Quando Deus criou o mundo concedeu a cada animal vivente um desejo. Ele ouviu todos os seres vivos e realizou o desejo de cada um deles. Quando os seres humanos souberam o que Deus havia feito ficaram extremamente irritados, porque eles haviam sido excluídos deste privilégio. “Nós também não estamos totalmente satisfeitos com este nosso mundo!”, disseram os homens a Deus. “Ótimo, vocês não devem ficar mesmo”, respondeu o Criador, “o lar de vocês não está neste mundo, mas na surpresa da eternidade!” Desde então todos os animais estão mergulhados neste universo, enquanto os seres humanos caminham eretos com os olhos fixos no que está por vir.
O ser humano, segundo Sartre, é o único ser que vivencia uma transformação como destruição. Isso mesmo, uma rachadura geológica, uma tempestade, um maremoto não destróem, mas apenas modificam a distribuição das massas dos seres. O universo é simplesmente transformação. Se um terremoto pode trazer a morte de seres vivos, segundo a natureza, esta morte não será destruição, a menos que seja vivida como tal. Para haver destruição é necessária uma relação entre o ser humano e o universo e nos limites desta relação que o ser humano compreende um ser como destrutível. Isso acontece porque nós temos a tendência de delimitar as coisas, defini-las e de tentar mantê-las estáticas.
O ser humano faz um recorte limitativo de si próprio e de todas as coisas em seu universo. Para o ser humano um ser é isso e, fora disso, nada. Portanto, a transformação de um ser significa para o homem destruição. Em outras palavras o “não-ser” surge sempre nos limites de uma espera humana. Todo ser humano possui uma idéia pré-concebida, um conceito formado de seus semelhantes e das coisas do mundo. Como também desejamos que tudo funcione em uma determinada organização. E justamente porque o ser humano espera a confirmação de sua hipótese, de seu conceito sobre as coisas, de sua visão sobre o funcionamento da ordem, que a natureza pode dizer-lhe: não!
A negação aparece sempre sobre esta relação limitada entre o homem e o mundo, pois o mundo não revela seus “não-seres” a quem não os colocou previamente como possibilidades. Quem não possui a visão de que o universo é uma caixa de surpresas sempre é surpreendido com negações a seu mundo pré-concebido.
Se espero um determinado comportamento de uma pessoa, deveria estar, ao mesmo tempo, preparado para a eventualidade de um outro comportamento. Na verdade, compreender a possibilidade do ser e o não-ser de uma coisa ou acontecimento significa compreender a própria dinâmica da vida como algo essencialmente aberto. Para o homem um ser é frágil se traz em sua estrutura uma possibilidade definida de se destruir. Mais uma vez, o ser humano possui a idéia de fragilidade, porque ele constrói sobre este ser uma limitação individualizadora condicionando-a à fragilidade. Assim, nos acostumamos a dizer que uma determinada coisa é frágil e consideramos a maioria das outras sempre além de toda destruição possível.
A relação de limite individualizadora que o homem mantém com um ser faz chegar a este a fragilidade e a possibilidade permanente de “não-ser”. É assim que o homem, por exemplo, considera um copo de cristal destrutível, precisamente porque o coloca como frágil, precioso e toma um conjunto de medidas de proteção quanto a ele. Ao mesmo tempo, este homem não percebe o quanto ele próprio é frágil e não toma as medidas necessárias para a sua própria proteção e qualidade de vida.
O que muitas vezes deixamos de compreender é a contínua transformação do universo e que a limitação das coisas, a sua individualização, depende sempre da direção de nossa atenção. Quando entramos em um lugar procurando um amigo, todos os objetos, móveis e outras pessoas assumem uma organização de fundo sobre o qual o amigo “deve aparecer”. Esta nossa organização do lugar como “pano de fundo” é uma forma de “nadificação”. Ao procurarmos o amigo, todo o resto não possui significado, direcionamos nossa atenção a uma determinada pessoa.
Se não encontramos o amigo, a sua ausência infesta o lugar e a condição “nadificadora” de todas as coisas desaparece. Se não encontramos o amigo, uma pessoa que é sempre pontual, nos surpreendemos com o fato, pois ele quebra uma regra pré-concebida. Na espera da chegada do amigo começamos, então, a prestar atenção nos outros seres do lugar: objetos, móveis e pessoas. Muitas vezes, vemos o mundo e a vida desta forma: com um olhar direcionado e condicionador.
O resto, todas as coisas que não estão em nossos interesses, não representam nada, são “nadificados”. Só começamos a dar importância a todo o resto quando o alvo de nossos interesses é destruído ou já não existe mais. O segredo da vida está em uma percepção ampla, sem se fixar em nada, porque tudo se transforma. O segredo da vida é se interessar por tudo saboreando o todo, porque a vida não possui limites.