Ser

Na era das câmeras

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Na última terça-feira, foi ao ar a sétima edição do Big Brother Brasil (BBB), reality show que concentra 16 participantes em uma casa monitorada por câmeras. Junto com o alto índice de audiência, o programa, um dos sucessos na TV, traz à tona mais uma vez a questão do direito à privacidade. Isto porque, numa sociedade tecnológica, todas as pessoas estão sujeitas a ser observadas na fila do banco, no elevador, no trabalho ou em momentos constrangedores. Para citar um exemplo, basta lembrar do caso da VJ Daniella Cicarelli, que foi filmada por um paparazzi durante cena íntima com o namorado em uma praia espanhola. Em pouco tempo, o vídeo já circulava no site You Tube, sendo visto por milhares de pessoas.

O curioso é que mesmo não concordando publicamente contra a invasão de privacidade as pessoas tendem a alimentar a cultura de espionar ou “bisbilhotar” a vida alheia, nem que seja só por curiosidade. Isto é próprio da condição humana. De acordo com a psicóloga clínica e terapeuta familiar Júlia Verónica Rodriguez Hernandez, desde as sociedades pré-industriais até os dias de hoje, os indivíduos convivem com a presença constante do olhar do outro, personificado pela família extensa, parentes, amigos, vizinhos ou conhecidos. Este cenário é mais comum em pequenos grupos ou cidades menores, destaca ela.

“Cada pessoa é conhecida e, de algum modo, tem um lugar mais ou menos definido. Por isto, sua presença e seu comportamento não serão ignorados pelo olhar atento dos outros, que exercem um papel de controle social”, diz Júlia. Nas metrópoles e grandes espaços, onde o indivíduo se torna anônimo, este controle social é mais debilitado. A partir daí, aponta a psicóloga, surge o controle impessoal, representado, entre outras coisas, pelas câmeras.

Dizer que as pessoas vivem mergulhadas em uma espécie de Big Brother Brasil cultural é arriscado, mas é possível afirmar que o mundo está, cada vez mais, sendo cerceado pela tecnologia. São câmeras, celulares, fotos e bancos de dados, o que representa uma forma de monitoramento e controle, avalia Júlia. “Mas tudo isso depende de quanto os indivíduos se expõem, de quanto preservam sua imagem e de como cuidam de sua privacidade e sua liberdade”, pondera.

Com maior ou menor gravidade, todo ser humano age impulsionado por desejos e sentimentos, e possui falhas de comportamento. Neste sentido, ao vigiar e espiar a vida alheia, seja assistindo o BBB ou por outros meios - como a Internet e também nos relacionamentos interpessoais –, ele está fazendo fofoca.

Segundo Júlia, quando alguém se preocupa com a vida alheia, evita se ocupar com sua própria vida e, assim, não confronta com suas frustrações, limitações, medos e carências. “É uma distração, quando a pessoa não sabe o que fazer com o seu próprio tempo, com o tédio ou o desprazer”, diz.

Ela explica que espiar a vida alheia pode ocasionar alívio temporário porque permite comparações nas quais tende-se a julgar o outro sem conseqüências. “Pode ser gratificante porque, no fundo, ela se sentirá melhor, ou ainda se identificará, o que pode até diminuir parcial e temporariamente a solidão.”

____________________ Controle ou proteção?

É impossível tratar de privacidade sem abordar a questão da segurança. A grande quantidade de câmeras instaladas em elevadores, casas e estabelecimentos comerciais, por exemplo, é uma prova de que as pessoas estão dispostas a se privar de um pouco mais de privacidade para garantir proteção.

Mas, afinal de contas, os recursos tecnológicos servem para vigiar ou proteger o ser humano? Funciona para as duas coisas, aponta a psicóloga e terapeuta familiar Júlia Verónica Rodriguez Hernandez. “A questão é quem está por trás desta tecnologia e quem faz uso dessa informação”, diz.

“Na verdade existe uma contradição no modo de vida atual; as pessoas vivenciam incompatibilidades: querem segurança e ao mesmo tempo privacidade; desejam ser vistas e ter reconhecimento, mas também se manterem anônimas. É difícil conciliar tudo isto”, acrescenta ela.

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