Tribuna do Leitor

Eu acuso... a mim mesmo - Carta aberta aos cidadãos de Bauru


| Tempo de leitura: 2 min

(Inspirado no célebre artigo “J´Acuse!...” [“Eu Acuso!...”], do escritor Émile Zola, em que defendeu o capitão Alfred Dreyfus, acusado e condenado injustamente de espionagem, dando início a um movimento intelectual engajado na França, lembrado até hoje.)

Peço a todos, homens e mulheres, trabalhadores, operários, servidores públicos, ocupantes das mais variadas profissões, responsáveis pela vida da cidade, alguns minutos da atenção na leitura desta carta-desabafo, uma autocrítica que espero ser válida para não cometer os mesmos erros.

Eu acuso... a mim mesmo de cegueira intelectual, pois acreditei que seria sujeito de um processo transformador, acreditei que seria participante de uma nova etapa, acreditei que poderia contribuir com a eliminação de obstruções burocráticas, visando ao desenvolvimento, e coloquei minhas idéias e minha pena a serviço da convicção ideológica, porém, não vislumbrei que estava sendo metralhado por palavras vazias, mera propaganda, ideologices com a consistência de uma bolha de sabão. Soube disso depois, quando projetos, rascunhos de várias mãos, que poderiam perfeitamente ser aplicados, permaneceram no esquecimento, engavetados no descaso. Soube tarde demais.

Eu acuso... a mim mesmo de ingenuidade crônica, pois emprestei minha cabeça e meu (relativo) prestígio ao que parecia ser o melhor, o mais viável depois de um longo período negro, cujos escombros afligiam como fantasmas. Porém, os ideais transformaram-se em ilusão de ótica, tudo se mostrou abstrato, irreal, distante. Aos poucos, a guilhotina do descaso, tão utilizada no passado, desceu e ceifou a esperança de contemplar tudo diferente. Tudo, como deveria ser. Ruas transitáveis, sem a mácula de crateras lunares, praças arborizadas, convidativas ao passeio e descanso regulares, bairros com infraestrutura, o mínimo necessário à subsistência, esgoto tratado, o Ribeirão das Flores fazendo jus ao nome, construções de casas populares, a erradicação das submoradias, indústrias pipocando, com conseqüente desenvolvimento econômico. A cidade ocupando seu lugar de metrópole, no coração de São Paulo.

Eu acuso... a mim mesmo de falta de sensibilidade prática, pois, por várias vezes, ouvi que estava errado, que o caminho não era aquele, que não haveria oportunidades, somente oportunismos, que a hipocrisia estava em relevo, que a falsidade e os interesses próprios reinavam, mas não dei ouvidos, estava embevecido pelo canto de Sereia, tinha certeza que não haveria desilusão. Rotulei todos que me alertavam como sendo contrários às mudanças, corvos à espera do pior, e permaneci convicto de que o caminho da vitória é sempre pavimentado por dificuldades. Permaneci convicto de que as dificuldades, na maioria das vezes, são provocadas por vozes dissonantes, áridas nas observações. Permaneci convicto de que as contrariedades, adiante, renderiam-se à verdade que defendia. O tempo mostrou que todos que me alertaram estavam certos; eu, errado. Sou culpado e devo ser condenado por ter acreditado em mim mesmo, e agido com idealismo.

Elson Teixeira Cardoso - escritor

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