Cultura

Sobre Mundos: O exame de consciência

Por Padre Beto* | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Segundo uma antiga lenda oriental, quando o Cristo chegou aos céus, um anjo se aproximou e perguntou-lhe como deveria se desenvolver na Terra a construção do seu Reino. “Eu deixei vários discípulos e seguidores por lá”, respondeu o Cristo. Mas depois de examinar o quanto estes seguidores eram frágeis, inexpressivos e demonstravam, muitas vezes, diante dos perigos uma certa covardia, o anjo voltou a perguntar ao Cristo: “Mestre, o senhor não tem mesmo nenhum plano melhor?”

Cristo sorrindo respondeu: “Não, eu não tenho nenhum plano melhor!”, e continuou: “Não seja como os humanos, você não deve subestimar a inteligência humana”.

Para Epicuro, o filosofar consistia em uma terapia: “Assim como realmente a medicina em nada beneficia, se não liberta dos males do corpo, assim também sucede com a filosofia, se não liberta das paixões da alma”. Em outras palavras, filosofar, em sua essência, significava a substituição das crenças pela correta compreensão da natureza das coisas, em particular, da natureza do próprio ser humano. Antes de qualquer coisa, filosofar para Epicuro era refletir sobre seus próprios atos.

Neste sentido, encontramos uma prática existente na filosofia de Pitágoras que esteve presente por séculos no Ocidente, mas que hoje está um pouco esquecida: o exame de consciência. A intenção de Pitágoras com esta prática era a preparação para um sono sossegado, examinando tudo o que foi feito durante o dia. Para o filósofo, o exame de consciência tem por função principal permitir uma purificação do pensamento antes do sono. O exame de consciência não era realizado exatamente para julgar o que se fez, mas para purificar a mente. Pitágoras acreditava que, pensando no que se fez, se expulsava com este pensamento o mal que pode residir em nós mesmos, nos purificando e tornando o sono mais tranqüilo.

Esta idéia de exame de consciência está relacionada com a concepção de que o sonho é revelador da verdade da alma. O termômetro de um bom exame de consciência estava no conteúdo do sonho. No sonho é possível ver se uma alma está agitada ou calma. Os estóicos também possuíam a prática do exame de consciência, porém com um significado bem diferente. Os estóicos praticavam, na verdade, dois exames de consciência: o exame da manhã e o exame da noite. O exame da manhã consiste em repassar antecipadamente as ações que faremos durante o dia, nossos compromissos, os encontros marcados, as tarefas ou os desafios que teremos de enfrentar durante o dia que se inicia.

Mas não somente isso, o exame de consciência feito de manhã deve lembrar o objetivo geral a que nos propomos em todas as ações que faremos durante o dia e os fins gerais que devemos sempre ter na mente ao longo da existência. Ao mesmo tempo, o exame deve nos fazer ver as precauções a serem tomadas para agirmos nas situações que se apresentam em função destes objetivos precisos e destes fins gerais. O exame da noite possui, por sua vez, uma função de revisão. Em relação a este exame de consciência, Sêneca afirma que devemos ter cuidado para não sermos condescendentes. Para o filósofo, nada deve passar despercebido. No exame da noite nos colocamos como juizes de nossas ações. Porém, não ser indulgente e analisar os fatos como um juiz não significa rechear nossa mente de culpas e remorsos. As faltas devem ser entendidas essencialmente como erros técnicos.

Se no exame da manhã estabelecemos os nossos objetivos, no exame da noite fazemos um balanço, um balanço real das ações que tinham sido programadas ou visadas pela manhã. Para Sêneca, o objetivo do exame de consciência da noite não é se censurar. Aliás, o filósofo chega a dizer que não lhe cabe censurar-se. No exame de consciência não devemos nos isentar de nada, devemos nos lembrar de tudo o que fizemos ou deixamos de fazer, sem mostrar indulgência, porém, o sentido do exame não é nos punir, mas analisar se estamos caminhando na direção que desejamos e, diante de um erro, afirmar que a partir do dia seguinte não iremos mais repeti-lo.

Na verdade, a pergunta fundamental do exame de consciência é: até que ponto estou vivendo realmente como um sujeito ético? Ser um sujeito ético é agir conforme nossas convicções, em outras palavras, aproximar ao máximo aquilo que pensamos ou dizemos daquilo que realizamos. A busca de proximidade entre prática e teoria nos faz sermos sujeitos éticos. Mas não é somente isso. Ser um sujeito ético é refletir sobre os resultados desta proximidade e questionar até que ponto minhas atitudes estão construindo uma “estética da existência” que faz bem.

O exame de consciência deve nos ajudar a pensar se esta “estética da existência”, ou seja, tudo que realmente estou sendo e fazendo está contribuindo para uma qualidade de vida, para o bem-estar individual e coletivo. O exame de consciência só faz sentido na dialética entre o pensar e agir, entre nossa vontade e nossa atitude diante da vida.

* Para entrar em contato com o padre Beto, acesse o site www.padrebeto.com.br.

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