Cazuza era um jovem sensível e sábio. Constatou (e transformou sua constatação em letra de música...) que o herói comunismo morrera de overdose: excesso de autoritarismo, incompetência econômica, censura, violência. Sabia que o inimigo neoliberal estava no poder. Concluiu que sem utopia sócio-econômica, não há vida inteligente.
Impossibilitado de construir uma nova utopia para si, deixou-se levar pelo rodamoinho das paixões e dos sentidos: não sobreviveu fisicamente ao vácuo de propostas políticas para um mundo novo; morreu imprecando contra a fulminante ofensiva da padronização, da homogeneização, da uniformização. Baixou à sepultura, soterrado pelos mesmos filmes, mesmas séries de televisão, mesmas informações, mesmas canções, mesmos slogans publicitários, mesmos objetos, mesmas roupas, mesmos carros, mesmo urbanismo, mesma arquitetura, mesmo tipo de apartamentos, mobiliados e decorados de maneira idêntica.
Hoje, o volume das transações financeiras é dez vezes superior ao das trocas comerciais. O movimento atordoante das moedas e das taxas de juros está cada vez mais independente de qualquer ação do poder político. Três dinâmicas esmagam o ser humano, neste início de milênio: a mundialização da economia; o questionamento do Estado de Bem-Estar Social e do Estado propriamente dito; a destruição generalizada das culturas, sob o rolo compressor da tecnologia.
Os fundamentos teóricos dessa visão atordoante e esmagadora são, surpreendentemente, extraídos do marxismo: pretensão ingênua à cientificidade (o “círculo da razão”), evocação escatológica de um futuro radioso e indiferença em relação aos seus próprios fracassos.
Na instrumentalização ideológica da mundialização condena-se (em nome do “realismo”) toda veleidade de resistência ou, até mesmo, de dissidência. São lançadas ao ridículo as reações de caráter republicano, todas as pesquisas de alternativas, todas as tentativas de regulação democrática, todas as críticas ao mercado. A mundialização não é um “acidente” da história, mas é uma selvageria potencial a ser regulamentada, a ser civilizada. É politicamente que se deve resistir a essa obscura dissolução da própria política na resignação ou desespero.
Por trás da aparência de uma modernidade pós-industrial e informatizada (o fascínio exercido pela internet), a mundialização é uma evolução politicamente reacionária, no sentido estrito do termo. Desmantela-se progressivamente as conquistas democráticas, abandona-se o contrato social, retorna-se, sob o pretexto da “adaptação” e da “competitividade”, ao capitalismo primitivo do século XIX.
Em decorrência do atual furor competitivo, da precarização do emprego e da queda dos salários, trabalhadores e classes médias vivem com dificuldades cada vez maiores e precisam trabalhar cada vez mais para manter o seu nível de vida. O capitalismo mundializado é o “capitalismo assassino”: doze grandes empresários norte-americanos, em entrevista recente ao Newsweek, vangloriam-se de ter demitido 363.000 assalariados! Houve tempo em que despedir em massa era uma vergonha, uma infâmia. Hoje, quanto mais numerosos forem os despedidos, maior é o contentamento das Bolsas de Valores...
Na economia global o Estado não controla o câmbio, nem os fluxos de capital, de informações ou de mercadorias, mas continua responsável pela formação dos cidadãos. E é ali, na formação dos cidadãos, na educação e na cultura, que está a grande trincheira da nova utopia. É nessa trincheira que os intelectuais podem encontrar sua dignidade. Vamos a ela!
O autor, Ney Vilela, é escritor e historiador