São Paulo - Aos 79 anos, o bispo emérito de Santa Maria, (RS), dom Ivo Lorscheiter, morreu na tarde de ontem no Hospital da Caridade, localizado na cidade. O corpo dele será velado a partir das 18h na Catedral de Santa Maria. Segundo a Diocese de Santa Maria, o corpo de dom Ivo Lorscheiter será enterrado hoje, após a missa a ser celebrada na Basílica de Medianeira.
Ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Ivo estava internado no hospital desde 25 de fevereiro por conta de complicações resultantes de uma cirurgia no estômago. Ele também foi secretário-geral da CNBB. Dom Ivo completaria 80 anos em 7 de dezembro. Nascido em uma família simples e religiosa (é primo do cardeal Aloísio Lorscheiter, tem um irmão padre e várias primas freiras), ele foi criado em uma colônia alemã no Rio Grande do Sul.
Dom Ivo esteve entre os protagonistas de um período histórico em que a Igreja e o governo seguiram sempre sinais inversos. Último bispo brasileiro nomeado por Paulo VI ainda com o Concílio Vaticano II em andamento, em 1965, ele mal teve tempo de experimentar os ares liberalizantes vindos de Roma.
A situação interna o colocou à frente da CNBB no período mais obscuro do regime militar. Dom José Ivo Lorscheiter permaneceu 30 anos à frente da diocese de Santa Maria (RS). Em 24 de março de 2004, o papa João Paulo II aceitou a sua renúncia por limite de idade, à época com 75 anos. Dom Ivo nasceu em São José do Hortêncio, 2.º distrito de São Sebastião do Caí (RS). Nos primeiros anos de estudo freqüentou uma escola paroquial em sua terra natal, depois prosseguiu num colégio de irmãs religiosas do Imaculado Coração de Maria.
Em 1939, com 11 anos de idade, foi para o seminário em Gravataí, onde concluiu os estudos no Seminário Menor e, depois, foi encaminhado ao Seminário Maior de São Leopoldo. Em Roma, concluiu o curso de Teologia e foi ordenado sacerdote pelo bispo dom Afonso Carinci na Igreja de São Leão Magno, em 20 de dezembro de 1952.
Voltando ao Brasil, dom Ivo foi trabalhar no Seminário Menor de Gravataí e depois no Seminário Maior de Viamão no Rio Grande do Sul, primeiro como professor e depois como reitor. Em 1965, foi nomeado bispo auxiliar de Porto Alegre, onde trabalhou durante oito anos. Assumiu a diocese de Santa Maria em 21 de abril de 1974. De 1971 a 1979, durante dois mandatos consecutivos, foi secretário-geral da CNBB. De 1979 até abril de 1987 foi presidente da entidade.
Atuação política destacada
“Os cristãos devem manter posição eqüidistante do capitalismo e do comunismo (...) Nós não queremos nada com o comunismo porque ele é ateu, materialista e supressor dos direitos humanos; e, pelas mesmas três razões, somos contra o capitalismo.” Quando fez essa declaração ao jornal “O Estado de S. Paulo”, em maio de 1977, dom José Ivo Lorscheiter era secretário-geral da influente Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). “A Igreja não é um partido político”, insistia.
Achava discriminatória a idéia de um partido explicitamente cristão. Mas não se omitia no protesto contra excessos repressivos que o regime militar impunha à esquerda na década de 1970. Quando iniciou a carreira clerical, dom Ivo não cogitava tão atribulada missão. Os avós tinham sido imigrantes alemães que, na segunda metade do século 19, vieram expropriar de obstinados guaranis o fértil vale do rio Caí. Dom Ivo tinha 12 anos quando o pai decidiu que, naqueles cafundós, só a cruz podia ser alternativa à enxada.
Dez anos de diligente estudo de filosofia em seminário abriram ao jovem José Ivo a oportunidade de especializar-se em teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma. Voltou de lá doutorado, ordenado e despojado do casulo provinciano. No mesmo ano de sua ordenação, 1952, dom Hélder Câmara fundava a CNBB. Após dez anos de magistério, sagraram-no bispo auxiliar de Porto Alegre. Dos 44 aos 60 anos, a partir de 1971, serviu a CNBB, primeiro no cargo de secretário-geral (duas gestões sucessivas de quatro anos), depois como presidente (idem).
Na maior parte desses 16 anos, dom Ivo se dividiu entre a diocese de Santa Maria (assumida em 1974), a CNBB e outras responsabilidades. Entre estas, a de organizar a visita do papa ao Brasil em 1980. Mas nada lhe ocupava a mente e o tempo como a política. Aliou a CNBB ao variegado marxismo da época para pleitear o restabelecimento de liberdades suprimidas pelo regime militar. Mas advertia haver aí só uma aliança tática: a longo prazo, previa que intratáveis incompatibilidades acabariam por contrapor as duas forças.
Em contatos reservados, o general Ernesto Geisel (presidente de 1974 a 1978) promovia seu projeto de “distensão lenta, gradual e segura” rumo à devolução do poder a um governo democrático civil. Em 1977, o senador Petrônio Portela mediava o degelo entre, de um lado, o governo e, de outro, entidades como a CNBB e a Ordem dos Advogados do Brasil. Dos entendimentos sobrevieram a revogação da censura, o restabelecimento do habeas corpus e a ab-rogação do sufocante Ato Institucional n.º 5. Mas nem a CNBB nem seus aliados demoveram Geisel da decisão de interpor mais uma gestão militar, a do general João Baptista Figueiredo (1979-1985), na transição para o poder civil.
Figueiredo obteve relativo êxito na contenção do terrorismo direitista, e promoveu, sim, “anistia ampla, geral e irrestrita”. Mas deixou para o sucessor a convocação de eleições diretas e a constituinte, que dom Ivo e seus aliados pleiteavam. As relações com o governo civil de José Sarney (1985-1989) não foram muito mais fáceis do que com os militares.
O apoio do clero a movimentos de reforma agrária contrariava a comunidade ruralista aliada do governo. Quando Sarney condecorou alguns bispos para aplacá-los, dom Ivo não compareceu para receber sua medalha. Em 1988, a promulgação de nova Constituição coroou duas décadas da campanha cívica da CNBB, mas dom Ivo já não presidia a entidade. No ano anterior, a contragosto, ele transferira o cargo a dom Luciano Mendes de Almeida. (“Místico demais”, teria resmungado dom Ivo.) Recolheu-se a sua diocese de Santa Maria, à qual só renunciaria em 2004 por imposição do limite canônico de idade.
A Constituição de 1988, seu justo orgulho, resultou algo espúria, prolixa e concessiva a interesses corporativistas. Depois da longa noite, o dia amanhecera um tanto cinzento. Mas, quem sabe, manhãs mais luminosas ainda virão entrar pela janela que dom Ivo ajudou a abrir. Questão de fé.