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Comportamento: Exercitando a mente

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

No mundo dos esportes, é cada vez mais comum ouvir atletas e treinadores dizerem: “Temos que nos preparar psicologicamente para essa partida.”; “Fisicamente o time está bem, mas psicologicamente vem passando por dificuldades.” Ou ainda: “Temos que elevar o moral para virarmos o jogo. E eles têm toda razão. Além do preparo físico, o esportista deve estar bem treinado psicologicamente para obter sucesso em uma competição, aponta a psicóloga e professora universitária Rosana Amador Ramos.

De acordo com ela, que estuda a psicologia do esporte há anos, questões como motivação, concentração, persistência no treino, temperamento do atleta, liderança de equipe e influências negativa e positiva da torcida são os principais temas abordados na psicologia do esporte. “Esta ciência explora o comportamento nas atividades desportivas. O treinador é, de várias maneiras, um psicólogo prático”, observa.

Em entrevista concedida ao Jornal da Cidade, Rosana Ramos explica como a psicologia do esporte contribui para a formação de um atleta e ressalta por que a aplicação da técnica é fundamental para todas as áreas desportivas. Confira os melhores trechos da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - O que é psicologia do esporte?

Rosana Amador Ramos - É uma ciência que busca investigar o desempenho e intervir em todas as variáveis às quais estejam ligadas as pessoas que praticam uma determinada modalidade esportiva. Para isto, analisa as bases e efeitos psicológicos das ações esportivas, considerando por um lado o estudo de processos psíquicos básicos, ou seja, cognição, motivação e emoção, e por outro a realização de tarefas práticas do diagnóstico e intervenção. Questões como a motivação do atleta, liderança de equipe. Influência no desempenho atlético da equipe e influência negativa e positiva da torcida sobre o atleta são alguns dos temas abordados pela psicologia do esporte.

JC – Qual é a diferença entre psicologia e psicologia do esporte?

Rosana Ramos – A psicologia é o estudo do comportamento; seu objetivo é ajudar a entender, explicar e prever ocorrências. A psicologia dos esporte explora o comportamento nas atividades esportivas. O treinador é, de várias maneiras, um psicólogo prático.

JC – Como a ciência surgiu?

Rosana Ramos - No fim do século 19 já existiam pesquisas relativas às questões psicofisiológicas no esporte. Nos anos 20, na antiga União Soviética, Estados Unidos, Japão e Alemanha, surgiram os primeiros laboratórios e institutos de psicologia do esporte. Em 1965, foi fundada, em Roma, a Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte, que realizou sete congressos mundiais em diferentes países e continentes.

JC – E quando a psicologia do esporte chegou ao Brasil?

Rosana Ramos - O desenvolvimento dessa ciência na América Latina teve início nos anos 70. Em 1979, foi fundada a Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte, da Atividade Física e da Recreação e, em 1986, foi criada a Sociedade Sul-América de Psicologia do Esporte, da Atividade Física e da Recreação. O Brasil tem uma posição de liderança na América Latina na área da psicologia do esporte, o que pode ser comprovado com base no volume de publicações (leia mais no quadro), número dos congressos realizados e a quantidade de laboratórios de área existentes no País.

JC – Quais são os campos de aplicação dessa ciência na área esportiva?

Rosana Ramos - Entre as principais tarefas, destaco: ensino, pesquisa, extensão e intervenção. No ensino, além de transmitir conhecimento e habilidades técnicas esportivas, os técnicos e professores de educação física necessitam de conhecimentos e capacidades psicológicas específicas para melhor compreender o comportamento humano no âmbito esportivo. De modo geral a pesquisa psicológica no esporte visa desenvolver uma teoria de ação esportiva como base para a explicação e o prognóstico de fenômenos psicológicos, criar medidas de intervenção psicológica para o ensino, treinamento, competição e terapia. Já a intervenção psicológica na prática esportiva pode ser realizada por meio de determinados programas psicológicos de treinamento, assim como através de medidas psicológicas de aconselhamento e acompanhamento.

JC – Em que consiste o treinamento psicológico?

Rosana Ramos – No desenvolvimento, estabilização e aplicação das capacidades e habilidades psíquicas em diferentes situações, de forma variada e flexível. Há também um treinamento de autocontrole, por meio do que o desportista deve aprender a se controlar, sem ajuda externa, nas situações extremas e difíceis de treinamento e de competição, com o objetivo de evitar reações psicofísicas exageradas, como, por exemplo, ansiedade, raiva e comportamento social inadequado.

JC – E quais as técnicas utilizadas para isto?

Rosana Ramos – O acompanhamento psicológico busca influenciar atletas, assim como equipes e grupos sociais, de tal forma que possam realizar suas possibilidades máximas de rendimento na competição. Neste contexto, as metas específicas do rendimento esportivo devem orientar e direcionar a regulação psíquica na competição. O trabalho do psicólogo esportivo está diretamente ligado a situações concretas. Há ainda o aconselhamento psicológico, cuja função é ajudar aos técnicos e desportistas a entender e solucionar da melhor forma possível os seus problemas psicológicos e sociais. Uma tarefa específica para o psicólogo é ajudar emocionalmente as pessoas nas fases de insegurança, a fim de que elas possam encontrar rapidamente a sua segurança e autoconfiança.

JC – Quais são os benefícios da psicologia do esporte?

Rosana Ramos – Atletas e treinadores estão envolvidos na psicologia dos esportes. O treinador que conhece bem seus jogadores se torna mais eficiente no entendimento e na previsão do comportamento em diversas situações. E os atletas percebem quando seu time está mentalmente preparado para ganhar.

JC – Até que ponto a atitude mental determina o nível de sucesso atingido pelo atleta?

Rosana Ramos – Assim como seu objetivo, o estado de alerta ou motivação estão ligados à atitude mental. A postura do atleta antes da competição estará relacionada ao seu desempenho real. Estar mentalmente preparado para competir sugere um nível de prontidão ou estado de ativação desejável para a execução de habilidades. Mas é impossível manter a mesma motivação e nível de alerta em todas as competições. Sucessos, fracassos passados e esperanças futuras determinam os sentimentos dos esportistas. E uma das tarefas mais desafiadoras para o treinador é a de preparar mentalmente seus atletas para cada competição.

JC – O nível de ansiedade do esportista influencia o seu desempenho?

Rosana Ramos – Existe um nível de ansiedade para cada atleta à medida que ele entra na competição, mas este estado psicológico deve ser compatível com a natureza da atividade, para que se obtenha melhores resultados.

JC – É seguro afirmar que quanto maior a motivação melhor será a performance do atleta?

Rosana Ramos – A motivação é a insistência em caminhar em direção a um objetivo. Existem ocasiões em que o incentivo principal pode ser o alcance de uma recompensa, tal como ter o nome impresso, ganhar um troféu ou um elogio. Em certas ocasiões, o incentivo pode tomar a forma de impulso interno para o sucesso, para provar ou conseguir algo para se auto-realizar.

JC – Um esportista pode competir, com sucesso, em dois esportes simultaneamente?

Rosana Ramos – Quanto mais similares forem as situações, maiores serão as probabilidades de transferência de uma para outra, podendo analisar as habilidades pelos pontos comuns entre estímulos ou respostas.

JC – Cite alguns exemplos.

Rosana Ramos – O jogador de tênis, por exemplo, aprenderá a jogar badminton (jogo semelhante ao tênis, praticado com raquetes e uma peteca) mais rapidamente do que aqueles que não são tenistas. Cada vez mais os treinadores vêem o valor de manterem os esportistas em forma, fora da temporada, com atividades apropriadas. Algumas delas, devido às suas necessidades físicas e intelectuais, podem ajudar a desenvolver ou manter os atributos necessários que são fundamentais para o esporte. Se não existe nenhum conflito nos regimes de treino e nos programas de competição, por que não encorajar os esportistas a participarem de outras situações autogratificantes?

JC – A personalidade do atleta muda devido a sua participação no esporte?

Rosana Ramos – Esporte e realização devem ser algo compatíveis com a personalidade de um indivíduo, mas também é lógico esperar que o atleta se modifique pela extensão e natureza de suas experiências esportivas. O envolvimento intenso durante um longo período de tempo tem alguma influência, boa ou má, sobre o perfil de uma pessoa. Além disto, como a maioria dos traços de personalidade é desenvolvida durante a juventude, a idade do competidor também representa um fator de observação. Os esportistas mais novos são mais suscetíveis a influências externas e tendem a ter comportamentos menos estáveis que os atletas mais maduros.

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