Brasília - Foi uma estréia bem ao estilo surpreendente e polêmico de Clodovil. Em seu primeiro discurso da tribuna da Câmara, o deputado Clodovil Hernandes (PTC-SP) conseguiu galvanizar as atenções do plenário - que, numa atitude rara, silenciou para ouvi-lo.
O pronunciamento produziu ainda um atrito entre o recém-chegado e o novo presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), a quem Clodovil acabou chamando de mal-educado. O que produziu a indignação de Clodovil foi o encerramento brusco do discurso.
Chinaglia interrompeu o estreante para dar início sem atraso, exatamente às 16h, à chamada ordem do dia, período da sessão reservado às votações. “O senhor Chinaglia me botou para fora sem dizer nada. É muito mal-educado. Eu o ouvi durante uma hora falando no meu ouvido quando queria o meu voto (para a presidência da Câmara). Eu não preciso dele para nada. Estou aqui pelo desejo das pessoas e não dele”, disse.
Na tribuna, Clodovil pregou humildade, desprendimento, a prática da política com bondade e pediu perdão ao País e ao povo brasileiro por ter se omitido politicamente por tanto tempo. Ele anunciou seus novos objetivos: “Ser o melhor representante do povo que me elegeu e fazer desta Casa um lugar onde a bondade esteja presente na prática, convivendo e pautando o exercício do poder, servindo de peso e medida nas disputas e conveniências políticas e pessoais”.
O deputado recém-chegado conseguiu calar o plenário, ao questionar o significado do decoro parlamentar. “Não sei o que é decoro com um barulho desse enquanto a gente fala. Parece um mercado. Isso aqui é a casa do povo. Nem na TV, que é popular, se faz isso”, repreendeu. O pito valeu e os mais de 300 deputados que estavam no plenário fizeram silêncio para ouvir o discurso.
Com a verve exercitada ao longo dos anos em que trabalhou na televisão, Clodovil chamou todos ao trabalho: “Vamos deixar a preguiça de lado, arregaçar as mangas, de preferência com elegância, é claro, e trabalhar de verdade, com a verdade do País, para o povo.” O pronunciamento foi curto, de apenas 18 minutos, mas Clodovil recebeu elogios de deputados.
“A luta pelos direitos sociais, pelos direitos humanos e pelos direitos dos cidadãos terá em seu mandato um instrumento a mais para diminuir as desigualdades e distorções da sociedade”, disse a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), ao saudar Clodovil.
Durante o discurso, Clodovil provocou o deputado Paulo Maluf (PP-SP). “As pessoas egoístas não conseguem nada. Se até o corpo fica debaixo da terra, imagine os atos, não é doutor Paulo Maluf?” O ex-prefeito agradeceu a citação e creditou a eleição de Clodovil a seu poder de comunicação e aos “tempos da moda” quando o então estilista fazia “as melhores coleções para São Paulo”.
“Quero lembrar para os que não o conheceram pela televisão que vossa excelência fala, através da sua argumentação, aquilo que com sinceridade pensa. Com certeza que será um dos mais ativos e polêmicos membros dessa Casa”, disse Maluf. Clodovil respondeu ter se tornado “conhecido em todo País graças ao trabalho, e não por coisas desonradas”.
Petistas
O deputado Antônio Palocci (PT-SP), ex-ministro da Fazenda, voltou à Câmara evitando a mídia. No plenário, interveio em projetos tributários.
O deputado José Genoino (SP) foi mais reservado: “Não tenho discurso programado ainda, vou dar prioridade às prioridades da Câmara”.