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Crianças têm contato com espíritos?

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Quando tinha 5 anos, Rodrigo sempre recebia a visita de três amiguinhos em casa. Eles entravam e saíam pela porta da frente. Eram tão “reais” que podiam ser apalpados como qualquer outra criança. As visitas eram quase diárias e a empolgação com as brincadeiras tornava tudo ainda mais distante de uma simples fantasia.

Mesmo quando estava acompanhado dos pais, Rodrigo não comentava sobre as visitas porque a presença dos amigos parecia tão verdadeira que ele imaginava que os pais também estavam vendo.

Com o tempo, os amiguinhos começaram a ficar transparentes e isso assustou Rodrigo. Ele conta que as imagens foram se transformando em vultos, em sombras sem forma definida. O medo aumentou quando passou a enxergar coisas através do espelho. “Eram cenas ruins, de coisas esquisitas, que supostamente estavam acontecendo em algum lugar”, lembra.

Hoje, com 24 anos, Rodrigo Queiroz é líder espiritual do Colégio Umbanda Sagrada, onde orienta outras pessoas que passam pela mesma experiência.

Experiência como a da auxiliar de enfermagem Patrícia Mazim, 33 anos, que desde pequena vê espíritos. Essas visões, no entanto, na maior parte do tempo não são nada amistosas. Ao contrário, são “terrivelmente assustadoras”, o que fez com que ela passasse uma infância com muito medo.

Uma das imagens mais marcantes vistas por Patrícia foi em seu quarto, quando tinha 18 anos. Ela conta que ao abrir a porta deparou-se com criaturas que pareciam lobisomens. “Eles tinham forma humana, mas as mãos não eram iguais às nossas, eram parecidas com patas de cachorro. Era diferente de tudo que eu havia visto até então”, conta ela.

Depois disso, Patrícia passou a se aprofundar no estudo do kardecismo em busca de um pouco de paz. “A adolescência já é tão complicada que você ficar convivendo com essas coisas esquisitas, que te assustam, é duro”, desabafa.

Baralho cigano

O pequeno Gabriel, 10 anos, segue os passos da mãe, mas de uma forma bem mais tranqüila. No caso dele, as visões não são assustadoras. Patrícia diz que notou que o filho tinha uma mediunidade avançada quando ele passou a ler corretamente o baralho cigano sem nunca ter estudado sobre o assunto.

Por ser ainda muito novo e preocupada com as conseqüências que isso poderia trazer, Patrícia proibiu o filho de mexer no baralho. Depois disso, a mãe percebeu que as visões e experiências sobrenaturais de Gabriel passaram a ser mais constantes.

Um dia, ele foi com a mãe visitar alguns amigos. Na sala, enquanto as pessoas conversavam, ele permaneceu calado o tempo todo, observando um ser com o corpo inteiro coberto de palha e só com os pés de fora rodopiar e dançar na sua frente. Segundo a mãe, de acordo com a descrição do filho, era um orixá que Gabriel estava vendo.

Em outra ocasião, o menino pediu para a mãe trocar de roupa porque eles iriam receber a visita de alguns amigos. Patrícia achou que o filho estava inventando aquilo porque os amigos têm o costume de avisar quando pretendem fazer uma visita. “Não deu cinco minutos, eles chegaram”, recorda.

Ao ser perguntado como sabia da visita, Gabriel respondeu que alguma coisa tinha lhe avisado e, além disso, a imagem dos amigos chegando tinha passado pela cabeça dele. Premonição? A mãe não sabe dizer.

O menino já teve contato com um ser espiritual que Patrícia alega nunca ter visto nada parecido. De acordo com a descrição feita por Gabriel, descobriu-se mais tarde que se tratava de um orixá que apareceu para o menino. “Não tenho nada em casa relacionado a esse orixá e nunca ninguém comentou sobre ele para mim ou para meu filho. E não é invenção porque ele não tem o costume de ficar comentando o que ele vê com ninguém. Dá para ver que não é para chamar a atenção”, afirma.

Patrícia conta que sempre que recebe a visita do avô é para avisar que algo sério vai acontecer. Foi assim quando uma meningite quase matou seu filho. “Com isso, a gente acaba ganhando um prazo para se preparar e conseguir enfrentar a situação que está por vir”, comenta.

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Fantasia

Para o médico psiquiatra Camilo Ramos Cury, o amigo imaginário é algo comum entre as crianças de 3 a 6 anos, principalmente se elas estão passando por problemas familiares, por mudanças bruscas, como casa ou escola, ou mesmo diante da chegada de um irmãozinho.

“É comum as crianças fantasiarem. Isso só se torna um problema se continuar com o passar dos anos”, diz o psiquiatra. Segundo ele, a medicina enxerga de duas formas os relatos das pessoas que dizem ver e ouvir coisas do outro mundo. “Pode ser esquizofrenia ou transtorno de ansiedade”, diagnostica. Segundo Cury, esses problemas atingem cerca de 1% da população e podem ser desencadeados por questões psicológicas ou alterações químicas no funcionamento do cérebro.

O tratamento é feito mediante medicação, terapia e adaptação social.Como não existem provas das manifestações espirituais, Cury diz que fica difícil para a medicina aceitar ou negar que elas existam.

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