Uma pessoa que vive durante várias décadas seguidas numa mesma casa tem, necessariamente, muito tempo de vida. É comum encontrar idosos que desenvolvem forte ligação com determinado bairro, chegando a ser quase que incorporados pela paisagem do local.
O que muita gente não sabe é que esse elo, assim como a rotina por ele gerada, é altamente benéfico à saúde e à qualidade de vida de quem tem idade mais avançada. O médico bauruense Júlio Rodrigues Horta Filho, especialista em geriatria e reumatologia, afirma que muitas vezes essa vivência diária cria uma espécie de rede de proteção em torno dos idosos.
“É comum que pessoas de um local façam uma espécie de esforço conjunto para cuidar de alguém de mais idade que viva nas proximidades”, afirma. Não é raro, garante ele, que idosos se deixem acompanhar por vizinhos até o médico, por exemplo.
“Às vezes a família mora longe e não tem condições de prestar os cuidados necessários no momento certo”, lembra. Nesses casos, a pessoa que mora na casa ao lado passa a ter um papel essencial na vida do idoso. “Vizinho bom costuma sempre ajudar”, diz.
Por outro lado, Horta Filho pondera que, às vezes, essa rotina precisa ser quebrada por razões inevitáveis. “Por exemplo: pode ser que o idoso esteja muito doente e o filho, que mora longe, queira levá-lo para perto de si, para poder cuidar melhor dele”, explica.
De acordo com ele, quase sempre a ruptura da rotina acaba trazendo problemas. “Toda mudança gera estresse”, afirma. As transformações bruscas no dia-a-dia costumam agravar quadros de mal de Alzheimer, garante Horta Filho. “Isso é pior quando o idoso fica rodando de filho em filho, pois ele nunca consegue se adaptar ao modo de ser das pessoas com quem convive”, diz.
O ideal, segundo ele, seria evitar ao máximo as mudanças repentinas de rotina. “Quanto mais tempo o paciente puder permanecer no seu ‘habitat natural’, menor será a chance dele ter problemas relacionados a estresse e depressão. O problema é que não se pode generalizar. Às vezes, a mudança de rotina é inevitável. Nesses casos, o que se pode fazer é tornar os efeitos da ruptura os menores possíveis”, conclui.