Ser

Brincar é bom e faz crescer

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 6 min

Todo mundo já ouviu o slogan da marca de sabão em pó Omo “Se sujar faz bem”. Essa frase não foi só uma boa idéia para que a Unilever, dona da marca, vendesse seu peixe muito bem. Se sujar, na infância, realmente faz bem e ajuda no crescimento da molecada. A Omo foi ainda mais longe, ouviu a voz das mães de antigamente, não preocupadas com a manutenção das caras roupas de seus pimpolhos ou a segurança das ruas e sentenciou: “Brincar ajuda a criança a se desenvolver”.

Se você não entendeu alhos e bugalhos, explicamos: um estudo inédito iniciado no Brasil há seis anos e em 2007 estendido a dez países (Índia, Tailândia, Brasil, Argentina, África do Sul, Reino Unido, Turquia, China, França e Estados Unidos) buscou a percepção das mães no que se refere às suas crianças e a relação entre desenvolvimento infantil e o ato de brincar. Foram ouvidas 1.500 mães de crianças até 12 anos, o que gerou o estudo “A infância na visão global das mães”.

Atualmente, apesar da violência das grandes cidades, a pesquisa global realizada por Omo mostrou que as mães se preocupam com o quanto seus filhos brincam “fora de casa” e o quanto eles se distanciam das diversões eletrônicas, como a TV, o computador e os videogames.

Uma das mães ao depor para os pesquisadores disse: “Queremos dar aos nossos filhos o direito de serem crianças”. E esse é o ponto. Segundo o casal de especialistas em desenvolvimento infantil da Universidade de Yale, que coordenou a pesquisa, Jerome e Dorothy Singer, o brincar é uma aprendizagem experiencial, ou seja, a criança que brinca se desenvolve em todos os sentidos.

Jerome explica que, ao brincar, a criança assume como sua aquela experiência e entende o aprendizado como livre. “As crianças que brincam exploram e interagem com o mundo, criam, descobrem e se relacionam melhor”, completa.

Em relação ao desenvolvimento cerebral, os pesquisadores apontam que o ato de brincar estimula a formação das sinapses. No corpo, ajuda na manutenção da saúde, na resolução de problemas e nas qualidades da alimentação e sono. A brincadeira também estimula a formação de vocabulário e da comunicação em si, além de aumentar a auto-estima.

Brincadeira de criança

Para os pais que determinam uma rotina “de executivos” aos filhos, um alerta: muitas atividades que dão norma ao dia dos pequenos podem acarretar problemas “de gente grande” às crianças. Estresse, ansiedade e disfunções alimentares estão entre os principais. De acordo com Dorothy, “a cobrança de padrões adultos é um dos fatores da ‘erosão da infância’; a mídia, a pressão acadêmica e a atenção das mães ao mercado de trabalho também colaboram para que as crianças se sintam menos crianças”.

Mais um problema que “des-infantiliza” a molecada é a TV. Segundo Dorothy, a mídia manipula a compreensão de mundo das crianças, seja aqui no Brasil, na Tailândia, China ou França. “Há uma inversão de valores como os seriados, que mostram policiais agressivos”, aponta a pesquisadora. Quem vê violência a reproduz.

Nessa questão da alteração da visão de mundo dos pequenos, Jerome acrescenta que, com o menosprezo de áreas de conhecimento como artes, música e mesmo o “recreio” ou “intervalo” entre as aulas, diminui o interesse da molecada por matérias mais “duras” da grade escolar, como matemática ou línguas. O estímulo de outros universos como o da pintura “abre” a cabeça das crianças, mas também é preciso elogiar os trabalhos, estimulando assim as atividades.

O pesquisador aponta que na Finlândia, um dos países com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mundiais, as crianças apresentaram melhores rendimentos escolares depois da implantação de atividades lúdicas após as aulas. A esse aspecto, Dorothy alia a questão da oposição entre quantidade de horas frente a jogos eletrônicos e o rendimento escolar. “Crianças que jogam muito videogame têm queda na resposta acadêmica. Muita TV também prejudica, podendo causar um retardamento na fluência de leitura e até a Síndrome de Déficit de Atenção”, conclui.

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Pais e filhos

Pais “mega” ocupados precisam suprir as necessidades de atenção de seus filhos: criança livre não quer dizer criança fora da vista. Os pesquisadores Jerome e Dorothy Singer sugerem pequenos gestos e um pouco de tempo destinados não só ao aprendizado dos pequenos, mas também à diversão.

Na pauta, brincadeiras e jogos em grupo e com outros pais, até, auxiliam na aproximação entre pais e filhos. Também é uma idéia trazer a TV como uma aliada nessa interação: assistir programas com as crianças e estimular o pensamento dos temas como exercícios lúdicos e de assimilação fazem com que a criança aproveite o entretenimento oferecido pela televisão além da simples torrente de informação.

Mesmo com essas estratégias, o que foi mais claramente percebido na pesquisa é que brincar ao ar livre é a atividade que mais dá prazer para a molecada. Terra, massinha, tinta, playground, castelinho de areia na praia... Uhhhuulll!!

A pesquisa acrescentou que as mães, apesar de se preocuparem com a segurança de seus filhos, desejam que eles se sujem e façam o que bem desejarem no espaço sagrado da diversão e brincadeira, que inclui playground, parques, praças, áreas externas da casa, sala de brinquedos e, quando possível, a boa e velha rua.

No que se refere aos brinquedos, sejam eles sofisticados ou aqueles que fazem a criança imaginar, a concepção é a de estimular a ludicidade infantil. Essa questão do oferecer os brinquedos também pode ser revertida a outras atividades, já que a criança está em fase de conhecer e reconhecer. Assim, a molecada nunca vai chegar perto de um livro se ninguém oferecer um exemplar a ela. Entender a criança, aprender que brincar com seu filho é legal.

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Mães coragem

Segundo o relatório de “A infância na visão global das mães”, o principal desafio das mães em todo o mundo é “enfrentar o desafio de resguardar esta fase em que suas crianças se desenvolvem por meio da exploração e interação com os elementos que as cercam”. 92% das mães entrevistadas nos dez países onde a pesquisa foi realizada têm essa visão de mães responsáveis pelo “brincar de seus filhos”.

O estudo quis mostrar os desafios enfrentados por mulheres de variadas culturas e nacionalidades, suas considerações, preocupações e anseios em relação ao brincar dos seus filhos. Os resultados apresentaram que, em menor grau, ainda há mães que talvez não percebam os benefícios do “brincar de faz de conta”. Porém, de maneira global, há um consenso entre as progenitoras ao perceber que o ato de brincar, mais do que trazer simples alegria, ajuda no desenvolvimento de seus filhos como pessoas e que as mães se preocupam com a perda da ludicidade dos filhos. A pesquisa está disponível na íntegra em www.omo.com.br.

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