Cultura

Sobre mundos: A guerra invisível

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

No clássico “Blade Runner – Caçador de Andróides”, Harrison Ford faz uma reflexão sobre o andróide que, apesar de ser seu inimigo, acaba por salvar sua vida: “Não sei por que ele me salvou. Talvez, no fim, amasse a vida mais do que nunca. Não apenas a sua, mas qualquer vida. A minha vida. Ele só queria as mesmas respostas que queremos: de onde vim? Para onde vou? Quanto tempo viverei? Fiquei ali vendo-o morrer.”

O pensador Michel Foucault chama a atenção, em uma de suas obras, para uma mentalidade formada na sociedade civil que, aparentemente, é pacífica, mas que esconde uma batalha, através da qua,l em nossa realidade de terceiro mundo, o sofrimento e a morte se tornam elementos do cotidiano. O filósofo francês faz a constatação de que a política exercida em sociedade é a guerra continuada por outros meios. Com uma camuflagem de paz vivenciamos uma “guerra privada”, na qual cada um luta pelos “seus” direitos.

Aproveitando a tese do filósofo, podemos fazer uma constatação muito mais agravante em nossa realidade. Afinal, entre nós a maioria ainda não luta por “seus” direitos, mas cada um tenta lutar por sua sobrevivência ou por suas próprias vantagens. A análise do filósofo europeu se torna muito mais nítida em nossa sociedade de terceiro mundo, na qual a democracia é uma criança e os contrastes sociais ainda são imensos. A “guerra privada” está extremamente presente em nossa mentalidade, apesar de tentarmos camuflar o nosso caráter brasileiro de pacífico, alegre e cordial.

No cotidiano, vivemos mergulhados em uma mentalidade da guerra. No centro de nossa visão de mundo está o nosso “eu”. Através de nossas atitudes expressamos constantemente, ou somos levados a expressar, os nossos interesses individuais. Em alguns momentos, dizemos “nós”, mas este “nós” se refere, na maioria das vezes, a um pequeno grupo, do qual o “eu” pertence. Em outras palavras, o indivíduo que possui a mentalidade da guerra privada nunca se coloca na posição de um sujeito universal.

Em suas atitudes cotidianas, no trânsito, nas filas, nos negócios, ele não é motivado a viver a famosa regra de outro: não faça ao outro o que você não gostaria que fizessem com você. Tentar não fazer ao outro o que eu não gostaria que fizessem comigo seria, na mentalidade da guerra, a perda. Ninguém deseja perder, mesmo que esta perda seja um ganho para o bem comum. Quando o ser humano possui a mentalidade da guerra privada, ele se refere aos direitos da pessoa humana, não como o filósofo, ou seja, ele não está pesando em valores que venham a enriquecer a vida do ser humano em si, mas em valores que lhe interessam no momento.

Pensar em valores universais significa pensar em regras que venham a fazer justiça e, portanto, a limitar a atuação do próprio eu. Isso não interessa para a guerra privada. A mentalidade da guerra trabalha não para uma vitória de todos, mas para uma vitória particular. Esta vitória particular é mais do que a realização de direitos. Ela é a realização de vantagens. Na guerra privada é necessário atingir vantagens para a sua pessoa, para a sua família ou (no máximo) para o seu grupo, seja este racial, social ou religioso. A verdade defendida por um sujeito impregnado pela mentalidade da guerra nunca é uma verdade universal, mas sempre privada. O seu discurso é sempre um discurso de perspectiva e nunca uma visão da totalidade. Eu vejo o universo sob minha perspectiva e não consigo ir além.

O problema é que, ao buscar somente meus interesses e minhas vantagens, estou alimentando a mesma mentalidade em outros e banalizando todo o sistema ao invés de humanizá-lo. Se a “guerra privada” pode significar nos países de primeiro mundo individualismo, distanciamento entre as pessoas ou solidão, em nossa realidade ela possui conseqüências muito mais graves, pois a luta é totalmente desigual. A mentalidade da guerra gera em nossa realidade desde o desrespeito até a criminalidade mais animal. Porém, dentre todas estas conseqüências, a pior delas é a anestesia diante das fatalidades.

Imbuídos da mentalidade da guerra não nos sensibilizamos mais com a tragédia alheia. Nós nos acostumamos com a tragédia dos outros não somente porque a assistimos todos os dias, mas simplesmente porque a tragédia não nos atinge diretamente. A tragédia do outro não é minha, portanto, ela significa perda somente para o outro. Melhor ainda, a perda do outro mostra que eu ainda sou um vencedor. “Graças a Deus não foi comigo! Graças a Deus não foi com minha família!” Enquanto nada trágico acontecer comigo não estou perdendo na guerra privada. O nosso grande desafio é desmascarar esta guerra camuflada de paz que nos leva a acreditar que não devemos nos envolver em política e sim cuidar de nosso sucesso individual. O nosso maior desafio é uma revolução na mentalidade, colocando no centro desta não a “minha vida”, mas simplesmente a vida.

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