundo Peluso, todas essas reações dos torcedores acontecem porque na hora em que o time de futebol entra em campo, eles se identificam com os jogadores. “No caso da Seleção Brasileira, por exemplo, a identificação acontece por uma questão de nacionalidade. É como se o torcedor também entrasse em campo. É por isso que no momento da derrota, muitos entram em crise e não sabem lidar com essa situação”, explicou.

Para Peluso, o brasileiro tem dificuldade em lidar com a derrota e com a frustração por uma questão cultural. “Nós temos de ser os melhores do mundo, sempre. O brasileiro se identifica tanto com o jogador, que depois da derrota o time vai tirar férias e o torcedor vai ficar em casa, deprimido. É como se ele tivesse perdido o jogo.”

Os especialistas destacam, porém, que esses sintomas de irritabilidade, tristeza, agressividade ou depressão são transitórios e devem durar poucos dias.

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Contador terminou namoro por causa de jogo

“Futebol para mim é tudo. A minha paixão pelo São Paulo surgiu em 1990, quando eu tinha 13 anos e fui pela primeira vez assistir a um jogo no estádio do Morumbi. Era uma partida entre São Paulo e Corinthians pelo Campeonato Brasileiro.

Para uma criança, a oportunidade de ir ao estádio era melhor do que qualquer coisa. Quando entrei no estádio fiquei contagiado com a energia das torcidas. Aquilo foi um marco para mim, principalmente porque antes disso eu não me importava muito com jogos de futebol. Eu acompanhava, mas não com o fanatismo de hoje. Naquela ocasião, infelizmente o São Paulo perdeu o título para o Corinthians, mas depois daquele jogo nunca mais deixei de acompanhar os jogos.

Como um bom torcedor, tenho em casa tudo o que você pode imaginar: camisas originais da seleção brasileira e do São Paulo, lençol do time na minha cama, toalha, canecas, caneta, meião, pôster, boné, tapete, porta-retrato. Tudo o que aparece com referência ao São Paulo eu compro. Quando não compro, peço de presente. Já fiz várias loucuras para assistir a um jogo. Cheguei a deixar o meu carro estacionado próximo do Ibirapuera e ir até o estádio do Morumbi a pé porque o trânsito estava complicado e eu não poderia perder o jogo. Cheguei exausto, mas valeu a pena.

Além disso, eu também gravo todas as partidas quando vou ao estádio para depois assistir novamente e rever todos os lances. O problema é que fico muito estressado durante os jogos e mais ainda se o meu time perde. Já terminei um namoro por causa disso. Era uma partida entre São Paulo e Cruzeiro, pela Copa do Brasil, e o São Paulo perdeu o título. Minha namorada, que era corintiana, ficou tirando sarro de mim. Não suportei. Briguei com ela e terminei o nosso relacionamento de seis meses. Também cheguei a faltar do trabalho um dia depois que o São Paulo perdeu uma partida.

Eu admito que fico irritado e não quero papo com ninguém, por isso prefiro não ver as pessoas. Quando o meu time perde, fico noites sem dormir pensando nas jogadas. No caso da partida do Brasil contra a França, na Copa do Mundo, fiquei decepcionado, desgostoso, triste. Não esperava a derrota. A seleção representa o País e o mundo inteiro pára para ver a Copa. Não tem como não se envolver. Mas é claro que quando o meu time ganha, vou trabalhar muito mais entusiasmado, é só alegria. O ego vai lá em cima. E, como eu já disse, para mim, futebol é tudo.”

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