Pesca & Lazer

História de pescador: Zacarias: o rei das caçadas


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Até o ano de 1961, qualquer um que falasse em caçadas ali na Água da Coruja, um afluente do rio Claro, obrigatoriamente falaria de Zacarias, o rei dos caçadores, assim chamado por todos os moradores daquela região, como diriam os comentaristas esportivos: ”O homem é uma legenda viva no esporte da caça”.

A abundância de caças nos campos da região suscitava nos moradores o gosto pelas caçadas, independente da idade. Era comum entre os homens ali moradores as conversas sobre cachorros e espingardas. Nas sombras das árvores próximas aos gramados onde eram jogadas as partidas de futebol entre as fazendas, durante as noites em que as vezes se guardavam um corpo, o assunto caçada sempre vinha a baila, quem tinha um bom cachorro veadeiro ou um perdigueiro, daqueles que amarrava a perdiz na moita de macega, e uma cartucheira dois canos, roncava papo graúdo...

Mas as histórias mais aguardadas eram sempre as do Zacarias. Suas histórias começavam sempre do mesmo jeito: falando da cachorra Campina, uma vira-lata, que por ser uma cadela um pouco grande, de rabo fino, ele jurava que era inglesa; além da Campina, ele tinha mais uma batelada de cachorro, ele mesmo falava com orgulho que eram 32, sabia o nome de cada um deles, e o mais interessante é que os cachorros obedeciam-no.

Zacarias era uma grande alma, tipo folclórico na região, morava sozinho num rancho nas cabeceiras d’Água da Coruja, trabalhava muito pouco, mal fazia para seu sustento, quanto mais para tratar dos cachorros, que viviam magros e sarnentos, e sempre indispostos para corridas que iam um pouco além do terreiro do rancho. Tinha uma espingarda de um cano, de carregar pela boca, sem marca - ele dizia que era Henrique Laporte, e das legítimas. Zacarias tinha uma égua pampa, com as principais características de animais desta cor, arisco para pegar no pasto, e marchador.

Com o sedem do rabo e do pescoço, sempre comprido quase sempre cheio de carrapicho, combinava com os cachorros e o próprio dono, aquele caboclão mal ajambrado, sempre que saía de casa era acompanhado por um cordão de cachorros, nunca menos de dez. Quando alguém perguntava do resto da cachorrada, o matuto enchia o peito, limpava a garganta e dizia: “- Ué, eu tenho esses ‘pra’ caça e os outros ‘pra’ guarda da casa”.

Zacarias embrenhava naqueles campos em busca da sua sobrevivência, trazia sempre a patrona cheia de frutas do campo, era gabiroba, pitanga, figo silvestre, cabeça de marolo, araticum e outras que só um matuto como ele conhecia. Também sempre trazia uma caça, invariavelmente um tatu, de volta pro rancho. Se encontrasse alguém conhecido sentava de banda, em cima do arreio para uma conversa e esquecia do mundo; se alguém lhe perguntasse se matou algum veado ele respondia: “Ué, que jeito?, se os cachorros não levantaram nenhum”. E sorria mostrando os parcos dentes emplastados de jatobá.

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