Esportes

Personagem: Evandro Teixeira, fotógrafo número 1 do Pan-Americano

Adriana Giachini, da APJ especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O peso que carrega nas costas vai além dos quase 15 quilos em equipamentos fotográficos. Aos 71 anos, o fotógrafo Evandro Teixeira completa no Rio de Janeiro sua 12ª participação em Jogos Pan-Americanos. Por mérito, recebeu do Comitê Olímpico Brasileiro o colete de número 001. Sempre atrás das lentes, esse ilustre senhor de cabelos brancos e expressivos olhos azuis escuros carrega consigo a responsabilidade de quem, há 44 anos, é testemunha silenciosa, mas extremamente presente, de grande parte da trajetória do esporte brasileiro.

Por isso, tornou-se o primeiro entre os mais de 500 profissionais que trabalham na cobertura da competição do Rio – feita exceção a ele, a numeração foi dada por ordem de chegada. Há até quem garanta que, se tivesse nascido em Nova York, Evandro estaria entre os mais famosos fotógrafos do mundo.

No currículo, acompanhou momentos de glórias e decepções não só em Jogos Pan-Americanos, mas em oito Copas do Mundo e dez Olimpíadas. Optou por ser “olhos” dos leitores do Jornal do Brasil, um dos mais antigos do Rio de Janeiro. Gaba-se de ter fotografado ídolos como Pelé e Garrincha. “Eles sim tinham talento. O Pelé nunca me negou uma foto. Já aquele dos mil gols...”, diz, citando Romário com quem deixou de conversar há alguns anos. “Não gosto de gente inacessível.”

Com propriedade, ele dá sua avaliação aos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro cuja encerramento acontece hoje. “Correu tudo bem”, diz. Reconhece que existiram falhas, mas nenhuma que realmente comprometa os méritos.

“Todo mundo duvidava da capacidade do Brasil em ser novamente sede da competição. No geral, mostrou-se que era possível. Mais do que isso: era necessário. Em casa, nossos atletas ganham garra, motivados pela torcida e por seus familiares. Prova disso são as medalhas recordes conquistadas.”

Apenas um fato merece repreensão especial de Teixeira: as vaias dadas ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, na abertura da competição, dia 14. “Isso eu nunca vi em toda a minha vida. Acho importante protestar quando não se está de acordo com o Governo, mas não foi do jeito certo. Foi desagradável e desnecessário.”

O fotógrafo elege justamente a festa da abertura como momento mais marcante da edição do Brasil. “Ninguém fez melhor até hoje, e não estou falando como brasileiro”, justifica Evandro Teixeira que faz parte de uma geração de profissionais na qual não mistura patriotismo com jornalismo. “Hoje em dia, quando fotografo jogo de futebol, vejo muita gente gritando gol e esquecendo da foto. Comigo isso não acontece”.

Trajetória

João Saldanha e Armando Nogueira são alguns dos jornalistas que compartilharam com Evandro Teixeira coberturas em Copas do Mundo, Olimpíadas e Jogos Pan-Americanos. Em época onde não havia celular, máquina digital ou internet, o trabalho dos jornalistas nutria-se exclusivamente da paixão, a exemplo dos atletas brasileiros.

Nascido em uma cidade do interior da Bahia, Evandro veio para o Rio em 1958, onde arrumou emprego no Diário da Noite. Função? Santo-casamenteiro, apelido dado na redação aos fotógrafos incumbidos de registrarem os matrimônios da cidade. Já no Jornal do Brasil, Evandro fez sua trajetória em Jogos Pan-Americanos na edição de São Paulo, a primeira realizada no Brasil, em 1963, quando o Brasil conquistou 14 medalhas de ouro. Três delas do boxe com Luiz Leônidas César, Elcio Neves e Rosemiro Matheus Santos. Só agora, no Rio de Janeiro com o ouro de Pedro Lima, conquistado nesta sexta o Brasil voltou a faturar o 1º lugar no pódio na modalidade. “É como eu disse, em casa, os resultados são únicos. Os atletas competem mais inspirados”, acredita Evandro.

Ele lembra outra coincidência com a edição passada, desta vez como tristeza. A exemplo da tragédia com o avião da Tam, na semana passada, o Pan de 1963 também precisou superar a queda de um avião. “Eu entrei na pista e entreguei o filme fotográfico do jogo do basquete nas mãos do piloto que estava saindo para o Rio de Janeiro. No dia seguinte soube que o avião caiu. Foi muito triste, da mesma maneira que aconteceu com o avião da gol”, recorda-se.

Pai de duas filhas jornalistas e autor de cinco livros, Evandro mostra-se ainda dono de disposição invejável. Não bastasse o corre-corre do Pan, planejar o lançamento de dois livros até o final do ano, entre eles 68 destinos, sobre a ditadura militar. “Também quero estar em Pequim, ano que vem”, confidencia. “Eu amo meu trabalho, não tenho por que pensar em parar.”

Nem mesmo com as dores das costas ou concorrência com jovens que poderiam ser seus netos? “Nem”. Porque não aposentar-se? “Porque não há nada mais prazeroso neste mundo do que meu trabalho”.

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