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Comparatio


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Caro leitor, reflitamos a respeito do sentido ou significado do termo comparar. De acordo com o Dicionário Houaiss, comparar é relacionar (coisas animadas ou inanimadas, concretas ou abstratas, da mesma natureza ou que apresentam similitudes) para procurar as relações de semelhança ou de disparidade que entre elas existam; aproximar dois ou mais itens de espécie ou de natureza diferente, mostrando entre eles um ponto de analogia ou semelhança. Fica entendido então que para se comparar a algo ou alguém é necessário examinar e estabelecer paralelos (semelhanças e ou diferenças). Isto posto, qual a razão de discursar a respeito de tal questão, nesse disputado espaço do Jornal da Cidade? O articulista endoideceu? Não! Decerto não! Mas do jeito que a política nacional caminha manca e empunha seu bordão ensebado vilipendiando a inteligência cidadã, não sei não!

Pois bem, dia 14 de agosto o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) - acusado de pagar despesas pessoais com recursos de um lobista da empreiteira -, discursou do plenário, e não da cadeira presidencial, para se defender. Afirmou ser vítima de “politicagem regional” e alvo de “matérias jornalísticas profundamente indignas”. Conforme publicou o Jornal da Cidade no dia 15 de agosto, “ ...o senador, que ao final do seu discurso se comparou ao filósofo grego Sócrates”.

Todos conhecem um pouco sobre a vida do filósofo grego Sócrates. Mas seria apropriado, a título de colaboração, traçar breve biografia para relembrar esse emblemático personagem da história e da filosofia grega. O nome de Sócrates é provavelmente o mais extensamente difundido na cultura ocidental. Sua fama não deriva dos seus escritos, até porque ele não deixou nenhum. Entretanto, vez ou outra, políticos no afã de demonstrar cultura e conhecimento anunciam “estar lendo” as Obras Completas de Sócrates. Incrível a desfaçatez! Na verdade, parte do conhecimento acerca desse pensador grego é oriundo dos diálogos escritos por Platão. Este foi profundamente influenciado por Sócrates e desenvolveu as idéias dele de tal modo que se torna impossível afirmar em qual parte termina o pensamento de um e começa a reflexão do outro.

Filho de uma parteira e de um escultor, Sócrates nasceu em Atenas por volta de 469 a.C. Estudou a arte do pai e trabalhou como escultor por algum tempo. Adquiriu a cultura tradicional dos jovens atenienses, aprendendo música, ginástica e gramática. Prestou serviço militar e lutou nas Guerras contra Esparta (432 a.C) e Tebas (424 a.C). Durante o apogeu de Atenas, onde se instalou a primeira democracia da qual se tem notícia, conviveu com intelectuais, artistas, aristocratas e políticos importantes. Convenceu-se de sua missão de mestre por volta dos 38 anos de idade, após seu amigo Querofonte, em visita ao templo de Apolo, em Delfos, ouvir o Oráculo dizer que Sócrates era “o mais sábio dos homens”. Deduzindo que sua sabedoria só podia ser resultado da percepção da própria ignorância, o filósofo passou a dialogar com as pessoas que se dispusessem a procurar a verdade e o bem. Em meio ao desmoronamento do império ateniense e à guerra civil interna, quando já era septuagenário, Sócrates foi acusado de desrespeitar os deuses do Estado e de corromper os jovens. Julgado e condenado à morte por envenenamento, ele se recusou a fugir ou renegar suas convicções para salvar-lhe a vida. Ingeriu cicuta e morreu rodeado por seus amigos, em 399 a.C.

A grandeza desse personagem e sua importância na história da filosofia, segundo autores, é comparável a Jesus Cristo. Vejamos: a) A filosofia divide-se em pré-socráticos, socráticos e pós-socráticos, como ocorre com Cristo - em era antes de Cristo (a.C) e depois de cristo (d.C); b) Ambos personagens não deixaram nada escrito; c) O que se conhece sobre a vida de um e de outro é sabido através de seus discípulos e de seus adversários; d) Ambos viveram e sacrificaram suas vidas, cada qual ao seu modo, por ideais justos, corretos e, principalmente, humanitários. Cá pra nós, leitor, de maneira nenhuma é o caso do senador da República de Alagoas, Renan Calheiros. Alguém tem dúvida?

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é doutorando em Ciência Política pela PUC-SP. Professor do IESB-PREVE, ITE e Fênix

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