Sabemos que um simples aroma é capaz de trazer à tona sentimentos e emoções fortes. Se usado de forma terapêutica, esse mesmo aroma pode se transformar em grande aliado da medicina no tratamento de problemas de saúde física e emocional.
Esse é o conceito da aromaterapia, ciência criada na França, no século 20, que se baseia na utilização dos óleos essenciais extraídos de plantas e encontrados em farmácias de manipulação, aponta Geni Cocuruto Reche, psicóloga e terapeuta holística. De acordo com ela, os óleos são usados para diversas finalidades, como massagens, compressas, cremes, inalação, curativos, aromatizador de ambientes.
Combinados entre si ou utilizados individualmente, os óleos despertam as emoções e exercem influência no comportamento do ser humano, diz ela, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. “O nariz está interligado diretamente com o cérebro. Quando se inala um aroma, não existe nenhuma interrupção. Ele vai direto para o sistema límbico, ativa a memória, lembranças e sentimentos, tanto gradáveis quanto desagradáveis. E tudo é individual porque cada pessoa associará o aroma com situações que vivenciou”, destaca Geni, que tem mais de 15 anos de experiência em aromaterapia.
Jornal da Cidade - O que é aromaterapia?
Geni Cocuruto Reche - É uma forma holística de tratamento que utiliza os óleos essenciais como sua matéria-prima.
JC - Em que ela se baseia?
Geni Reche - Ao mesmo tempo que trabalha o físico, a aromaterapia lida com o lado emocional, mental e espiritual. Por exemplo: no caso de uma pessoa que sofre de enxaqueca, a aromaterapia ajuda a identificar qual é a verdadeira origem desta dor; o mesmo vale para dor de estômago. A aromaterapia vai investigar o que está acontecendo e porquê a pessoa não está “digerindo” determinadas coisas.
JC – Como a aromaterapia pode ser aplicada na vida do ser humano?
Geni Reche - Antes de utilizar a aromaterapia, é preciso que o profissional faça uma anamnese. Existem óleos essenciais que cardíacos e hipertensos não podem usar. Feito isso, é possível indicar determinado óleo essencial para harmonizar o problema, mas é preciso conhecer o estilo de vida da pessoa, saber como ela se alimenta, se relaciona no trabalho e no seu contexto familiar, como são suas horas de sono e lazer. Tudo isso compõe o estilo de vida do indivíduo e interfere em seu comportamento.
JC - Qual é a influência dos aromas na vida pessoal?
Geni Reche – Todo aroma desperta uma emoção interior quando inalado. Isto é comprovado. O aroma traz coisas do inconsciente e do passado. É por isso que a aromaterapia é utilizada na psicologia. Ao sentir um aroma, o paciente vai trazer uma importante bagagem emocional que pode ser trabalhada dentro da terapia.
JC – Os indivíduos sentem os aromas de forma diferente?
Geni Reche – Sim, o despertar da emoção é diferente de pessoa para pessoa. Por exemplo, alguém pode adorar o aroma de rosas, mas pode ser que outro indivíduo associe este mesmo aroma com funeral ou enterro de ente querido, o que surtirá efeito desagradável. O cheiro de gasolina também pode despertar aversão para algumas pessoas, enquanto que para outras simboliza uma viagem maravilhosa. É por isto que os aromas são muito individuais.
JC - Por quê?
Geni Reche – O nariz está interligado diretamente com o cérebro. Quando se inala um aroma, não existe nenhuma interrupção. Ele vai direto para o sistema límbico, uma região do cérebro que é o centro das emoções. Ele ativa a memória, lembranças e sentimentos tanto agradáveis quanto desagradáveis. É individual porque cada pessoa vai associar o aroma com aquilo que vivenciou.
JC – Crianças têm mais senso de percepção das fragrâncias do que os adultos?
Geni Reche – Não só em relação à aromaterapia, mas em tudo. Criança está muito mais aberta para sentir e reagir às situações, aromas e experiências. Por exemplo, no caso de um bebê recém-nascido, a mãe pode colocar uma gotinha de lavanda no sutiã. E pode fazer o mesmo com o berço. Quando o bebê dormir, fará a associação de que está com a mãe ou de que ela está perto.
JC – Por que o olfato de algumas pessoas é mais apurado do que de outras?
Geni Reche – Há estudos mostrando pessoas que têm perda de olfato, permanente ou temporário - devido a uma sinusite ou gripe forte, ou não. Mas eu acredito que a pessoa possa nascer com o olfato mais apurado. É só pensar no filme “O Perfume”, em que o protagonista vai em busca de sua identidade. O primeiro contato que ele tem é com uma moça virgem e ele sente o cheiro dela e de algumas frutas. Isso o perturba ao longo do filme, como se ele quisesse o complemento de sua verdadeira essência.
JC - Como a aromaterapia pode trabalhar as emoções?
Geni Reche – Cada óleo essencial tem seus componentes químicos e cada um atuará em determinada questão. Existem os óleos com propriedades calmantes, sedativos, estimulantes, revigorantes e, neste sentido, se trabalha as emoções. Por exemplo, se mulher estiver sofrendo com a tensão pré-menstrual (TPM), que traz irritabilidade e impaciência, pode usar o óleo essencial de gerânio, em banhos, cremes, loções ou em massagens, o que vai ajudar muito a resolver essa situação. O gerânio estimula o córtex adrenal, onde são produzidos os hormônios, regularizando-os e ajudando na menopausa e TPM. A manjerona pode ser usada para impaciência porque ela atinge o sistema nervoso e faz com que a pessoa se tranqüilize, se harmonize e se equilibre consigo mesmo.
JC – A aromaterapia tem o papel de curar males?
Geni Reche - Ela é um complemento para as medicinas tradicionais. As dores e problemas físicos têm fundo emocional, ou seja, elas já ocorreram no astral e no emocional. Quando se instalam no físico, sinalizam que a pessoa está realmente precisando de ajuda.
JC – A técnica possui contra-indicações?
Geni Reche – Os óleos essenciais não podem ser usados de forma pura porque são muito concentrados. É preciso diluir esse óleo essencial em óleos denominados carreadores, que são vegetais.
JC – Qual é a influência dos aromas nos ambientes?
Geni Reche – É muito positiva. Eles ajudam a combater problemas como insônia, depressão, medo, tensão e pânico. E também colabora para a organização dos ambientes: se a pessoa deseja limpar a casa, as gavetas ou jogar fora coisas que estão muito tempo paradas, pode usar o óleo essencial de laranja no ambiente. A laranja garante organização mental interna e, consequentemente, externa. Para crianças hiperativas, a laranja, tangerina e limão também são indicados.
JC – A aromaterapia está sendo usada como ferramenta de marketing em algumas empresas. Como isso interfere no comportamento do consumidor?
Geni Reche – A aromaterapia é usada nas lojas para que a pessoa entre e sinta um aroma bom e confortável. Isso permite que ela associe essa sensação à determinada loja. É o chamado marketing olfativo. Em Bauru, a técnica está começando, mas em São Paulo já existe.
JC – Qual é a diferença entre aromacologia e aromaterapia?
Geni Reche – A aromacologia é uma ciência que estuda os efeitos dos aromas na psique humana. Ela não analisa somente os óleos essenciais, mas também os aromas sintéticos. A aromaterapia só utiliza óleos essenciais e tem efeito terapêutico.
JC – E existe diferença entre óleo essencial e perfume?
Geni Reche – Sim. Os óleos essenciais têm componentes orgânicos e 100% puros. Os perfumes são feitos de forma sintética e não têm efeito terapêutico.
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No cinema
A influência dos aromas no comportamento humano é um dos temas do suspense “O Perfume – a história de um assassino”. Lançado ano passado e dirigido por Tom Tykwer, o filme (que foi exibido recentemente em Bauru) é uma adaptação do livro homônimo de Patrick Süskind e conta vida de Jean-Baptiste Grenouille. Interpretado por Ben Whishaw, o protagonista desenvolve um senso de olfato superior, o que lhe ajuda a criar os perfumes mais refinados do mundo. Seu trabalho, porém, começa a tomar um rumo perigoso quando ele começa sua busca tenebrosa pela fragrância perfeita.