Bairros

Buracos são reflexos da falta de manutenção

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Nos últimos anos, aumentou tanto o número de buracos nas ruas de Bauru que muitas pessoas passaram a questionar a qualidade do material utilizado na pavimentação do município. De acordo com especialistas da área, porém, o problema não está tanto no modo como o asfalto é feito, mas, sim, na maneira como ele é cuidado.

“As ruas da cidade ficam esburacadas porque o pavimento está velho demais”, assegura Sérgio Macedo, professor do departamento de engenharia civil da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

“Quando o asfalto é produzido”, explica ele, ”é preparado para durar 15, 20 anos, no máximo. O problema é que algumas ruas daqui foram pavimentadas há várias décadas e nunca receberam qualquer tipo de cuidado.”

Cícero Santana é taxista, tem 67 anos e vive em Bauru desde os 3. Ele teve a oportunidade de assistir ao asfaltamento de uma das ruas mais conhecidas da cidade, a 1.o Agosto, há quase 50 anos.

“Foi na época da Copa do Mundo de 1958 (quando o Brasil conquistou o primeiro título mundial), lembro como se fosse hoje. Eu tinha ido até o Centro para ouvir a transmissão de um jogo da Seleção na sede da antiga Rádio PRG-8. Olhei para baixo e vi a rua repleta de pedras de brita, pronta para receber o asfalto”, recorda.

Os anos foram cruéis com a 1.o Agosto: atualmente, vários trechos da via se encontram completamente deteriorados. Ainda assim, o taxista faz questão de elogiá-la. “Ela é uma das poucas ruas de Bauru que são boas para se rodar”, afirma.

Santana parece estar certo pois, não muito longe dali, é possível se encontrar asfalto em estado bem pior. Em grandes avenidas, como a Rodrigues Alves e a Nações Unidas, os buracos vão aos poucos tomando conta de tudo.

A atual administração municipal se apóia no argumento da falta de manutenção para se defender das críticas feitas pelos bauruenses em relação ao estado das ruas. “A maior parte do asfalto existente na cidade foi feita nos anos 70. Como nas décadas seguintes não foram realizados recapeamentos periódicos, é natural que hoje a situação se encontre como está”, diz Eduardo Garcia Sanchez, engenheiro da Secretaria Municipal de Obras.

Ele trabalha há quase 30 anos no órgão - segundo Paulo Brittes, responsável pela pasta, Sanchez é o homem que mais entende de asfalto em toda a prefeitura. “A maioria do pavimento existente em Bauru foi feita há mais de 20 anos. Quando ele estava perdendo a validade, no começo da década de 1990, ninguém se preocupava em recapear as ruas já asfaltadas. Todos os prefeitos se preocuparam apenas em realizar novas obras nas ruas de terra”, explica o engenheiro.

Com o passar do tempo, porém, tanto o pavimento antigo quanto o novo acabaram se deteriorando. O problema adquiriu proporções tão grandes que se tornou praticamente impossível de ser resolvido.

Um dos entraves está relacionado à Usina de Asfalto, que atualmente é capaz de produzir material suficiente para revestir apenas quatro quarteirões padrão ao dia. Mas há outra limitação ainda maior: “Falta dinheiro para tantos projetos”, afirma o secretário.

Ele estima que seriam necessários R$ 8 milhões ao ano para recapear as ruas deterioradas do município. “Isso eqüivale ao orçamento anual da Secretaria de Obras”, diz. Caso Brittes tivesse também a intenção de asfaltar todas as vias de terra da cidade, o valor saltaria para R$ 250 milhões.

Na visão de Sanchez, a intensificação dos trabalhos de manutenção preventiva no presente momento poderia vir a amenizar o problema nos próximos anos. “Mas, para que isso ocorresse, seria preciso recapear 720 quadras ao ano, pelo resto da eternidade”, calcula o engenheiro.

Conhecedor da atual situação financeira do município, Sanchez sabe, melhor do que ninguém, que a meta dificilmente será atingida. “Se a gente conseguisse fazer manutenção em 500 quarteirões, até o ano que vem, seria o mesmo que realizar uma sonho”, diz.

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Falta de verba

A falta de verbas é, na opinião do secretário municipal de Obras, Paulo Brittes, um dos principais entraves para a ampliação do programa de asfaltamento e recapeamento do município de Bauru. O assunto foi discutido em entrevista ao Jornal da Cidade, concedida na última segunda-feira. Leia os principais trechos da conversa a seguir.

JC - O senhor está aposentado há algum tempo (Brittes era engenheiro da Rede Ferroviária Federal S/A). O que leva alguém a trocar uma vida de tranqüilidade pela rotina cansativa da Secretaria de Obras?

Brittes - Vim porque o prefeito Tuga Angerami me procurou e disse que precisava de meu auxílio. Resolvi colaborar com ele.

JC - O senhor imaginava que teria tantas dores de cabeça no cargo?

Brittes - Isso era algo que eu já esperava. Problemas existem para serem enfrentados. Já que estou aqui, preciso agüentar todas as “broncas” que surgirem.

JC - Atualmente, qual a maior carência da secretaria?

Brittes - Dinheiro. Se você o tem, pode resolver qualquer problemas. Quando não possui, é obrigado a quebrar a cabeça para encontrar outras soluções viáveis.

JC - Por isso o asfalto de Bauru tem tantos problemas?

Brittes - Ele está assim porque não recebeu os cuidados certos no tempo necessário. É lógico que se tivéssemos mais recursos a situação não estaria tão crítica.

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