A vida atribulada que muitas pessoas levam hoje em dia as impedem de manter uma relação mais afetiva com a família e amigos. A preocupação com o serviço consome todo tempo e energia de que dispomos, não sobrando quase nada para ser usado em nosso próprio benefício. “Temos de cultivar o humano que existe em nós. Temos de dar mais atenção às pessoas do nosso convívio, valorizar mais as amizades”, recomenda o sociólogo Carlos Alberto Albertuni.
Ele lembra o filósofo Sêneca, que dizia que as pessoas desperdiçam muito tempo de suas vidas com coisas que não as realizam como seres humanos. “Ele dizia que vivemos muito para o mundo exterior, para dar satisfação à sociedade, atender à pressão social e esquecemos de viver para nós mesmos”, destaca Albertuni.
Segundo ele, esse ritmo de vida foi imposto pelo capitalismo e tem sido aceito por uma grande parte da sociedade. A ordem é consumir e para isso é preciso ter uma fonte de renda, talvez duas. “Para aqueles que compraram certos produtos, a propaganda cria outras necessidades, maiores que as anteriores, para que eles ambicionem comprar outras coisas. Então, para consumir mais, temos de trabalhar mais. E isso tem um custo alto. Ele custa a saúde, o convívio com a família, com os amigos, a abdicação de si próprio”, comenta.
De acordo com o sociólogo, as pessoas têm consciência desse círculo vicioso, mas falta coragem para escolher um outro modo de vida. “A filosofia capitalista vende a idéia de que a felicidade está ligada ao conforto, a ter aquilo que você sempre sonhou.”
Para o filósofo Fausi dos Santos, vivemos em um mundo hedonista, no qual se confunde felicidade com “ter”. E as pessoas se esquecem de pensar na sua própria existência, nas virtudes e nos limites de cada um. “Daí, abrir mão de algo é visto como derrota.”
Ele comenta que o ser humano está condenado a viver angustiado. É a angústia que nos leva a sempre querer mais, que nos dá a sensação de que nunca temos o bastante e sempre falta alguma coisa.
Na opinião dele, o grande problema da sociedade é a valorização do “ter” em prejuízo ao “ser”. “Quando alguém diz que te ama, o que significa esse amor? Ele te ama por aquilo que você é ou por aquilo que você tem a oferecer, seja um corpo bonito, o dinheiro ou o carro do ano?”
Para Fausi, ser feliz é fugir da rotina e fazer da vida algo extraordinário, fazer das pequenas coisas algo único. “Devemos utilizar a angústia para alavancar nossa vida e nossos limites. E uma boa forma de fazermos isso é assumindo aquilo que somos”, orienta.