A presença das artes plásticas no texto do dramaturgo sueco August Strindberg é tão forte que os atos do espetáculo poderiam até ser imóveis. Mas não são. Pelo menos na montagem de “Camaradagem”, que será apresentada hoje e amanhã pelo Grupo Tapa no Teatro Municipal, cada cena é um quadro expressionista em movimento.
As telas são as grandes inspirações das partituras corporais dos 13 atores, construídas por meio de pesquisas de imagens e quadros, como “O Grito”, de Munch. “Lendo a peça, vimos que ela se passava como se fosse quadros. De uma maneira exagerada, digo que poderíamos fazê-la parada. Por isso que as posições e as disposições de cena são muito significativas”, diz a atriz que interpreta a protagonista, Patrícia Pichamone.
A pintura também permeia o cenário na reprodução de telas - “Rosa e Azul”, de Renoir, é uma das que compõem a cena –, nos armários vazados que emolduram as personagens e nos cavaletes espalhados pelo palco. “O cenário é um só, o que muda é o posicionamento dele. Ele representa uma casa de pintores, o Strindberg era pintor”, diz a atriz.
A própria história é sobre um jovem casal de pintores que parte da Suécia para Paris com um trato: que o casamento seja baseado na camaradagem. Axel, o marido, deve enxergar na esposa, Bertha, não uma mulher, mas um amigo. Mas ele, apaixonado, quer ajudá-la a se destacar na profissão, até ser obrigado a concorrer com a esposa para uma vaga no Salão de Pintura de Paris. Neste momento, o casamento “revolucionário” é posto à prova, assim como a nova posição do homem e da mulher na sociedade.
A polêmica causada com a primeira montagem, no final do século 19, continua hoje. Considerado um dos maiores nomes do teatro sueco, o autor é apontado por muitos como misógino e machista por colocar a mulher como um ser diabólico.
“Apesar de participar do movimento feminista, o maior desejo da protagonista é se casar com um homem que a banque. E, quando encontra essa pessoa apaixonada, ela fica mais machista, fazendo tudo o que não gostaria que fizessem com ela”, diz Pichamone.
“Camaradagem” é um texto de linguagem pré-expressionista, fragmentado, onde tempo e espaço são aglutinados com uma abordagem engraçada e patética sobre a briga pelo poder entre os sexos. “Alguns acham que é um texto machista, outros não. Na minha opinião, Strindberg era um homem que amava enlouquecidamente as mulheres, mas não conseguia entendê-las”, ri a atriz, num tom de defesa.
Sob a direção do premiado Eduardo Tolentino de Araújo, há 26 anos à frente do Grupo Tapa, o espetáculo conta com a trilha sonora de Sidnei Giovenazzi, iluminação de Nelson Ferreira e figurinos de Lola Tolentino, com peças que remetem aos anos 20. “Camaradagem” recebeu os prêmios de melhor espetáculo de 2006 da “Veja SP” e da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA).
• Serviço
Espetáculo “Camaradagem”, do Grupo Tapa, será apresentado hoje, às 21h, e amanhã, às 20h, no Teatro Municipal (avenida Nações Unidas, 8-9). Ingressos à venda na bilheteria por R$ 20,00, R$ 10,00 (para estudantes, pessoas acima de 60 anos e professores da rede pública) e R$ 15,00 (com bônus do Jornal da Cidade). Mais informações: www.meuingresso.com e (14) 3235-1072.
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Luta
Eles já tiveram sede própria e receberam patrocínios da BR Distribuidora e do grupo Pão de Açúcar, mas hoje, com 28 anos de existência e diversos prêmios acumulados, os profissionais do Grupo Tapa dependem das migalhas de alguns editais públicos e privados para produzir novas peças.
“Já vivemos fases complicadas, de muitas dívidas, e até hoje a situação não é uma maravilha. Por exemplo, não podemos montar nenhum espetáculo novo, a não ser que surjam recursos”, lamenta a atriz Patrícia Pichamone, há sete anos no grupo.
Atualmente, os trabalhos do Tapa são num galpão alugado, localizado no Brás, em São Paulo, lugar que comporta um verdadeiro acervo do teatro brasileiro, com todos os figurinos e cenários utilizados pelo grupo ao longo dos 28 anos.
Com uma equipe de aproximadamente 20 pessoas, fora mais 80 flutuantes, o Tapa se mantém fazendo um teatro alternativo, sem temas pedantes e atores desgastados pela televisão. “Apesar de termos uma proposta que foge ao comercial, nossas peças têm público”, afirma a atriz.
E, mesmo sem novas montagens, o trabalho artístico continua. “Estamos numa fase de leituras de textos”, diz Pichamone. Além disso, o Tapa segue em cartaz com o espetáculo “Mandrágora”, em São Paulo, e com a venda de outras peças produzidas durante a trajetória do grupo.