Quando lançado, em 2003, “Todo Poderoso” caiu nas graças do público brasileiro. Sem alcançar a mesma resposta em outros países, por aqui a comédia com Jim Carrey atraiu mais de 5 milhões de espectadores e se tornou o filme mais visto do ano, à frente de “O Senhor dos Anéis 2”, “Matrix Reloaded” e “Procurando Nemo”. A simplicidade da idéia central (homem comum ganha poderes divinos), o talento histriônico do protagonista e a abordagem debochada para um assunto sério como a religião (em uma das melhores piadas, Carrey reproduzia a abertura do Mar Vermelho em uma sopa de tomate) acertaram em cheio o gosto do freqüentador de cinema no Brasil.
Quatro anos depois, “A Volta do Todo Poderoso”, que estréia hoje nos cinemas de Bauru, tenta repetir o sucesso na forma de uma continuação atípica. Sem Jim Carrey, o tom da “franquia” mudou completamente, adaptando o tema ao temperamento mais doce de seu novo protagonista, Steve Carell.
Em “Todo Poderoso”, Carell tinha um papel secundário: o apresentador de TV Evan Baxter, rival do personagem de Carrey. Mesmo em uma participação pequena, porém, ele era responsável por um dos melhores momentos do filme, ao perder o controle de sua fala em pleno ar. Promovido a protagonista, Baxter largou a TV e se elegeu deputado federal, mas sua carreira política é ameaçada quando Deus (Morgan Freeman) lhe ordena construir uma arca.
Aparentemente mais “careta”, “A Volta do Todo Poderoso”, em vários aspectos, é bastante superior ao primeiro filme. Apesar de uma certa demora em encontrar o ritmo, o diretor Tom Shadyac acertou no tom para modernizar a história da arca de Noé. A aparição dos bichos e os efeitos especiais (discretos, mas com encanto) fazem com que essa fábula infantil encontre uma leveza que o filme de Jim Carrey não tinha.
O próprio Carell (sem dúvida um dos grandes atores de comédia em atividade no cinema americano de hoje) e a ótima Wanda Sykes (do seriado “The New Adventures of Old Christine”) contribuem, e muito, para esse resultado.