No início da epidemia de aids, o desconhecimento da causa e dos fatores envolvidos na transmissão da infecção levou ao surgimento de estigmas, preconceitos e atitudes discriminatórias em relação aos portadores do vírus HIV. O medo e o isolamento invadiram lares, escolas e empresas.
Hoje sabe-se muito sobre o vírus, como diagnosticá-lo precocemente, tratá-lo e mantê-lo sob controle. No mundo, graças ao acesso expandido do tratamento anti-retroviral, cerca de 250 mil a 350 mil mortes foram evitadas em 2005, segundo dados da Unaids. No Brasil, a sobrevida de pacientes com aids maiores de 12 anos subiu de estimados 51 meses no período de 1982 a 1989 para 58 meses em 1996.
No Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo, órgão da Secretaria de Estado da Saúde, a sobrevida após 36 meses de acompanhamento dos pacientes diagnosticados em 1992 era de apenas 22,8%. Este número subiu para 79,2% entre os diagnosticados em 1997. Com a introdução do AZT profilático, em 1994, a transmissão vertical (mãe para filho) caiu de 16% para 2%.
No Estado de São Paulo, de 1980 até junho deste ano foram notificados 151.961 casos de aids, sendo 70,45% (107.058) do sexo masculino e 29,55% (44.903) do sexo feminino. Desses, 80.423 morreram, e outros 70 mil estão em tratamento anti-retroviral.
A Coordenação do Programa Estadual de DST/Aids sempre se orientou por referenciais éticos, legais e políticos capazes de atender às necessidades da população sem posturas discriminatórias ou preconceituosas, e teve sua prática profissional pautada pela noção do direito e da cidadania. As estratégias de prevenção têm caráter de redução de danos, difusão de informação e estímulo ao uso de preservativos.
Merecem especial atenção nessa luta as populações mais vulneráveis, entre as quais homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis, mulheres jovens de baixa renda, crianças em situação de risco social, além de populações em regime de confinamento e difícil acesso. São muitas as vitórias, porém, ainda estamos longe de acabar com a discriminação, preconceito e o estigma que envolvem a doença.
Segundo a Constituição Brasileira, as pessoas que vivem com HIV têm direitos garantidos. O artigo 196, por exemplo, decreta que “saúde é direito de todos e dever do Estado”. No caso da aids, esse direito significa direito à vida e acesso a serviços públicos de qualidade.
Este 1 de dezembro, Dia Mundial de Luta contra a Aids, será marcado por campanhas e manifestações contra o preconceito em relação a pessoas que vivem com aids. Os programas nacional, estadual e municipais, em parceria com organizações não governamentais, unem-se para lembrar à sociedade de que os portadores de HIV, independentemente da forma pela qual infectaram-se, têm direito ao estudo, trabalho, lazer, ao sonho e à vida plena em todos os sentidos.
A autora, Maria Clara Gianna, é médica sanitarista, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo