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Entrevista da semana: João Cabreira, o cigano da noite

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Há 23 anos na estrada, João Cabreira é um dos grandes nomes da noite bauruense. Proprietário da danceteria Live Disco, ele é o mestre de obras de diversos estabelecimentos e casas noturnas que fizeram sucesso na cidade.

Vale lembrar do Zanzi Bar, que marcou sua estréia na área, do Camarim e da Cachaçaria do Jão, ponto de encontro da moçada. Foi proprietário também do Tequila, lavando um som eclético para a pista, Maria Bonita e Villa Madalena, com diversos ambientes para agradar públicos de diferentes idades.

Com tantos estabelecimentos criados por ele, Cabreira pode ser considerado um verdadeiro “cigano da noite”. De acordo com ele, as mudanças acompanham o ritmo dos baladeiros de plantão – que, por sinal, vivem em constante movimento. Para Cabreira, a onda do momento gira em torno de baladas modernas, regadas a house e black music e freqüentadas, principalmente, por jovens entre 18 e 22 anos.

“É preciso ficar antenado com as tendências. Acho que os jovens do passado e de hoje são iguais. Mas agora eles são maioria e dominam a noite”, observa ele, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Em um descontraído bate-papo, Cabreira falou sobre estes e outros assuntos relacionados a baladas, sua carreira e trajetória pessoal. Confira os melhores trechos a seguir.

Jornal da Cidade - Como teve início sua carreira?

João Cabreira - Comecei jogando vôlei. Depois fui bancário e, trabalhando no banco, tive a idéia de montar um bar, mesmo sem experiência nenhuma. Surgiu o Zanzi Bar, em 1983. Ele funcionava todos os dias, com música ao vivo e portaria livre.

JC - E nesta época, você continuou trabalhando como bancário?

Cabreira - Sim. Continuei no banco e no bar. Mas depois parei com o banco.

JC - Ter um negócio voltado ao entretenimento sempre foi sua vocação?

Cabreira - Eu sempre gostei. O Zanzi Bar foi minha primeira experiência. Tinha 19 anos de idade. Eu curti trabalhar e estou nesta área há 23 anos.

JC - Depois do Zanzi Bar, você abriu danceterias na cidade. Fale um pouco deste período.

Cabreira - Abri a boate Camarim. Depois montei um restaurante na praia Cocain, entre Caraguá e Ubatuba, chamado do Bar do Francês. Era uma casa para o verão e depois voltei para Bauru, onde montei a Cachaçaria do Jão, na Duque de Caxias. Em 1994 abri o Tequila, o qual acredito que representou uma revolução na noite da cidade.

JC - Por que?

Cabreira - O Tequila não tinha muita luz. O som era muito eclético, tocava de Rolling Stones a Gretchen. Era tudo dançante como um caldeirão e as pessoas não paravam de dançar. Ele quebrou o conceito de boate, foi um novo formato. Era um bar mexicano, com estilo caliente e mudou a noite de Bauru.

JC - O Maria Bonita também foi um referencial de mudança?

Cabreira - Sim, seguindo um conceito de uma casa maior. Depois abri o Carmem, inspirado em uma dançarina espanhola. Foi mais ou menos seguindo o estilo do Tequila, mas com um novo nome e desenho. Depois fiquei um ano com o pessoal da Cervejaria e depois saí para montar o Villa Madalena, uma casa com vários ambientes, três pistas, restaurante e Clube do Whisky para atender todo mundo. Foi outra inovação. Depois do Villa veio o Bangalô, com inspiração indiana. Em seguida, abri o Havana. Eu e meu sócio fomos para Cuba. Ficamos uma semana e trouxemos muitos objetos decorativos do país. E agora, a Live Disco.

JC - Você costuma viajar para outros países e buscar inspiração ou tendências antes de abrir um negócio?

Cabreira - Sim. Na época do Tequila, fui para Cancun, referência na época e adaptei a cultura mexicana para Bauru.

JC - Por que você opta por mudar constantemente sobre a abertura de bares ou danceterias?

Cabreira - Nós trabalhamos com “modinha”. E acredito que a noite é como Carnaval. Cada ano é um enredo e um samba diferente. A noite é isto e as pessoas gostam de novidade.

JC - É fácil perceber o momento propício para as inovações?

Cabreira - Sim. É possível perceber pelo público. A vida útil de uma casa noturna é de oito meses a 1 ano no máximo. Isso, mesmo sem concorrência.

JC - Você está pensando em transformar a Live Disco em outra casa noturna?

Cabreira - Tenho outro projeto para ela. Mas tenho dois projetos novos para o começo do ano, que ainda estão em “off”.

JC - Você acompanha o funcionamento de suas casas noturnas? Faz questão de ficar no local até fechar?

Cabreira - Eu criei todas as minhas casas. Hoje gosto mais da parte de criar, fazer e esperar que o público goste. Mas eu gosto da noite e freqüento sempre.

JC - Sua família o acompanha?

Cabreira - Meu filho Gabriel, de 18 anos, trabalha comigo, como DJ. Ele está nesta área desde os 13 anos e gosta. Ele sempre gostou de mexer com música, desde os 10 anos gostava de entrar na cabine de som. A Rosi fica mais nos bastidores.

JC - E seu outro filho, o Adinan?

Cabreira - Ele tem 10 anos e é um pouco novo. O Adinan nasceu depois que meu sócio morreu. Nós iríamos montar uma casa noturna em Ribeirão Preto e, na volta, ele sofreu um acidente. O Adinan era como um irmão. O nome do meu filho é em homenagem a ele.

JC - Como é seu dia-a-dia?

Cabreira - Muitas pessoas não acreditam, mas por volta das 6h30 e 7h da manhã eu acordo, faço café e leio jornal. Durante a semana eu durmo bem cedo, mais ou menos às 11h da noite. Mas não costumo dormir muito, cerca de 5 a 6 horas.

JC - Esta rotina vale para os dias de balada?

Cabreira - Aí é um pouco diferente. Mas mudou muito porque antes eu chegava em casa às 5h. Hoje chego 7h ou 8h da manhã. Mas não passo do meio-dia. No geral, meu cotidiano é tranqüilo. Eu trabalho mais durante o dia do que à noite.

JC - Ainda joga vôlei ou pratica exercícios físicos?

Cabreira - Joguei profissionalmente durante dez anos, antes de trabalhar no banco. Eu fazia academia. Tive um problema na coluna, precisei parar, mas eu volto.

JC - O que gosta de fazer em seu tempo livre?

Cabreira - Tenho alguns hobbies. Gosto de colecionar objetos antigos. Tenho um carro e móveis antigos na minha casa e escritório. Mas gosto de antigüidade e não de velharia.

JC - Mas nas casas noturnas, caso da Live, por exemplo, é tudo moderno.

Cabreira - Pois é. Mudei radicalmente para atender o público jovem.

JC - Com 23 anos de carreira, você acompanhou a “noite” da sua geração e agora, na geração de seus filhos. Houve muitas mudanças?

Cabreira - Meus amigos e clientes de Camarim têm filhos na faixa etária dos 20, 23 anos. De um ano para cá houve uma mudança radical e os jovens são mais assíduos. Depois do Havana eu reformei o Villa, mas percebi que não estava dando muito certo. E aí mudei radicalmente o conceito e montei a Live, que é uma boate decorada para a moçada de 18 a 22 anos, com som para eles. E dia 16 comemoramos um ano da Live. Por isto é preciso ficar antenado com as tendências. Acho que os jovens do passado e de hoje são iguais. Mas agora eles são maioria e dominam a “noite”.

JC - Além da Live, você ajuda a administrar a loja Dzarm?

Cabreira - A loja é da Rosi, minha esposa. Eu vou lá, mas não me envolvo. É ela quem administra.

JC - Você acha que a moda influencia a música e as baladas?

Cabreira - É ao contrário. Acredito que a música pode influenciar a moda. Este é meu ponto de vista porque nunca ouvi falar que a tendência musical é inspirada em determinada roupa, mas já vi muitas vitrines inspiradas na música. Agora, por exemplo, há uma onda forte dos anos 80 nas passarelas, que não tem muito a ver com as músicas que estão em alta.

JC - Mas a Live já foi palco de diversas festas temáticas e com repertório musical dos anos 80.

Cabreira - Sim.

JC - E estas festas fazem sucesso no público adulto?

Cabreira - Sim, mas estes eventos têm que ser muito esporádicos. Muitas pessoas perguntam porquê eu não monto uma casa noturna para o pessoal mais velho, mas não há publico suficiente.

JC - Diversas casas noturnas, como a Live, já organizaram festas beneficentes. Como são estas experiências?

Cabreira - Tive uma experiência muito interessante no mês passado e vou repetir no dia 13 de dezembro. A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) entrou em contato conosco para que seus usuários conhecessem a Live. É comum recebermos grupos escolares, mas no caso da Apae, foi diferente. Foram cerca de 300 pessoas, todas com Síndrome de Down, acima de 14 anos, que chegaram em sete ônibus. A Polícia Militar interditou a rua. E a festa foi maravilhosa e muito emocionante.

JC - Além deste momento, há outros momentos marcantes em sua trajetória de vida? Quais?

Cabreira - Teve muitas coisas boas, como o nascimento dos meus dois filhos. Uma coisa que marcou muito minha vida foi quando completei 40 anos e recebi o título de cidadão bauruense. Isto mudou um pouco minha vida, foi um marco. Mas tenho um momento triste ocorrido há 12 anos, o qual até hoje não consigo assimilar, que é a perda do meu sócio.

JC - Você faz parte de algum partido político?

Cabreira - Sou filiado ao Partido Verde (PV).

JC - Já pensou em se candidatar a algum cargo?

Cabreira - Já tive convites, mas nunca aceitei. E talvez o próximo ano seja propício para entrar na política.

JC - Pensa em se aposentar do ramo da “noite” bauruense?

Cabreira - Nunca. Quero morrer num bar (risos).

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Perfil

Nome: João Cabreira

Idade: 43 anos

Local de nascimento: Borebi, Interior de São Paulo

Esposa: Rosi Cabreira

Filhos: João Gabriel Cabreira e Adinan Cabreira

Hobby: Pescar

Músico preferido: Raul Seixas

Filme preferido: “Olga”

Time do coração: São Paulo

Para quem daria nota 10: Meus pais e minha família

Para quem daria nota 0: Políticos corruptos

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