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Entrevista da semana: Bitenka: um terapeuta da música

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Bitenka ainda era um estudante universitário quando veio para Bauru para cantar na nos bares da cidade. Gostou, foi ficando e hoje é uma das figuras mais conhecidas da noite bauruense. Quem testemunha sua energia no palco não diz que o músico tem mais de 20 anos de estrada, tamanha paixão com que ele se dedica a um ato que, para outros, pode ser apenas interpretar um a canção. Na opinião do instrumentista, cantor e compositor, a música é mais que um meio de vida, é uma forma de terapia que pode mudar o humor das pessoas.

Em um animado bate-papo durante a semana no Jornal da Cidade, Bitenka falou de sua visão da música e, entre outras coisas, revelou como faz para não se cansar de cantar as mesmas músicas todas as noites. A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Jornal da Cidade – Quando o José Antônio Bittencourt virou Bitenka?

Bitenka – Na adolescência ainda, jogando bola. Na escola me chamavam pelo sobrenome e era muito comprido, então virou Bitenka e foi ficando.

JC – Como começou sua relação com a música?

Bitenka – Na pré-adolescência, tocando violão. Fiz uma música na minha primeira aula de violão. Esse lance de compor sempre “veio”. Comecei a participar de festivais e, quando morava em Piracicaba e fazia faculdade de publicidade e propaganda, montamos o Sovaco de Cobra, uma banda que fez muito sucesso. Não parei mais de tocar. Trabalhei com propaganda por uns dois meses e fiquei na música, daí foi uma bola de neve. Só fui voltar à propaganda fazendo trilha sonora e jingles.

JC – Você está há quantos anos na noite?

Bitenka – Entre 26 e 27 anos, desde que morava em Piracicaba.

JC – Depois de tanto tempo, é fácil saber o que o público quer ouvir só olhando do palco? Não cai na rotina?

Bitenka – A faixa etária determina muito o que eu toco. Se tem um pessoal mais velho, toco algo com o que eles se identifiquem. De repente chega uma roda de meninos, jogo um coisa mais pop... Daí tento manter uma harmonia. Até alguns anos atrás, eu fazia um roteiro do que cantar, agora não faço mais. Vou captando a energia das pessoas e vou por esse lado. Se começa a dar certo, vou desenvolvendo o repertório. Não carrego uma pasta, então vou emendando uma música na outra. Isso vai fazendo com que as pessoas entrem no clima com você e participem. Vai ficando um negócio envolvente. Eu não sinto monotonia, se canso de tocar uma música eu começo a rearmonizar as músicas, mudar as cadências e a maneira de interpretar. Isso acaba motivando porque canto uma música que canto há 20 anos de uma maneira diferente. Os músicos que tocam comigo já sabem, uma música que hoje é pop rock amanhã a gente pode fazer como reggae...

JC – O repertório na noite é mais ou menos o mesmo, não é?

Bitenka – Eu diria que existem 20 ou 25 músicas que são infalíveis, que funcionam em diversos ambientes. Além dessas tradicionais, tem também as atuais, que ficam por um tempo e depois, algumas delas passam. Entre as tradicionais estão “Codinome Beija-Flor”, do Cazuza; “Flor de Lis”, do Djavan; “Papel Marchê” e “O Bêbado e a Equilibrista”, do João Bosco; “À Francesa”, da Marina; “Noite do Prazer”, do Brilho... Até outro dia tinha que tocar “Amor Perfeito”, do Roberto Carlos, foi uma febre e eu odiava essa música. Fiz um outro arranjo e ela ficou aceitável.

JC – Como fazer quando você não gosta da música?

Bitenka – Geralmente as músicas que a gente não gosta não ficam boas com a gente. Tento puxar os arranjos para algo mais próximo do que eu gosto.

JC – E a mania das pessoas pedirem músicas durante a apresentação? O famoso “toca Raul”?

Bitenka – É um saco! Quando você vê o garçom vindo com o papelzinho para o seu lado já começa pensar: “A noite está tão legal, quem quer ouvir outra coisa?”. Muitas vezes, a pessoa faz um pedido coerente, que está dentro do seu estilo. Outros pedem coisas que não têm nada a ver. Acho que as pessoas deveriam ter o bom senso de pedir uma música no gênero que você está fazendo. Mas se eu vou a um bar, quero ver o que vai rolar, não quero interferir no trabalho. Isso é uma coisa chata. Outra coisa chata é a pessoa querer tirar o couvert da conta, mesmo tendo gostado da música. O couvert para os músicos é muito importante, mesmo que ele não seja repassado para os músicos. É ele que motiva a contratação e viver de música é difícil. Quem pede para tirar o couvert prejudica uma classe muito sofrida.

JC – Você já deve ter tocado para um público que não te deu muita atenção. Como é isso?

Bitenka – Isso acontece. Tem um dia em que você vai tocar que o cara só quer estar lá, tomar uma cerveja e conversar. Nessa hora, é preciso ter consciência que vai fazer apenas um fundo musical. Isso acontece geralmente no meio da semana. Não é todo dia que o bar está lotado e todo mundo quer dançar. Há dias só com casais nas mesas, então toco uma música romântica e faço a trilha sonora. A noite tem vários estilos, a gente tem que se adaptar.

JC – Como você se lembra das músicas sem uma pasta?

Bitenka – Vai pelo andar da carruagem. Se fui para o pop rock, vou pôr uma trilha, de repente vou para o samba e sigo outra e por assim vai. Vou cantando e vou lembrando. Enquanto canto uma música, estou pensando na próxima. Para mim é uma auto-terapia, começo a cantar, as pessoas começam a cantar comigo e gera aquela energia. Outro dia tivemos uma noite muito gostosa no aniversário do Jeribá. O bar inteiro ficou contagiado, todo mundo cantou e dançou e é difícil ver isso, aquela energia no ar. A sua bateria vai sendo recarregada.

JC – Como você define a sua profissão?

Bitenka – Acho que tem muito a ver com terapia, está ligada a curas, a levantar o astral das pessoas, mudar a cor da aura, fazer as pessoas vibrarem com você. Eu sou um pouco terapeuta no meu trabalho, não só para as pessoas, mas para mim também. O legal é conseguir levar alguma coisa de bom para as pessoas. A música tem esse poder. Você ver a pessoa levantar e cantar, dançar uma música, se divertir é o melhor cachê do mundo.

JC – Você é ligado em assuntos esotéricos?

Bitenka – Eu acho que o futuro vai ter algo que una um pouco de todas as religiões e filosofias, mas, no fundo, o que importa é ter Deus no coração, é você ir em busca da luz. Em todos os lugares, existem coisas que podem ser boas para você, é importante estudar... Cromoterapia, reiki, musicoterapia, acho tudo isso muito interessante. Claro que existe muito marketing mas o fim é o mesmo, melhorar o dia-a-dia da pessoa. Para isso, tudo é válido.

JC – Como você avalia a noite bauruense?

Bitenka – O mais difícil da noite bauruense é a economia. Era preciso ter mais dinheiro no mercado para a noite ter mais glamour, mais produção e investimento. Sem a parte financeira, a noite fica empobrecida culturalmente. E Bauru é um celeiro musical muito importante, sempre foi. A cidade teve a Orquestra Mauro de Campos, que era importantíssima... O Badê é uma bandeira, fenomenal; tem os irmãos Godoy, importantíssimos no cenário nacional. Atualmente tem a Manu, na minha opinião a maior revelação dos últimos tempos. Tem muita gente boa.

JC – O público mudou muito nos últimos 20 anos?

Bitenka – Acho que hoje o pessoal sai para se divertir mais. Você vai lá, ouve a música, canta, dança e vai embora para casa feliz, não fica só lá no balcão bebendo. Mas a noite mudou também. Mudou a linguagem musical. A onda do acústico resgatou muita coisa para as gerações mais novas.

JC – Quando você é público e não artista, o que gosta de ouvir na noite?

Bitenka – É raro eu estar na noite como público, mas o que eu gosto é de música boa.

JC – Você fica prestando atenção no que o outro músico está fazendo?

Bitenka – Não, eu prefiro desligar. Se fizer isso não curto a noite. Ouço, mas não costumo prestar atenção na parte técnica, senão fico muito crítico.

JC – Você viveu até agora mais da metade da sua vida trabalhando na noite. Foi uma boa escolha?

Bitenka – Eu acho. Não sinto nada saturado, estou com gás, tenho mais gás do que antes. Também gosto da vida noturna, durmo muito tarde.

JC – Alguma história curiosa?

Bitenka – Uma vez em Uberaba, fomos fazer um show com uma cantora e subimos no palco depois da banda que fez a abertura. Estava com o Tiquinho, do Funk Como Le Gusta, e o Alexandre Caparroz. Olhamos os amplificadores e vimos que eles estavam no volume baixo e resolvemos aumentar. Na hora que a banda tocou, as caixas de um lado caíram todas. A sorte foi que não pegou em ninguém. O pessoal achou que era algum efeito porque o show não parou e, dois meses depois, contrataram a gente de novo. Olhamos uns para os outros com aquela cara de “não era para ter erguido o volume, né?”. Uma vez em Atibaia, em cima de um trio elétrico, eu tocando e cantando, o povo pulando lá embaixo, de repente chega um cara e diz no meu ouvido “Depois do som vai todo mundo para o bar tal que está liberado para todo mundo”. Eu ouvi e falei alto para todo mundo. A galera lá embaixo comemorou e o cara ficou desesperado porque era só para a banda. Causei um tumulto na casa do cara naquele dia.

JC – Ser músico na noite atrai as mulheres?

Bitenka – As mulheres olham a gente tocando e tal, mas hoje estou numa fase tão profissional que nem passa pela minha cabeça na hora, de repente, pegar um telefone. Essa paquera, arrumar namorada tocando, rolava mais no começo da minha carreira.

JC – Como é o seu processo de composição. As músicas surgem ou você senta e diz: hoje vou fazer uma música?

Bitenka – As músicas mais legais são as espontâneas, em 15 minutos elas ficam prontas. Tem outras que eu faço uma parte e não consigo fazer a outra e daí, de repente, de uma hora para outra, vem. Quando o processo não é espontâneo não é tão legal. Fica meio mecânico. A música sai mas é mais legal quando ela vem sozinha. Normalmente a letra vem junto com a melodia.

JC – Quem são seus cantores favoritos?

Bitenka - Gosto do Chico Buarque, Djavan, João Bosco, Titãs, Cidade Negra, Lulu Santos, Ira, Arismar do Espírito Santo, Milton Nascimento, os mineiros, Tom Jobim... Gosto de muita coisa.

JC – Qual sua música favorita?

Bitenka – É, quase sempre a última música que eu fiz, por isso ninguém conhece. Há um tempo era uma música no ritmo dos anos 60 que contava uma historinha, depois uma “Garota de Ipanema” versão 2007 que eu fiz, que é uma bossa pop com a mesma seqüência harmônica da “Garota” tradicional, se chama “Nova Garota”.

JC – A música brasileira é a melhor do mundo?

Bitenka – Eu acho. A variedade é muito grande, tem frevo, baião, carimbó, axé, samba, rock... O rock de São Paulo é diferente do rock do Rio. É uma quantidade imensa se informação que a gente não vê em outros lugares. A gente toca tudo o que os outros países tocam mas eles não tocam tudo o que os brasileiros tocam. Se você um americano tocar samba você dá risada... Noel Rosa, Tom Jobim... A estrutura da composição brasileira é muito rica. Pixinguinha, por exemplo, tem uma obra feita há 70 anos que ainda é atual.

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Perfil

Nome: José Antônio Bittencourt

Local de nascimento: Itapira

Idade: 48 anos

Filhas: Tarsila Barbosa Rays Bittencourt, 19 anos, e Anna Luiza Campitelli Ferreira Bittencourt, 12 anos. Também é “pai de coração” de Valéria Bordin, 24 anos, e Izabella Bordin, 21 anos

Hobbies: Cozinhar, quase sempre inventando novas receitas na hora

Livro de cabeceira: “Noites Tropicais: Solos, Improvisações e Memórias”, de Nelson Motta

Filme preferido: “Dança Comigo?”, de Peter Chelsom, com Richard Gere e Jennifer Lopez

Estilo musical predileto: MPB, música brasileira em geral

Time de coração: Corinthians e Noroeste

Para quem daria nota 10: Chico Buarque de Hollanda

Para quem daria nota 0: Para os políticos que participaram de todas essas crises do ano passado.

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