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Mistério do homem do banco


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A última edição do “Citizen”, jornal gratuito que circula em Milton Keynes, Inglaterra, trouxe uma matéria sobre o “mistério do homem do banco”.

Trata-se de um andarilho nascido na África e que veio da Suíça para a Inglaterra. Há três meses ele mora em um banco de metal que fica na frente do supermercado Sainsbury’s, no centro da cidade. Seu nome é Daniel Iyasuo, ele só sabe falar francês e está sem documentos, que ele diz terem sido confiscados pela polícia. Um morador de rua é algo tão extraordinário aqui, que vira notícia de destaque no jornal. Ele não fez qualquer reclamação, nem está requisitando benefícios do governo, como alimentação ou moradia (comportamento o que é muito estranho para os padrões daqui).

A repórter entrevistou pessoas que trabalham no comércio do centro e clientes do supermercado. Todos dizem que Daniel é uma pessoa muito educada e agradece polidamente os sanduíches e bebidas que ganha dos ingleses. “Nós o adotamos”, disse um dos entrevistados. Uma moradora local o leva todas as segundas-feiras para almoçar num albergue de Milton Keynes. Funcionários do supermercado arrumaram um local aquecido para ele dormir à noite mas, todos os dias, ele permanece sentado no banco.

Eu mesma o vejo toda vez que vou ao centro, mas nunca estranhei, de tão acostumada que estou com moradores de rua no Brasil. Mais estranho para mim foi testemunhar a solidariedade das pessoas. Lembrei de um restaurante em Bauru, que fez circular um abaixo-assinado entre os clientes para pedir à polícia que enxotasse dois moradores de rua que viviam ali na avenida e estavam “incomodando os clientes”. Apesar de todas as críticas que fazemos às potências hegemônicas como a Inglaterra, a classe média daqui deixa a nossa “no chinelo” quando o assunto é o respeito humanitário.

A autora, Alexandra Bujokas de Siqueira, é professora da USC, doutora em Educação e pós-doutoranda em Estudos de Mídia, na Open University, em Milton Keynes, Inglaterra

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