Cultura

Sobre mundos: A pureza das relações

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, um padre entrou em sua igreja e viu um camponês diante do Sacrário. Uma imagem que não chamou a atenção do sacerdote, pois afinal ela pertencia ao cotidiano de qualquer Casa de Oração. Porém, depois de duas horas, o padre voltou à igreja e encontrou o mesmo camponês ainda diante do Sacrário. Curioso, e até mesmo preocupado, o padre se aproximou do camponês e lhe perguntou o que ele tinha tanto para conversar com Deus. O camponês, com a maior simplicidade, respondeu: “Absolutamente nada, padre! Eu fico aqui e Ele ali. Eu olho para Ele e Ele olha para mim. Ele me aceita do jeito que sou e eu o aceito do jeito que Ele é. Nós simplesmente nos permitimos!”

Se prestarmos atenção nas atitudes e comportamentos de Jesus Cristo narrados nos Evangelhos, não podemos chegar à outra conclusão senão que Jesus não somente possuía uma ação libertadora, mas era um ser essencialmente livre. Jesus era livre de preconceitos, livre de convenções, livre para falar, livre para amar e ser amado, livre para sofrer, enfim, Jesus Cristo foi livre para viver. Esta liberdade de Jesus possui como essência a pureza. Jesus era livre, porque era puro.

Porém, a pureza de Jesus não está diretamente relacionada à castidade. Ser puro no sentido jesuânico é ser transparente, ou seja, ser franco. Franqueza é o significado da verdadeira pureza que nos oferece o estado de liberdade. A franqueza (o que os gregos chamavam de “parrhesía” e os latinos de “libertas”) é uma atitude de abertura de coração, abertura de palavra, abertura de linguagem, abertura do comportamento. A franqueza nos permite ser transparentes, dizer e fazer o que achamos correto, o que temos vontade porque achamos necessário, útil ou verdadeiro. Ela se constitui em um discurso que não seja artificial, fingido, mascarado. Justamente por ser autêntica, a franqueza, mesmo que muitas vezes não agradável, nos deixa de consciência tranqüila, pois não estamos enganando, não estamos corrompendo nossas relações. Afinal, a tão famosa corrupção se inicia em nossas relações pessoais.

A franqueza possui, porém, dois grandes inimigos. O primeiro é a lisonja. Quando falamos em lisonja não estamos nos referindo ao elogio que deve ser feito. O elogio também pertence à franqueza. Mas o obstáculo para esta é a atitude do “lisonjeador profissional”, daquele que se serve da linguagem para simplesmente obter uma vantagem. Ele faz os elogios ao outro não porque este verdadeiramente os merece, mas porque deseja tê-lo sob seu controle. Afinal, a maioria das pessoas se torna impotente diante da lisonja, pois ouve do lisonjeador algo que, a princípio, lhe faz muito bem.

Porém, o lisonjeado adquire através da lisonja uma imagem abusiva e falsa de si, algo que o enganará, colocando-o, assim, em situação de fraqueza em relação ao lisonjeador, aos outros e finalmente a si mesmo. A lisonja torna impotente e cego aquele a quem se atinge. O lisonjeador é aquele que impede que se conheça a si mesmo como se é. Ele impede que o lisonjeado tenha uma verdadeira visão de si mesmo e impede que conheça também o lisonjeador, pois este não é franco. Nessa relação, nem o lisonjeado e nem o lisonjeador possui a possibilidade de amadurecimento. É fato também que a lisonja existe a partir do momento que seu endereçado necessita do lisonjeador, ou seja, a partir do momento que as pessoas precisam da lisonja.

A meta da franqueza não é manter aquele a quem se endereça a fala na dependência de quem fala. O objetivo da franqueza é fazer com que, em um dado momento, aquele a quem se endereça a fala se encontre em uma situação tal que não necessite mais do discurso do outro. A verdade que na franqueza passa de um ao outro sela, assegura e garante a autonomia do outro, daquele que recebeu a palavra em relação a quem a pronunciou.

O segundo adversário da franqueza podemos chamar de retórica. A retórica não tem como objetivo estabelecer uma verdade, mas ser uma arte de persuadir aqueles a quem se endereça. Através da retórica pretendo convencer as pessoas, quer de uma verdade quer de uma mentira. O centro da retórica é a tática, as regras de habilidade no falar e agir. A retórica age sobre os outros porque deseja seduzi-los. Ela é, por exemplo, muito utilizada em uma sociedade de consumo pelo marketing e pela propaganda. Não importa qual seja o objeto, o marketing necessita vendê-lo, precisa convencer de que ele é primordial.

Vivendo em uma sociedade capitalista absorvemos lentamente a atitude da retórica em nossas relações pessoais e nos vemos, muitas vezes, muito mais atentos às estratégias do que à verdade. A franqueza possui como regra o apelo do momento (aquilo que os gregos chamavam de “kairós”). Ao sermos francos falamos e agimos porque o momento assim exige e não porque desejamos manipulá-lo. A grande conseqüência da franqueza é a manutenção da dignidade do outro. Este não necessita da lisonja e muito menos corre o risco de se tornar uma marionete de alguém. Justamente por ser puro, franco e livre Jesus sintetiza todos os mandamentos em apenas dois, evidenciando-se em sua pessoa de forma tão marcante. A obscuridade é a melhor forma de despotismo. Seguir a Jesus é ser luz, transparente, puro.

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