De repente...silêncio dentro de casa...algo está errado...crianças de dois anos não ficam em silêncio por mais de trinta segundos..., a não ser que estejam dormindo ou...estejam ocupados preenchendo algum cheque... cruzado, é claro...Tudo bem: é mais um documento para o inesquecível dossiê da infância...
Broncas fazem parte da difícil arte de educar, mas tenho para mim que essas pequenas traquinagens um dia farão parte do acervo de saudades da infância de minha filha... olho para o futuro e vejo um tempo em que haverá uma saudade doce do que agora é o presente...me vejo em casa, não necessariamente fazendo tricô ou vendo novela, mas certamente, de olhos postos no relógio, num sábado à noite, a me perguntar “Onde está o meu bebê?”...E o tempo terá passado... Cresceu...
É...me vejo num futuro (distante...eu espero) em que não não mais haverá uma pequena pessoinha sentada sobre a pia enquanto cozinho...conversando comigo sem parar, querendo saber e experimentar tudo...respondendo ao “Isso é sal!”, com um rápido “Quelo sal...”, para depois cuspi-lo na minha cara....um absurdo que não escapa à bronca...e nem à memória que o tempo não apagará jamais...
Num futuro em que não mais haverão pedidos de gelatina no meio da noite...nem pipoca, em que não haverá mais “Tchau, Tchau” para o cocô quando ele “vai embora do vaso”..., nem “Vem aqui, vem aqui”, desenrolando calmamente todo o papel higiênico na tentativa de conseguir pegar o rolo...; nem “Machuquei o dedo, mamãe! Beija!”....E nem exclamações engraçadas quando quebrar alguma coisa: “Zesus Amado”...“Quisto do Céu”... “Noooooossa, que tagéééédia”!!!
É....às vezes ....me pego egoisticamente pensando...é uma pena que os filhos cresçam, talvez um dia nossos beijos percam o poder curativo sobre suas feridas, talvez um dia sequer os queiram....Mas a infância....essa será sempre uma lembrança doce e até certo ponto pertencente mais aos pais, porque existe um tempo de todos nós cuja lembrança somente os nossos pais terão em sua plenitude...e desse tempo, eles – nossos filhos – não se lembrarão...pais que certamente os cansarão de tanto contar as suas histórias, para eles e para os seus amigos (um absurdo, certamente dirão)...Talvez jamais compreendam, é bom não esperar que compreendam um dia...o que consola é saber que um dia...farão exatamente o mesmo com seus próprios filhos.... (nossos netos!!!!!). Que bom, pois não há o que se possa dizer da maternidade (ou paternidade), que corresponda fielmente a toda extensão do sentimento de amor que se tem por um filho: não existe laço mais forte...
É ... somente a força do laço da maternidade (ou paternidade...) é capaz de explicar o estranho sentimento de saudade de um tempo que ainda sequer terminou....Sinto saudades antecipadas daquilo que vivemos hoje...Logo logo, haverão outras coisas e outras tantas histórias...os pedidos serão outros e não mais somente “Seeeeenta, mamaaaaãe! Faz perninha de íiiiiiiiiindio!!!!!” E é por essas e outras que se diz “nossos filhos, nossa vida”...
Simone Regina de Souza Kapitango-a-Samba - RG 28.109.526-7