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Entrevista da semana: Cordeiro redescobriu Pelé em Bauru

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 10 min

Há mais de 40 anos, Luiz Carlos Cordeiro é conhecido como editor da tradicional revista “Atenção” e também como criador e apresentador do prêmio do mesmo nome que anualmente destaca os bauruenses que mais se projetaram no ano anterior.

Há dez anos, porém, Cordeiro realizou um feito que se destaca em sua carreira: escreveu aquele que é, ainda hoje, o único relato sobre a infância e os primeiros passos no futebol do maior jogador de todos os tempos. O que começou como um projeto de resgate da fase bauruense de Edson Arantes do Nascimento acabou como um documento fundamental sobre o atleta, leitura obrigatória para quem é fã do craque do Santos, da Seleção Brasileira e – antes de tudo – do Bauru Atlético Clube.

Na entrevista a seguir, Cordeiro conta como se tornou jornalista, como conseguiu se manter no mercado com sua revista por tanto tempo e, claro, fala de Pelé, que ele viu jogar quando era menino.

Jornal da Cidade – Como o senhor começou sua carreira no jornalismo?

Luiz Carlos Cordeiro – Comecei a trabalhar na imprensa de Bauru por causa da minha paixão pela música. Gostava muito de ir ao Bauru Rádio Clube. Era muito amigo da família Simonetti e ali dentro comecei a conviver com o rádio. Em 1960, comecei a trabalhar na rádio como discotecário. Na mesma época começou a TV Bauru e fui trabalhar lá. Fiz programa de auditório, noticiário, fui publicitário... Isso enquanto permanecia trabalhando na rádio, que era no mesmo prédio. Em 1962 fui para São Paulo, onde trabalhei na Rádio Excelsior e na Rádio Nacional. Também fiz locução de cabine para a TV e dublagem para televisão na Indústria Brasileira de Som. Naquela época dublava a série “Perry Mason”. Fiquei um ano apenas em São Paulo, não me acostumei e quis voltar para Bauru. Em 1969, fui convidado para a dirigir a Rádio Terra Branca e ainda no final da década de 60 fui para o “Diário de Bauru” e ali durante muito tempo fui redator, repórter policial e de política. Foi nessa época que consegui o meu registro profissional como jornalista.

JC – No rádio, o senhor fez programas musicais?

Cordeiro – Eu tinha programas populares à tarde e à noite fazia um programa de música moderna brasileira. Os nossos dois programas que ficaram mais famosos eram “A Melhor das 3” e “O Show das 4”, que chegavam a atingir de 70% a 80% da audiência no horário. Em função da rádio houve o show “Bauru tem Bossa” com a presença de muitos artistas famosos na época. Fui convidado para apresentar e foi um bom momento. Também já apresentei Moacyr Franco, Roberto Carlos, Os Incríveis, Renato e seus Blue Caps...

JC – Quando o senhor deixou o rádio?

Cordeiro – Em 1974, quando fui convidado para ser diretor comercial do “Diário de Bauru”. Nessa época lecionava publicidade e marketing no colegial do Liceu Noroeste e era coordenador do curso. Fiquei no “Diário” até 1982 quando realizei o sonho de criar uma revista.

JC – Como surgiu a “Atenção”?

Cordeiro – Foi vontade de voar com a asa própria, asa pequena, mas minha. Confiava que fosse dar certo porque achava que Bauru precisava de uma revista mensal e eu tinha capacidade por ser jornalista, já estar com 40 anos, ter experiência. Tem outra questão: para se fazer uma revista não adianta ter boas notícias se ela não for mantida e, para isso, é preciso propaganda. Eu já tinha tido experiência em rádio e jornal como diretor comercial então isso facilitou.

JC – O senhor deixou o jornal para fazer a revista?

Cordeiro – Ainda fiquei três meses no “Diário” de Bauru mas depois desse período eu vi que não dava para continuar nos dois lugares e optei pela revista. Ela é hoje a revista mais antiga do interior do Brasil que ainda é publicada. Aqui em Bauru, desde que a “Atenção” surgiu já apareceram 19 revistas e todas elas fecharam. Sobraram a “Já”, que é uma revista mais específica e a “Revista da 94”, que não é mensal.

JC – Como foi possível sobreviver enquanto as concorrentes naufragaram?

Cordeiro – Primeiro eu sou muito tenaz, sou obstinado e trabalho muito. Também sou do ramo... Muita gente que tentou fazer revista aqui não era do ramo e eu tenho conhecimento tanto de publicidade quanto de jornalismo. Eu procurei oferecer o melhor para os meus anunciantes, a revista tem um bom papel, uma boa impressão, traz boas matérias, bons artigos. Isso tem agradado os leitores. Tenho assinantes que há mais de 20 anos recebem a revista. O Prêmio Atenção também ajudou a revista.

JC – Ele é uma derivação da revista?

Cordeiro – Sim, ele começou como “destaques do ano” em 1984. No dia 1 de junho, vamos fazer a 24.ª edição. A Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib) já tinha o “melhores do ano” para as áreas de comércio e indústria então diversificamos os segmentos. Além da indústria e comércio, passamos a homenagear a engenharia, a arquitetura, a filantropia, a política, a imprensa... Foi ampliando. Fizemos a primeira festa com 120 pessoas e a última tinha entre 600 e 700 pessoas.

JC – Por que o prêmio foi criado?

Cordeiro – Sempre achei que Bauru tinha muitos valores que nunca recebiam homenagens. Sempre gostei dos prêmios como o Oscar, o Homem de Visão do Ano, que a revista “Visão” fazia, o Roquette Pinto, dado à imprensa... Bauru tinha muitos nomes em vários segmentos e eu sonhava em fazer uma festa de premiação. Hoje, o prêmio, para muitos, é considerado o evento mais importante da região. Quase todas as cidades da região fazem premiações como a nossa hoje em dia.

JC – O senhor se dedica exclusivamente à revista hoje em dia?

Cordeiro – Profissionalmente sim. Também sou o apresentador exclusivo do Prêmio Atenção.

JC – E o livro “De Edson a Pelé – A Infância do Rei em Bauru”, lançado em 1997, como surgiu?

Cordeiro – Foi por puro “bauruísmo”, assim com o Prêmio Atenção. É o único livro que aborda essa fase da vida dele. Toda vez que se falava do Pelé se falava de Santos, de Três Corações, da Seleção Brasileira... poucas vezes se falava de Bauru. O Pelé sempre lembrou em entrevistas do BAC, do “baquinho”, de coisas que ele aprendeu com o Waldemar de Brito quando morava aqui. Não era todo mundo que sabia que o Pelé teve os momentos mais importantes do início da vida dele em Bauru. Ele veio para cá com 4 anos. Ele não lembra de nenhuma pessoa de Três Corações, de Bauru ele lembra. O que eu quis mostrar: que o Pelé aprendeu a jogar bola em Bauru, aprendeu a ler e a escrever em Bauru, ganhou o primeiro dinheiro dele em Bauru... A formação, os primeiros amigos, as primeiras namoradas, tudo isso foi em Bauru. Eu queria que o Brasil soubesse disso.

JC – Como ele reagiu quando o senhor o procurou para falar da intenção de escrever o livro?

Cordeiro – Ele autorizou. No começo ele acompanhou as primeiras páginas. Passava o que escrevia para o Zoca, irmão dele, com quem sempre tive amizade. No começo, ele acompanhou, depois o Zoca decidiu que não precisava autorizar mais nada. Lancei o livro em Bauru e em São Paulo e a repercussão foi muito boa. A minha intenção é lançar o livro internacionalmente. Meu outro sonho era fazer o museu do Pelé em Bauru. Tenho uma coleção de mais de 60 fotos do Pelé na cidade, muitas delas estão no livro. Tem fotos dele com a camisa do Noroeste, com o time de futebol de salão, com 14 anos, quando ele disputava o torneio no meio de adultos.

JC – O senhor viu o Pelé quando menino?

Cordeiro – Lembro dele, o vi jogar muitas vezes, ele assustava. Quando eram feitos os campeonatos de futebol de salão, havia as preliminares do torneio infanto-juvenil, que era o nosso. Ele devia disputar o infanto-juvenil mas jogava com os adultos. Imagine se ele jogasse o nosso campeonato! Entre os adultos ele fez 70 gols no campeonato.

JC – O que ele achou do livro?

Cordeiro – Ele gostou, se emocionou. Mas ele disse que foi a segunda pessoa que mais se emocionou com o livro. A primeira foi a mãe dele. Ele disse que a mãe dele chorou muito ao ver as fotos, algumas que ela nem sabia que existiam. Eu fiquei três anos pesquisando e escrevendo, comecei as entrevistas com o “seu” Jorge, tio do Pelé, que sempre morou com a dona Celeste, mãe dele. Até quando ela casou, ele ficou morando com ela. Até hoje eles moram juntos. Era ele quem levava o Pelé para ver o pai jogar, ele acompanhou a infância do Pelé de perto.

JC – E os outros depoimentos, foram fáceis?

Cordeiro – Eu conhecia muitas pessoas que já tinham jogado com o Pelé em Bauru, então conversava com essas pessoas e elas me indicavam outras. Cada um tinha uma foto ou duas e eu fui juntando, fazendo cópias. Mais de 50 fotos que estão no livro o Pelé mesmo não tinha. Ele a dona Celeste me cederam cinco fotos. Hoje tenho um acervo, o maior de fotos do Pelé em Bauru e muitas imagens nem estão no livro. Tem o Pelé na escola, a primeira casa dele em Bauru. Espero que saiam na próxima edição do livro.

JC – Seria uma edição ampliada?

Cordeiro – A intenção é essa para a edição que seria lançada no Exterior. Ela teria fotos novas e um adendo com o Pelé do Santos e da Seleção. Bauru não tem nada do Pelé, porque o BAC acabou, a única coisa que sobrou foi o livro.

JC – Muita gente faz críticas ao Pelé dizendo que ele não liga para Bauru?

Cordeiro – O Pelé é um cidadão do mundo, o que as pessoas queriam, que ele viesse no fim-de-semana para Bauru tomar um “choppinho”? As pessoas reclamam que ele não faz nada por Bauru, mas o que Bauru faz por ele? A vida do Pelé é corrida, uma vez ele me contou que ficou seis meses sem a ver a mãe e eles moram em Santos e no Guarujá. Então um dia ele está em São Paulo, no outro em Barcelona, depois em Nova York, em Hong Kong... Ele é um mito. Para mim foi motivo de muito orgulho escrever o livro da infância do atleta do século e motivo de orgulho, como bauruense, de saber que ele morou aqui.

JC – O senhor pretende voltar a escrever um livro?

Cordeiro – Se o tempo, a revista e a vida permitirem, quero escrever mais algumas biografias, não só da infância, mas completas, do Franciscato, do Moussa Tobias, do Toninho Guerreiro... São pessoas sobre as quais eu gostaria de escrever.

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Perfil

Nome completo: Luiz Carlos Marques Cordeiro

Local de nascimento: Bauru

Idade: 65 anos

Esposa: Norma Cordeiro

Filhos: Luiz Alberto Cordeiro (30 anos) e Carlos Eduardo Cordeiro (27 anos)

Hobby: Ler, fazer palavras-cruzadas e ouvir música

Livro de cabeceira: “Os Mais Belos Pensamentos de Todos os Tempos”, de Mansour Challita

Filme preferido: “A Noviça Rebelde”, de Robert Wise

Estilo musical predileto: “Não tem um específico, gosto de todos os tipos de música. É uma paixão”

Times de coração: Noroeste e Corinthians

Para quem daria nota 10: Alcides Franciscato e Moussa Tobias

Para quem daria nota 0: George W. Bush e o “time” do Zé Dirceu

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