Enquanto passeia pela mata, mostrando detalhes da flora e da fauna, Tião lembra-se do primo com o qual brincava, quando criança. “Ele sempre teve aquele sorriso”, diz, referindo-se à imagem de Chico que ganhou páginas de jornais de todo o mundo, a face aberta, o espírito cordial.
Tião adora seu trabalho. Sente-se feliz por ajudar a preservar a imagem do amigo. Agora por uma estrada, entre solavancos no carro alugado, ele leva até a casa de Nilson - em algum ponto da área de 24 mil hectares, ocupada hoje por 86 famílias de seringueiros.
O caçula dos Mendes tinha 20 anos em 1988. Ele chegou em 1979 ao Seringal Santa Fé e hoje coordena tudo no Cachoeira: a produção de borracha, de castanha, de madeira certificada. Em sua casa, oficialmente situada em Epitaciolândia (“política para enfraquecer o movimento”), mas umbilicalmente atrelada a Xapuri, Nilson se compraz em exibir as aranhas, escorpiões e formigas mais perigosos da região.
“Depois que mataram o Chico, correram para assinar a desapropriação”, conta Nilson, enquanto descreve a vida auto-sustentável na comunidade, as toneladas de arroz, feijão, milho, os 10 mil quilos de borracha por ano (eram 30 mil quilos nos anos 60). Mas os fazendeiros não respondem, não tentam reaver as terras? “Nos projetos vizinhos tentam; aqui não.”
Do quarto de Nilson sai um anexo para uma mangueira. Na casinha de árvore, eles gostam de se reunir para papear, fumar, beber uma cerveja. “Depois da terceira ou quarta geração, ninguém vai lembrar da luta do Chico”, opina o primo. “Mas a gente lembra. A gente tem esta terra hoje porque ele sabia fazer o que a gente não sabia - buscar aliados fora dela.”