Ser

Sexualidade com responsabilidade

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Abordar assuntos relacionados à sexualidade com os adolescentes é considerado difícil para muitos pais e educadores. Em se tratando de crianças, a tarefa pode parecer ainda mais complicada. Mas um projeto piloto sobre educação sexual desenvolvido pelo Instituto Criança é Vida, em São Paulo, prova o contrário. As atividades, que tiveram início em outubro, atingem 30 participantes na faixa etária dos 7 aos 9 anos de idade, orientando-as sobre os nomes corretos dos órgão genitais, os corpos femininos e masculinos e higiene íntima.

Estes conhecimentos são apresentados com uma linguagem simples e lúdica e, sem malícia, aponta Regina Stella Schwandner, 52 anos, diretora superintendente do instituto. De acordo com ela, o trabalho - que conta com parceria do Projeto de Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP) - estimula as crianças a valorizarem o próprio corpo e a saúde. “Visamos desenvolver conhecimentos e contribuir para que, no futuro, as crianças possam exercer a sexualidade com responsabilidade e prazer”, observa ela, em entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade.

O projeto de orientação sexual, destaca Regina, atende a uma antiga demanda da sociedade e produz bons resultados entre o público infantil. Mais detalhes sobre este assunto, além de dicas (veja abaixo) sobre quando e como tratar da sexualidade com os filhos, podem ser conferidos a seguir.

Jornal da Cidade - Por que é importante tratar de sexualidade com as crianças?

Regina – A educação sexual é uma demanda de toda sociedade, principalmente em comunidades pobres, onde as crianças, muitas vezes, moram com os pais e familiares em um único cômodo. Então elas são expostas ao sexo desde a primeira infância. É comum ver uma criança de 3 ou 4 anos brincando com ursos de pelúcia e imitando um ato sexual, o que em outras realidades não acontece. E, às vezes, ela tem uma visão deturpada e maliciosa da sexualidade. E o projeto de educação é feito justamente para que a criança entenda o sexo e exerça sua sexualidade de maneira tranqüila futuramente.

JC – Como isso é feito?

Regina – Visamos desenvolver conhecimentos e contribuir para que, no futuro, as crianças possam exercer a sexualidade com responsabilidade e prazer porque às vezes isto está tão calcado em tabus que, mesmo expostas ao sexo de forma precoce, no futuro, elas não têm prazer no exercício da sexualidade. Para isto é importante que a criança conheça seu corpo, se valorize e cuide da saúde. Ela precisa saber que é dona do seu próprio corpo e deve amá-lo. E que ninguém deve tocar seu corpo, a não ser alguém que irá ajudar a manter a higiene, como a mãe que auxilia no banho ou o médico. Ninguém mais deve tocar no corpo dela como uma extensão sexual. Estamos conversando sobre isso com as crianças. E, se elas têm dúvidas, precisam perguntar se determinado comportamento é certo para uma pessoa da confiança delas. Desta forma, orientamos para combater o abuso sexual.

JC – Que profissionais estão envolvidos no trabalho?

Regina – Montamos um grupo formado por pessoas da comunidade, professores e orientadores para trabalhar a correta abordagem sobre a sexualidade com as crianças. Além de mim, estão envolvidos uma assistente social, uma pessoa da administração, funcionários das instituições, a professora de ciências naturais Célia Siqueira, que é especializada em orientação sexual em escolas, e a professora Carmita Abdo, da USP (Universidade de São Paulo), entre outros profissionais. É um grupo multidisciplinar.

JC – As atividades se direcionam a crianças de 7 a 9 anos. Por que a escolha dessa faixa etária?

Regina – Nós acreditamos que esta é a hora que podemos falar sobre sexo. O projeto vem sendo montado durante todo este ano e começou em outubro, com bons resultados.

JC - Como as crianças reagiram aos assuntos trabalhados no projeto?

Regina – Muito bem. No primeiro dia, quando começamos a falar sobre qual é o nome correto dos órgãos sexuais, a maioria das crianças achava graça e dava “risinhos”. No segundo módulo, acabou qualquer malícia. Tudo transcorreu de forma tranqüila e realizamos um trabalho lúdico, utilizando brincadeiras para abordar os temas.

JC – Métodos contraceptivos e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) também são abordados?

Regina – Buscamos orientar as crianças para, quando chegar a hora, evitarem uma gravidez indesejada, além de procurar uma orientação e fazer uso de métodos contraceptivos. Mas isto é abordado somente na faixa etária de 10 a 12 anos, para as crianças menores não.

JC – Para os pequenos, de que forma os temas sobre sexualidade são apresentados?

Regina - Para este público estamos educando sobre o que é o corpo humano e os nomes dos órgãos sexuais. Explicamos que os meninos têm pênis e testículos, por exemplo. Outra coisa que deixa as crianças interessadas é em relação aos órgãos femininos. Mostramos para as crianças que as meninas têm três canais. O primeiro se chama uretra, que vai até a bexiga e por onde se urina ou se faz xixi. O outro canal é a vagina, que vai até o útero e por onde irá nascer o bebê. E que existe um terceiro canal denominado intestino, que termina no ânus e por onde se evacua ou se faz cocô. Já os meninos têm o ânus e o intestino, mas só têm a uretra, que se liga de um lado para a bexiga e, para outro lado, à próstata.

JC – E tudo isto é realizado de forma lúdica?

Regina – Os temas abordados no projeto são ilustrados com desenhos muito simples, com uma linguagem que as crianças entendem. Trabalhamos muito o uso adequado dos nomes. Para a vulva feminina, as crianças usam qualquer barbaridade para denominá-la. Isso vem, muitas vezes, embutido em conceitos que não são adequados para uma criança. Por exemplo, algumas crianças chamam a vulva de a “perseguida”. Isto tem um juízo de valor que é muito inadequado.

JC – Mas muitas vezes os próprios pais denominam os órgãos sexuais de forma diferente ou utilizam apelidos.

Regina – Sim, porque muitas vezes os pais não têm o conhecimento adequado. Já ocorreram diversas situações nas quais as crianças participantes do projeto chegam em casa corrigindo ou dizendo para os pais que aprenderam o nome correto dos órgãos sexuais. Em relação aos apelidos, os pais até podem usá-los, desde que as palavras não sejam feias e não tenham conotação ruim.

JC – E nas escolas, de que forma a sexualidade é abordada?

Regina – Outro objetivo do projeto é unificar conhecimento porque percebemos que, em muitos casos, o próprio professor não tem esta informação e não sabe explicar as coisas que as crianças perguntam. Neste sentido, estamos oferecendo um material de qualidade a todas as organizações que são nossas parceiras, para professores e escolas.

JC – Existem diferenças entre meninos e meninas em se tratando da forma como encaram a sexualidade?

Regina – Não, mas existem crianças muito ingênuas e outras mais maliciosas e com conhecimento. E isso pode ocorrer tanto para eles quanto para elas. No projeto, porém, o conhecimento já está bem uniformizado. Uma das atividades de destaque é pedir para a criança deitar em um grande papel e os outros desenham o contorno do corpo. Fizemos um menino e uma menina e eles ilustraram como a criança de 7 anos é hoje. Então eles desenharam a vulva, o pênis e outros órgãos sexuais de forma correta. Depois mostramos, no desenho, como o menina e a menina serão na adolescência e as crianças desenharam pêlos, por exemplo, sem malícia nenhuma e com tranqüilidade.

JC – Em sua opinião, a mídia e a Internet influenciam as crianças em relação à sexualidade? De que maneira?

Regina – Tem coisas que considero inadequadas e, na minha casa, por exemplo, controlo os programas e novelas que meus filhos assistem na TV. Os pais devem monitorar isto. Com a Internet deve ocorrer o mesmo.

JC - Qual é a grande preocupação dos pais em relação à sexualidade dos filhos?

Regina – É quanto ao uso inadequado da sexualidade e a gravidez ou paternidade indesejadas. Em se tratando de pré-adolescentes, há ainda preocupação em relação ao risco da transmissão do vírus da aids e de outras doenças. As crianças menores, em geral, estão em uma fase em que começam a fazer perguntas e, em muitos casos, os pais não sabem como responder. Por isso, sentimentos necessidade de multiplicar esse conhecimento para os pais e educadores e pretendemos fazer isto no próximo ano. A metodologia é abordar assuntos que eles desconhecem e que as crianças também irão aprender.

JC - Quando os pais devem falar sobre sexo com os filhos?

Regina – Os pais devem tratar do assunto quando as crianças começam a perguntar, mas eles devem responder apenas o que elas perguntarem, não devem ir adiante no conhecimento e nas respostas.

JC – Nestes casos, qual a melhor maneira de tratar de questões envolvendo a sexualidade?

Regina - Sempre com naturalidade, isto é o mais importante. E se os pais não souberem responder, devem procurar a resposta. O que os pais não devem é dizer para o filho que ele perguntou algo inadequado, porque desta forma a criança pode não confiar mais neles. A melhor forma é ser natural.

JC - E como reagir às perguntas mais ousadas das crianças?

Regina – No projeto, não tivemos este tipo de problema porque o trabalho piloto está sendo feito com coisas simples. Não tem nada de ousado, existem algumas coisas que nunca foram feitas antes mas que foram realizadas tranqüilamente.

JC – Quais, por exemplo?

Regina – Isto ocorreu quando nós fomos ensinar para as crianças que existe a menstruação e a ejaculação. Para falar sobre a menstruação, envolvemos todas as crianças, meninos e meninas; distribuímos absorventes e, desta forma, eles observaram como é o produto e o desembrulharam. Fizemos uma mistura de tinta guache vermelha e um conta-gotas e todas as crianças pingaram tinta vermelha nos absorvente para ver como é o processo. Em seguida, as crianças dobraram os absorvente, colocaram em papel higiênico e descartaram o produto embrulhado, que é a maneira mais higiênica. No projeto, ensinamos qual é a maneira correta de se limpar e ressaltamos a importância da higiene.

JC - O instituto têm planos de expandir o projeto para outras localidades do Estado?

Regina – Sim, mas este não é um projeto que pode ter seu conteúdo transferido por voluntariado comum. Ele deve ser desenvolvido sempre por pessoas que tenham algum tipo de conhecimento ou experiência anterior em educação sexual e ciências naturais.

JC - O módulo “Responsabilidade de Amar”, para pré-adolescentes de 10 a 12 anos, é uma continuidade do projeto de educação sexual? Qual é o seu enfoque?

Regina – Na verdade, este módulo trabalha o mesmo conhecimento sobre sexualidade, mas em um nível mais profundo. Por exemplo, com as crianças de 7 a 9 anos, nós explicamos sobre o que são óvulos e espermatozóides; como o óvulo matura e de que forma o espermatozóide encontra o óvulo. Mais para frente, abordaremos outros detalhes.

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