Cultura

Sobre mundos: O diálogo existencial

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, reparei em um monge beneditino. Ele se aproximou da sala, na qual uma visita lhe esperava. Antes de abrir a porta para recepcionar o visitante, o monge ficou alguns minutos em silêncio e depois entrou na sala para falar com o amigo.

Mais tarde perguntei-lhe por que havia feito aquele gesto. O monge respondeu: “Eu faço sempre assim antes de qualquer atividade. Eu me concentro em silêncio, procuro me situar no espaço e no tempo e ofereço a Deus toda a minha ação para que ela se torne uma boa ação!”

A religião, no sentido etimológico da palavra (religare), não existe para a preservação mental de idéias sobre a relação entre Deus e o homem, mas para o surgimento de uma atitude aberta, através da qual o ser humano pode vivenciar com profundidade eventos e “insights”.

O ser religioso não é aquele que simplesmente está convencido de teses religiosas, mas principalmente aquele que está disposto a fazer uma experiência profunda com todos os fatos que acontecem ao seu redor. Neste ponto, encontramos a diferença entre Grécia e Israel, ou entre a Bíblia e, por exemplo, Aristóteles.

Enquanto os filósofos gregos buscavam através da especulação teórica a formulação de conceitos, o homem da Bíblia e, principalmente, os profetas, estão em busca da experiência de vida, em busca de viver verdadeiros “eventos”.

Sem dúvida alguma, a razão e a fé devem permanecer juntas. Como afirma Abraham Heschel, a razão nos ajuda a compreender e a utilizar a fé nos problemas concretos do cotidiano. Mas adorar a Deus somente com o uso da razão é arrogância e a rejeição da razão é covardia e evidente falta de fé. Quem possui verdadeira fé não tem medo de utilizar sua razão para questionar o que existe de mais sagrado.

De qualquer forma, a religião deve ser um caminho de experiência de vida. Nós iniciamos esta caminhada quando nos tornamos sensíveis o suficiente para perceber o sagrado em todos os momentos. Os princípios básicos para esta percepção são dois: Deus pode ser contemplado em cada coisa e nos mantemos em sintonia com Ele através de uma “ação pura”.

Estes dois princípios básicos estão sintetizados no mandamento maior acentuado por Jesus Cristo: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10, 27).

Segundo Martin Buber, o ensinamento religioso é essencialmente uma orientação para uma vida de fervor, em alegria entusiástica. Amar a Deus, como diz o mandamento, é acreditar profundamente que Ele está em cada coisa. Esta postura não significa tornar-se um panteísta, mas perceber que não há separação entre a “vida em Deus” e a “vida no mundo”.

Amar a Deus é amar sua criação: a realidade. Para isso se faz necessário eliminar efetivamente o muro que divide o sagrado e o profano, executando toda a ação profana como santificada. Em outras palavras, a realidade é essencialmente sagrada.

Isso não quer dizer que ela não possa ser profanada. Nós profanamos a realidade quando fazemos dela mau uso, ou seja, quando mantemos uma relação doentia com a realidade que gera autodestruição para o homem ou a destruição de seus semelhantes.

Profanar a realidade significa banalizá-la, utilizando-a sem o devido cuidado e respeito, sem perceber as conseqüências dessa relação com ela para o ser humano e para o nosso universo. Juntamente com esta percepção da realidade como sagrada, está uma atitude de humildade. A atitude de que o universo, seja ele a natureza ou a sociedade, não é somente meu, mas se constitui uma propriedade coletiva.

A realidade pertence tanto aos meus semelhantes como às gerações futuras. Em outras palavras, eu não vivo sozinho para desfrutar do mundo egoisticamente, mas pertenço a uma humanidade, que habita este planeta e possui um passado e espera possuir um futuro melhor. Esta consciência de respeito à realidade e aos semelhantes é a concretização do mandamento maior: “amar o próximo como a ti mesmo”.

O segundo princípio para a percepção religiosa, a “ação pura”, se realiza através da intensidade de tudo que fazemos e o direcionamento deste fazer para Deus. Estar em sintonia com Deus em todas as coisas através de uma ação pura significa depositar em tudo que fazemos o poder criador e criativo que possuímos, desenvolver nosso poder efetivo de realização direcionando esta não para a simples satisfação de nosso ego, mas para o ser transcendente que chamamos de Deus.

“Amar a Deus, de todo o coração, de toda a tua alma, com toda a tua força”. Se percebemos a presença de Deus em cada realidade, depositando, então, todo o nosso empenho direcionando-o para Deus, vivenciamos um verdadeiro diálogo existencial com Ele e acabamos por amar concretamente o próximo como a nós mesmos.

Nesta postura de vida está a essência do ser religioso, da vida com fervor. Sua conseqüência é uma alegria entusiástica, pois cada momento é percebido como uma oportunidade de encontro com Deus e um benefício aos nossos semelhantes.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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