Articulistas

Emprego e comércio


| Tempo de leitura: 3 min

A liberalização do comércio mundial na segunda metade do século passado foi muito saudável para o crescimento da economia dos países. Ajudou também a ditar políticas fiscal, monetária e cambial mais responsáveis que permitiram reduzir a taxa de inflação do Mundo. Não é certo, porém, que tais fenômenos tenham reduzido o grau de insegurança no emprego e o desconforto com o aumento das desigualdades que preocupam os cidadãos de todos os países. Esses sentimentos de insegurança e desconforto acabam determinando a escolha do poder político e, conseqüentemente, a escolha da política econômica. A aceitação pela população das virtudes da maior liberdade de comércio depende, portanto, dos seus efeitos, no curto prazo, na dinâmica do crescimento, na segurança no emprego e na redução das desigualdades. Os benefícios futuros não sensibilizam o cidadão porque “ninguém vive no futuro”. A aceitação do efeito telescópico da ampliação do comércio para o crescimento e o emprego exige, portanto, um enorme esforço didático. Essa conjectura foi empiricamente confirmada numa pesquisa estimulada pelo “Chicago Council on Global Affairs” para tentar compreender a percepção das pessoas a respeito da redução das barreiras tarifárias e não-tarifárias ao comércio internacional. Os países escolhidos foram Estados Unidos, China, Índia e Coréia.

Os resultados em todos os países confirmam as preocupações sobre a imediata percepção da relação entre a ampliação do comércio, a segurança no emprego e o aumento da desigualdade. À pergunta, “qual deve ser a maior prioridade para a política externa?”, as respostas foram:

EUA: 1º) proteção do emprego no país; 2º) prevenir a emergência de uma guerra nuclear; 3º) combater o terrorismo internacional e 4º) assegurar um adequado suprimento de energia. Não é novidade que a “proteção ao emprego nacional” é a prioridade número um dos americanos, desde sempre. Para 67% deles, o comércio mundial é uma ameaça à segurança do seu emprego. Apenas 30% dos consultados pensam que o comércio mundial pode aumentar suas oportunidades. Os americanos não são, entretanto, a favor de um aumento do protecionismo: privilegiam acordos que, ao reduzir as barreiras, obriguem o governo a atender quem vai perder o seu emprego. Talvez isso explique a enorme ambigüidade que se vê na política externa americana.

China: na China a prioridade das prioridades da política comercial é manter e ampliar o emprego. Enquanto 30% dos americanos pensam que o comércio mundial pode ser um instrumento para aumentar suas oportunidades, essa porcentagem é de 66% na China. A percepção dos chineses é clara: enquanto apenas 34% dos americanos acham que um tratado de livre comércio com a China seria benéfico, 66% dos chineses gostariam de ver um tratado de livre comércio com os EUA.

O espaço não permite detalhar as respostas nos outros países mas, em resumo, na Índia a proteção ao emprego está no mesmo nível que a aceleração do crescimento e o combate à pobreza. Na Coréia, a prioridade da política externa deve ser a ampliação do emprego dos coreanos ; 51% dos consultados vêem no comércio exterior uma fonte de segurança no emprego e 66% sugerem um acordo de livre comércio com os EUA.

A conclusão da pesquisa é que a percepção dos benefícios proporcionados pelo comércio exterior depende do “lado da ponte” em que se encontra o trabalhador. Para obter os benefícios de longo prazo da ampliação do comércio mundial, a abertura tem de ser combinada com a “proteção do emprego” dos setores que, naturalmente, serão afetados pelo aumento da competição. Isso pressupõe que se dê ao trabalhador e ao empresário nacionais, condições isonômicas às de seus competidores externos. É o que a maioria dos países com políticas inteligentes (juros, tributação leve, câmbio) vêm fazendo...

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor Emérito da FEA-USP , ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

Comentários

Comentários