“Não adianta se entregar aos sonhos se você se esquece de viver.” A frase, de autoria da escritora Joanne Rowling, faz um alerta a todos os indivíduos que não medem esforços para realizar seus desejos, mesmo que para isto seja necessário romper com valores ou “passar por cima” de emoções e relacionamentos. Exposto desta maneira, a descrição do sonhador soa negativamente e serve de inspiração para a criação dos vilões de telenovelas e filmes.
Traços deste perfil, porém, podem caracterizar pessoas reais, aponta a psicanalista carioca e consultora em recursos humanos Beth Valentim. Segundo ela, quem coloca seus sonhos acima de tudo e de todos corre o risco de se tornar vítima do próprio sonho e até prejudicar outras pessoas. “Todas as pessoas devem sonhar, mas não o impossível”, diz. E vai além: “O grande problema é quando o indivíduo imagina que pode tudo e todos os seus sonhos podem ser realizados. É o complexo do herói, que chegará ao sucesso custe o que custar”, aponta ela, que lançou recentemente o livro “Mequiel – O Caçador de Sonhos” (Editora Qualitymark). A obra conta a história de um personagem que paga um preço elevado por acreditar em um sonho impossível e mostra as conseqüências da busca inconseqüente pelo sucesso e poder.
Para a psicoterapeuta e doutora em psicologia clínica Marilene Krom, o sonhar, no sentido de almejar coisas materiais ou experiências subjetivas, é um comportamento natural do ser humano. Isto porque os sonhos se respaldam nos desejos e necessidades humanas. “Somos eternamente insatisfeitos. À medida que uma necessidade é satisfeita, surgem outras, como ter o carro do ano ou a roupa de determinado modelo ou cor”, observa.
É preciso muito cuidado, porém, para não deixar que os sonhos sejam prejudiciais ou tenham efeito paralisante, ressalta Marilene. Ela defende a importância de sonhar com o “pé no chão”. “A vida se faz num fluxo de energia contínua. É preciso, de tempos em tempos. As pessoas devem, de tempos e tempos, rever seus antigos sonhos, pois eles devem ser ajustados constantemente”, diz. “O ser humano se modifica com as experiências da vida e muito do que ele sonha na adolescência, não serve mais para sua situação atual de vida”, detalha.
Este cenário pode se agravar quando as pessoas esperam que os outros realizem seus sonhos, aponta Marilene. “É difícil porque o sonho de uma pessoa pode não ser a da outra”, aponta. Ela cita como exemplo os pais que desejam que o filho se torne médico. Na novela “Páginas da Vida”, a dona de casa Ana (Débora Evelyn) projeta na filha adolescente Giselle (Pérola Faria) seu sonho de ser bailarina. A garota, por sua vez, afirma não ter vocação para a dança, mas por imposição da mãe, freqüenta as aulas de balé. Experiência semelhante ocorreu com a professora aposentada Solange*, 56 anos. Quando sua filha, na época com 17 anos, prestou vestibular para artes cênicas, ela fez “campanha” contra. “Gostaria que ela tivesse o curso de direito. Mas hoje estou feliz por vê-la realizada na vida pessoal e profissional”, diz.
O caso da modelo Ana Carolina Reston Macan, e da estudante de moda Carla Sobrado, ambas de 21 anos, morreram recentemente devido a complicações decorrentes da anorexia, são exemplos de pessoas que também se tornaram vítimas do próprio sonho. “Na busca pelo corpo ideal, muitas mulheres podem se tornar doentes”, comenta Marilene. Existem ainda os sonhadores que em busca de um ideal, podem prejudicar relacionamentos e afetar outras pessoas. Neste contexto, Marilene cita os workaholic, indivíduos obcecados pelo trabalho e, para conseguir sucesso profissional, colocam em detrimento relacionamentos e a vida pessoal. O publicitário Álvaro*, 45 anos, se identifica com este perfil. Com uma rotina de trabalho de aproximadamente 14 horas diárias, ele revela não ter muito tempo para se dedicar à esposa e aos filhos.
* Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.