Ben Affleck tenta reinventar sua carreira com a comédia independente “Um Cara Quase Perfeito”, escrita e dirigida por Mike Binder, diretor de “A Outra Face da Raiva” e da telessérie “Fantasias de Homem Casado” (“The Mind of the Married Man”). O longa, que estréia hoje nos cinemas de Bauru, também conta no elenco com Rebecca Romijn (a Mística da série de filmes “X-Men”) e o comediante John Cleese (indicado ao Oscar por “Um Peixe Chamado Wanda”).
Affleck é Jack Giamoro, um agente de talentos em Hollywood cheio de criatividade e problemas. Seus clientes são difíceis de aturar e estão cada vez mais chatos. Entre eles, estão Phil Balow (Adam Goldberg, de “O Resgate do Soldado Ryan”), que escreve para a TV. Em casa, o casamento também não anda muito bem com sua mulher, Nina (Rebecca Romijn). E no escritório ele é obrigado a conviver com tipos estranhos, como Arlene (Gina Gershon) e Morty (Binder), que cuidam da agência enquanto Jack é consumido por seus problemas.
Tentando aliviar do estresse e das demandas do dia-a-dia, Jack começa um curso noturno onde aprenderá como fazer um diário. Ele espera que essa terapia seja uma forma de aliviar as aflições do cotidiano. As aulas são dadas pelo doutor Primkin (Cleese), um sujeito pomposo e temperamental.
Aos poucos, o protagonista reexamina o seu passado, e registra tudo em seu novo diário, em busca do verdadeiro sentido de sua vida. Para isso, ele relembra episódios que considerava esquecidos, como as dificuldades na infância, quando era gorducho, a rivalidade com o irmão, e, principalmente, a escalada para o sucesso em sua carreira.
Entre os coadjuvantes o destaque é a atriz chinesa Ling Bai (“Star Wars: Episódio III - A Vingança de Sith”), no papel de Barbi Ling, uma jornalista carreirista. Depois de ter seu trabalho várias vezes recusado pela agência de Jack, ela busca vingança no melhor estilo “femme fatale” oriental. Tudo se complica quando o diário de Jack cai nas mãos dela com todos os seus segredos mais íntimos.
Identidade
Histórias sobre o inferno astral de um personagem geralmente conduzem a fábulas de fundo moral. É no calvário que gente egoísta, como Jack, irá reavaliar a própria vida, à força, para se transformar em uma pessoa “melhor”. Mike Binder, o diretor, impõe um tratamento de comédia dramática à queda desse antipático personagem. Mesmo que seja um dos profissionais mais badalados de Los Angeles, Jack se sente um tanto vazio, já que não tem talento para escrever.
Mas qual é a intenção de uma fábula moral? Defender uma tese e um caminho modelo a seguir? No registro da comédia, há um certo sadismo no ato de observar a desgraça alheia. “Um Cara Quase Perfeito” fica no meio do caminho, entre lições dúbias, já que Jack e outros personagens ganham as coisas na base da força e/ou da mentira.
Perde-se também em soluções cômicas deslocadas, numa crítica à arrogância dos ricos e poderosos. O longa, no entanto, toca em questões mais interessantes. Jack é, em certo sentido, uma espécie de criador do presente, já que seleciona o que será visto ou não. Seu poder de deus, no entanto, é meramente ilusório. Seja nas páginas de seu diário, onde irá relembrar seu passado para entender o homem que se tornou, seja na profissão, em que decide quem será ou não um astro, Jack vê-se impotente, já que acaba vítima do acaso e será traído justamente por suas escolhas.