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Amor: sempre na moda

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 8 min

A próxima terça-feira, 12 de junho, é o dia dedicado aos apaixonados. Sejam eles namorados, cônjuges, parceiros, amantes ou “ficantes”, todos se envolvem com o clima do Dia dos Namorados e sentem vontade de reafirmar seu amor por meio de frases, jantares ou presentes. Em homenagem à data, o Jornal da Cidade conversou com a psicóloga clínica Daniela Garcia Bandeca Schwingel, que fez uma avaliação sobre o amor nos tempos atuais, o que mudou nas últimas décadas e as diferentes formas de relações afetivas estabelecidas entre os casais.

Uma das conclusões de Daniela é que existem hoje relacionamentos mais autênticos e de livre escolha. “A mulher tem conquistado seu espaço também no âmbito dos relacionamentos. O homem não mais necessariamente dita todas as regras; mas há, sim, a possibilidade de que estas sejam construídas em conjunto. Há um respeito maior pelo outro enquanto ser humano”, aponta. Para a psicóloga, o amor é uma possibilidade humana e se expressa verdadeiramente na troca, quando os pares constróem um alicerce baseado no diálogo, na compreensão das diferenças individuais e em atitudes que levam a um crescimento e satisfação de ambos.

Por estes motivos, o amor – muitas vezes composto pela linha evolutiva namoro/noivado/casamento - nunca sairá de moda. “Hoje percebe-se um resgate aos valores tradicionais. Com o advento da globalização e da aceleração da massa de informações em curso, é comum períodos em que tendências vão e vem, como em um ciclo dinâmico. Com o processo namoro/noivado/casamento não acontece diferente, mas existe hoje a possibilidade de se inverter a ordem dos acontecimentos. O que antes esteve fora de moda, hoje pode ser o que os casais de namorados buscam”, avalia.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Qual sua avaliação sobre o amor nos tempos atuais?

Daniela Garcia Bandeca Schwingel - O amor é, foi e continuará sendo o mais nobre dos sentimentos. Não existe modismo para o amor. Contudo, não é nada fácil falar sobre o amor, já que por traz desta pequena palavra se esconde um complexo sentimento, muitas vezes dúbio, contraditório. O amor consiste em uma das experiências fundamentais da vida do ser humano, experiência esta que provoca incríveis mudanças na vida do indivíduo, a ponto de se dizer existir um antes e um depois do amor, ou seja, o amor criando possibilidades de um novo ser. Muitas vezes determinante na vida do indivíduo, mais que um sonho ou algo que vem ao acaso, o amor é uma possibilidade humana e acontece verdadeiramente na troca, quando os pares constróem um alicerce no diálogo, na compreensão das diferenças individuais, e em atitudes que levam a um crescimento e satisfação de ambos, trilhando-os à felicidade plena.

JC - Nas últimas décadas, o que mudou nos relacionamentos afetivos?

Daniela Schwingel - Vivemos ainda em uma sociedade de base machista e patriarcal, embora mudanças significativas estejam acontecendo. Existem hoje relacionamentos mais autênticos e de livre escolha. A mulher tem conquistado seu espaço também no âmbito dos relacionamentos. O homem não mais necessariamente dita todas as regras; mas há, sim, a possibilidade de que estas sejam construídas em conjunto. Há um respeito maior pelo outro enquanto ser humano.

JC - E o que é preciso mudar?

Daniela Schwingel - Embora já tenha se iniciado o movimento, a mulher ainda tem muito espaço a conquistar e precisa derrubar a grande barreira do preconceito social.

JC - A liberação sexual feminina e a entrada da mulher no mercado de trabalho interferiram nas relações amorosas? De que forma?

Daniela Schwingel - O que acontece hoje é que a mulher não se sente mais presa a um relacionamento ou ao casamento propriamente dito. Buscando uma igualdade - na diversidade - com o sexo oposto, ela conquistou o direito de ser financeiramente independente e vivenciar plenamente sua sexualidade, conservando as características pessoais do sexo feminino. Não se pode esquecer que houve uma conquista até mesmo no âmbito legislativo, que hoje protege a mulher contra abusos e a ampara quanto às questões legais no que diz respeito à união estável.

JC - Por que muitas pessoas não querem assumir compromissos afetivos, como casar ou ter filhos?

Daniela Schwingel - Vários fatores podem estar relacionados a isto. Um deles é a questão da conquista no âmbito profissional, ou seja, muitos indivíduos, tanto homens quanto mulheres, colocam hoje a sua carreira à frente de seus relacionamentos, desejando primeiramente sucesso e destaque profissional, o que reflete um certo individualismo entre o ser humano. Há também o conceito de “normalidade” que hoje se prega nas trocas de parceiros, dirigidas por quebras de valores e princípios; pela liberdade de escolha e também de pensamento.

JC - Como lidar com namorados que têm filhos?

Daniela Schwingel - Quando se inicia um relacionamento com alguém que tem filhos é preciso ter consciência do papel que se está assumindo no relacionamento e, acima de tudo, respeitar a relação do parceiro com seu filho. Este parceiro vem provavelmente dotado de vínculos familiares pré-existentes, os quais devem ser aceitos e compreendidos. É importante buscar meios de se construir um novo relacionamento que não crie atritos e que não interfira no modo de educar, entendendo que o namorado ou a namorada não está lá para substituir a figura do pai ou da mãe.

JC - E o amor entre idosos?

Daniela Schwingel - Atualmente tem se dado muita ênfase à questão da terceira idade. Talvez porque se tenha percebido que este é o caminho para o qual todos estamos direcionados, queiramos ou não. Com o avanço da medicina e a melhora da qualidade de vida, o número de pessoas idosas tem aumentado muito nas últimas décadas; e com isso tem se percebido uma diminuição do preconceito em relação ao idoso, antes visto como incapaz e até mesmo “assexuado”.

JC - Por que ele é diferente dos namoros entre jovens?

Daniela Schwingel - O amor entre idosos é um amor maduro. Tendo já vivido muitas etapas de sua vida, nas quais passou por alegrias, conquistas e vitórias, bem como por frustrações, conflitos, crises, perdas, este amor maduro não idealiza o outro ou sequer tem expectativas de mudar o outro, mas valoriza o gosto de estarem juntos e desfrutar o outro como ele é. Com a maturidade, a sexualidade é vivenciada além da capacidade física, e tem a ver mais com a relação do casal; é possível descobrir novas formas de prazer.

JC - Houve mudanças nos relacionamentos entre homossexuais?

Daniela Schwingel - O homossexualismo está presente na sociedade desde os tempos antigos. Atualmente percebe-se uma melhora no convívio social, mais aceitação e respeito para com a opção sexual dos indivíduos, embora o preconceito ainda exista. A liberdade de pensamento, bem como a livre escolha de parceiros, possibilita aos homossexuais assumirem de forma mais explícita seus relacionamentos perante a sociedade.

JC - É cada vez maior o número de relacionamentos entre pessoas com deficiência. Quais são as principais barreiras enfrentadas por eles?

Daniela Schwingel - Mais uma vez nos deparamos com a barreira do preconceito. Quando se fala de pessoas com deficiência logo vem à mente a questão da incapacidade física ou mental. Isto ocorre, muitas vezes, no próprio ambiente familiar. Mas estas pessoas, independente de suas diferenças, estão conquistando seu lugar e mostrando seu valor à sociedade. São seres humanos, tem sentimentos e são diferentes como todos os seres humanos são, cada qual com sua particularidade. Eles têm o direito de amar e por que não se relacionar afetivamente? O amor entre pessoas com deficiência pode superar diferenças e dificuldades aparentemente intransponíveis.

JC - Nos tempos atuais, a linha evolutiva namoro/noivado/casamento ainda predomina nos relacionamentos amorosos? Por quê?

Daniela Schwingel - Por um tempo, esta linha esteve “fora de moda”. Hoje percebe-se um resgate aos valores tradicionais. Há o desejo de constituir família e conquistar a tão almejada felicidade. Com o advento da globalização e da aceleração da massa de informações em curso, é comum períodos em que tendências vão e vem, como em um ciclo dinâmico. Com essa linha evolutiva “namoro/noivado/casamento” não acontece diferente, mas existe hoje a possibilidade de se inverter a ordem dos acontecimentos. O que antes esteve fora de moda hoje pode ser o que os casais de namorados buscam.

JC - A Internet influencia as relações afetivas? De que maneira?

Daniela Schwingel – A Internet, para muitos, é um meio que, de certa forma, possibilita um primeiro contato. E este contato independe de grupos sociais ou de aparência física. Certos indivíduos acabam por se sentirem mais aceitos... Ela ainda permite às pessoas fantasias que, no contato “cara-a-cara”, de certa forma, não lhes seriam permitidas, talvez por regras sociais ou morais. Há também a questão de aproximar pessoas que estão fisicamente distantes. O mundo virtual está tão popularizado e comum que aquele pensamento de que seria um meio “frio” está ficando para trás. Hoje a Internet é um espaço de vivência e comunicação tão dinâmico quanto o espaço dito “real”, que proporciona amizades e amores tão reais e próximos quanto os vividos corpo-a-corpo.

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