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Percentual dos ‘sem-religião’ cresce 14 vezes nas últimas cinco décadas

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Neste exato momento, milhares de bauruenses estão se dirigindo às igrejas e aos templos afim de cumprir suas obrigações religiosas. Enquanto isso, porém, uma quantidade expressiva de pessoas prefere desenvolver atividades de outra natureza, como pescar, assistir TV, andar de bicicleta ou simplesmente sair com os amigos.

O ato de faltar à missa ou ao culto não causa remorsos nesses indivíduos. Muito pelo contrário, eles costumam se mostrar tranqüilos com relação à vida espiritual que levam. Essas pessoas são os sem-religião, um dos grupos que mais têm crescido no cenário religioso brasileiro nos últimos anos.

Em 1950, eles eram aproximadamente 0,5% da população; em 2000 (ano do último Censo), passaram a ser 7,4%, proporção 14 vezes maior. As estimativas são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Hoje eles já são a terceira maior “identidade religiosa” do País, estando atrás apenas dos católicos (70%) e dos evangélicos (17%).

Pesquisa realizada em 2004 pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (Ceris), sediado no Rio de Janeiro e ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), confirma essa tendência.

Na ocasião, a entidade ouviu 2.870 pessoas em 50 cidades de todo os País. Desse universo, cerca de 7,8% se declararam sem religião, percentual ligeiramente superior ao encontrado pelo IBGE na ocasião do último Censo. O levantamento faz parte do livro “Mudança de Religião no Brasil - Desvendando Sentidos e Motivações” (Palavra & Prece Editora).

Se os dados oficiais fossem projetados para a realidade de Bauru, seria possível afirmar que, atualmente, o Município conta com aproximadamente 26 mil sem-religião (contra 250 mil católicos e 62 mil evangélicos). Esse número, por exemplo, é quatro vezes maior do que a quantidade de espíritas residentes na cidade (hoje cerca de 6,5 mil). O fato de se declararem sem religião não significa que essas pessoas duvidem da existência de Deus ou rejeitem práticas rituais, como orações, mantras ou mesmo o culto a imagens.

“Esse avanço reflete muito mais uma ausência de vínculos institucionais do que a ausência de religiosidade”, explica a socióloga carioca Sílvia Fernandes, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e uma das autoras da pesquisa da Ceris.

De acordo com ela, estudos qualitativos realizados durante a elaboração do trabalho apontam que os que a maior parte dessas pessoas cultiva uma espiritualidade própria no âmbito particular. “Apesar de estarem afastados dos templos, esses indivíduos ainda preservam práticas comuns a aos grupos religiosos tradicionais”, diz a socióloga.

Ela cita como exemplo disso o hábito que muitos brasileiros têm de fazer o sinal-da-cruz ao passar em frente à igreja. Segundo Fernandes, outra característica dessa religiosidade é a fluidez. “Ao mesmo tempo que rezam um terço, essas pessoas também podem queimar um incenso ou praticar algum rito esotérico. É uma forma mais pessoal de se relacionar com o sagrado”, acredita ela.

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Fé particular

A pesquisadora bauruense Dalva Aleixo, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), costuma se referir a essas transformações como o avanço das “comunidades do eu-sozinho”.

“Isso é uma coisa própria da época capitalista em que vivemos. Nosso sistema econômico é extremamente individualista e isso se reflete na forma como as pessoas se relacionam com o sagrado”, pensa. Ou como ela própria diz, hoje em dia “cada pessoa é a sua própria igreja”.

Apesar de possuir formação católica, a artista plástica bauruense Ivelize Agostini, 45 anos, já freqüentou diversas religiões, como budismo, taoísmo e até mesmo sincretismo. “Sempre gostei muito do catolicismo - minha família tem origem italiana, mas depois que cresci, comecei a procurar os porquês das coisas e vi que a Igreja não era capaz de oferecer todas as respostas que eu buscava”, explica.

Hoje ela cultiva uma forma de religiosidade bastante particular. De vez em quando vai a missas, também lê muita filosofia oriental e livros espíritas. Às vezes, ela até se arrisca a assistir cultos evangélicos.

Diversas hipóteses tentam explicar o avanço do segmento dos sem-religião. Para Dalva Aleixo, esse processo é reflexo da crise do final do século passado. “Além de representar o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim (ocorrida em 1989) fez com todas as grandes certezas da humanidade ruíssem. Todos os grandes sistemas políticos, econômicos e filosóficos vieram abaixo e as pessoas acabaram ficando desmobilizadas”, analisa.

Já para Sílvia Fernandes, o aumento no número dos sem-religião é resultado do processo de modernização do País. “Antigamente as pessoas precisavam se declarar católicas para se afirmar culturalmente. Hoje elas já podem admitir uma desvinculação institucional sem sentir remorsos por isso”, crê.

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