O primeiro livro roubado foi “O Manual do Coveiro”, no velório do irmão. A lista só veio a crescer nos quatro anos seguintes (1939-1943), quando Liesel Meminger se encontrou três vezes com a morte na Alemanha tomada pela guerra e sobreviveu.
O sentido para recomeçar, ela tirava das páginas que sempre levava junto ao corpo franzino. Sua história está no best-seller “A Menina que Roubava Livros”, do australiano Markus Zusak. Há mais de um ano na lista de mais vendidos do “New York Times”, a obra foi lançada em março no Brasil pela Editora Intrínseca e, em quatro meses, já vendeu 150 mil exemplares.
Assim como a garota alemã, muitas outras pessoas encontram amparo, companhia, respostas, emoções e até a si mesmas ao ler um livro. Solteiro, desempregado e sem dinheiro para pagar o hotel em que estava hospedado, Ulysses Cardoso de Oliveira, na época com uns 30 anos, estava perdido.
De maneira inesperada, o livro “Como Triunfar Sobre Obstáculos”, do escritor americano Dale Carnegie, caiu nas mãos do então vendedor e transformou a sua vida. “Sabe quando você passa por um momento muito difícil e não sabe o que fazer? Pois este livro me ajudou a suportar, a ultrapassar as barreiras”, conta Oliveira.
Hoje, casado há 38 anos e com duas filhas também casadas, o aposentado de 71 anos acumula mais de 500 livros em uma pequena biblioteca montada em sua própria casa. Depois de emprestar e nunca mais ter de volta obras importantes, sua coleção passou a ser de uso exclusivo do “homem do livro”, como é conhecido nas redondezas do Parque Vista Alegre, onde mora. “Não empresto, não vendo, não alugo”, diz.
Além do livro de Carnegie, Oliveira enumera outras obras que foram importantes em sua vida, como: “Médico de Homens e de Almas”, de Taylor Caldwell, e os títulos de Harold Robbins, Jorge Amado, Chico Xavier, Danielle Steel e Érico Veríssimo. “Quando leio, eu esqueço de tudo. Estou ali dentro do livro, sendo um personagem daquela história. Sou muito emotivo e se um livro me faz chorar, não tenho vergonha de derramar lágrimas”, confessa.
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Estudantes e recém-formados indicam seus livros favoritos
No começo da tarde da última quarta-feira, na sala de leituras de duas bibliotecas universitárias visitadas pela reportagem, algumas pessoas debruçavam-se sobre livros para se informar, entreter-se, estudar. Preparado para longas horas de estudo, o publicitário Hélio Bertonha Martins, 26 anos, preenchia a mesa com garrafa d’água, relógio, estojo e livros, muitos livros.
Apesar de ultimamente só ter lido assuntos referentes a concursos públicos que pretende prestar, Martins se lembrou de duas obras que mudaram a forma de encarar a vida: “Semiótica Aplicada”, de Lucia Santaella, e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. “Li quando tinha uns 20 anos e passei a ter mais senso crítico”, disse o publicitário.
Os estudantes de geografia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Ivo Francisco Barbosa, 21 anos, e Euzemar Florentino Júnior, 19 anos, se recordaram de livros da área enquanto o primeiro folheava um livro e o segundo, um jornal diário.
“Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, foi sugerido por Barbosa para quem deseja conhecer a formação das estruturas políticas e econômicas que regem o País até hoje. Júnior, por sua vez, recomendou “Brasil, a Terra e o Homem”, de Aroldo de Azevedo, onde é possível compreender a morfologia brasileira.
Em outra mesa, a professora de matemática Luísa Machado, 42 anos, estudava com o administrador de empresas Renato Polini de Andrade, 26 anos. Para ela, nenhum livro mudou sua vida, mas muitas obras de auto-ajuda foram bárbaras ao auxiliá-la na solução dos problemas.
Polini concordou com a professora e citou dois livros do gênero que o ajudaram na profissão: “Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes”, de Stephen R. Covey, e “O Monge e o Executivo”, de James C. Hunter.
A obra de Hunter também foi citada pelo estudante do Colégio Técnico Industrial (CTI) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Lucas Fernando Pereira, 15 anos. “O livro fala de liderança e me ensinou coisas que vou levar para a vida, por isso gosto mais do gênero de auto-ajuda”, pontuou.
Já a estudante de jornalismo da Unesp Priscila Gonçalves Bernardes, de 21 anos, indicou dois romances da vida real. O primeiro “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, do jornalista Lucius de Mello, lhe mostrou a história de Bauru, cidade onde acabava de chegar para estudar jornalismo. O livro “Muito Longe de Casa: memórias de um menino-soldado”, de Ishmael Beah, Bernardes carregava nos braços. A algumas páginas do fim, ela já tinha absorvido o essencial: “O mundo não gira ao seu redor. Perto da história deste garoto de Serra Leoa, que vive fugindo e lutando, meus problemas não existem”, colocou.
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Livro: prazer e trabalho
A história de Roberto Francisco De Bau, 45 anos, começou há 18 anos. Desempregado, ele encontrou na venda de livros usados sua fonte de renda e felicidade. “Passei a ler quando montei o sebo. A leitura muda muito a gente. Fora as pessoas que vêm aqui e você acaba aprendendo com elas. Meu trabalho é delicioso”, afirma o dono de mais de 60 mil títulos.
O respeito ao próximo, a melhor forma de se portar e outros ensinamentos da vida, Bau extraiu de “Alegria e Triunfo”, escrito por Lourenço Prado. Reflexões sobre o mundo, ele passou a fazer depois de ler “O Mundo de Sofia”, de Jostein Gaarder. “Ler um livro é muito melhor do que assistir a um filme, porque você entra na história, é mais real”, diz.
Nilo Sérgio Alves Júnior passou por uma experiência semelhante. Sem muito acesso à leitura na infância, foi só quando conseguiu um emprego em uma livraria da cidade, há 17 anos, que a leitura se tornou um hábito. “Foi muito bacana porque os livros me ensinaram e me ensinam muita coisa até hoje. Criei e mudei muitas opiniões”, diz o atual gerente do estabelecimento.
Aos 35 anos, Júnior acredita que tem o emprego dos sonhos. “Aqui, você lida com um produto que tem vida e que, de certa forma, vai contribuir para moldar o caráter de uma pessoa”, coloca. Com uma infinidade de obras para indicar, Júnior seleciona uma em especial: “O Maior Vendedor do Mundo”, de Og Mandino.
“De certa forma, este livro está ligado à minha profissão. Nele, fala-se sobre a história de um grande vendedor que seguia uma série de princípios éticos”, afirma.
Atualmente, Júnior está lendo três livros: “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zusak; “Aprender a Viver”, de Luc Ferry; e “A Arquitetura da Felicidade”, escrito por Alain de Botton. Fora esses, o gerente sugere outras leituras que marcaram sua vida, como “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro; “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell; “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell; e “O Fim da Terra e do Céu”, de Marcelo Gleiser.
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Bibliotecas
Mesmo com um histórico de 30 anos rodeada por obras literárias, a bibliotecária da Biblioteca Municipal Rodrigues de Abreu Maria Luiza Zanzarini Araújo, 54 anos, não se considera uma boa indicadora de livros. “É porque eu gosto de terror”, explica.
Entre seus favoritos, estão “O Cemitério” e “A Zona Morta”, de Stephen King. Outro escritor fantástico do gênero, para Araújo, é Frank de Felitta. É preciso controlar a tensão ao ler “O Demônio de Gólbota”, do autor, em que um padre, sucumbindo ao isolamento e ao desespero, entrega-se a uma negra noite de loucura, necrofilia e suicídio.
Fugindo um pouco do arrepio à espinha, a bibliotecária fala de outro livro, “A História Sem Fim”, de Michael Ende. “A história é lindíssima, da luta contra o fim da fantasia”, diz a leitora que não abandona um livro, nem sequer quando a televisão está ligada. “Eu não saberia viver sem leitura. Se não tenho um livro em mãos, sinto que está faltando alguma coisa”, coloca Araújo.
Se o funcionário da Gibiteca Municipal Paulo Henrique Leite Pereira, 55 anos, o PH, sabe o que diz é porque leu muito. “Houve um período na minha vida em que lia quatro romances por semana”, lembra. Atualmente, mesmo sem muita paciência para devorar livros, Pereira tem uma lista de obras que considera imprescindíveis a qualquer ser humano.
Com “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, PH teve conhecimento do passado belicoso do Brasil. “Hoje vivemos uma situação de guerra urbana não declarada, mas muitos não sabem que ao contrário da idéia de nação pacífica, o Brasil sediou muitas guerras”, afirma.
A fusão da realidade com a imaginação é tratada muito bem na obra “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, na opinião de Pereira, assim como em “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes.
Um livro um pouco mais suave, que conta parte da história musical brasileira é “Chega de Saudade”, escrito pelo jornalista Ruy Castro, também na lista dos favoritos de PH. Para finalizar, ele ainda indica “Germinal”, um romance europeu do conceituado Émile Zola. “O livro narra as relações humanas diante da falta de emprego, no final do século 19 na França”, sintetiza.