Bairros

Abrigos tentam devolver dignidade

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Mário Costa é aposentado, tem 62 anos e tem família. Um acidente vascular cerebral (AVC) o deixou com movimentos restritos e em uma cadeira de rodas. Sentindo que sua condição seria um estorvo para os familiares, Costa resolveu se internar, de forma voluntária, no abrigo mantido pela Associação Beneficente Cristã (Paiva).

Apesar de ter ido voluntariamente ao abrigo, Costa afirma não gostar muito de lá, e preferia estar com a família, mas resigna-se devido sua condição. Com dificuldade para falar, ele recebe no Paiva o tratamento adequado, o que não seria possível se permanecesse em casa. “Bom não é, mas fazer o quê?”, pergunta. O caso de Mário Costa é apenas um entre os 76 idosos que são atendidos pela instituição, que junto com a Vila Vicentina são as duas únicas que funcionam dentro da legalidade em Bauru.

No local há uma série de atividades que os idosos podem realizar para se manter na ativa. Segundo a assistente social Luciana Aparecida Fazio Dias, há profissionais de diversas áreas atuando para o bem-estar dos internos. “Nós temos psicólogos, fisioterapeutas, médicos clínicos e psiquiatras, pedagoga, terapeuta ocupacional”, conta.

O tratamento para os idosos que não estão acamados consiste em atividades internas ou externas. A assistente social explica que, além de hidroginástica, hidroterapia, artesanato, alguns freqüentam a escola e outros saem para ir à feira. Aos domingos há ainda o grupo que vai à missa. Os que são mais dependentes recebem o acompanhamento adequado, de acordo com a enfermidade.

Segundo Dias, a exemplo do aposentado Márcio Costa, há outros idosos no abrigo que ainda têm família e recebem a visita dos parentes regularmente, mas são poucos. “Normalmente esse idoso que está aqui não tem filhos, companheiros, já está sozinho no mundo”, ressalta.

Para a assistente social, a rede de assistência que existe na cidade melhorou muito e tem contribuído para impedir o abrigamento, tido por ela como o último recurso. “Tanto é que, quando vem alguém solicitar o abrigamento, a gente vai avaliar para ver se é necessário, porque queira ou não, ao se abrigar, o idoso perde o vínculo com a família”, afirma.

Terapia

Uma das atividades que mais destacam o trabalho realizado pelo Paiva é a terapia ocupacional. Há casos em que os idosos chegaram sem a menor coordenação e hoje são capazes de produzir peças de artesanato, tapetes, entre outros, o que faz os olhos da terapeuta ocupacional Danila Messias Domingues brilharem. Há um ano na instituição, Domingues ressalta que foi seu primeiro emprego após a formatura, e mostra, orgulhosa, os avanços de seus alunos. “Eles vão aperfeiçoando os trabalhos com o tempo”, diz.

Um exemplo é Josuel Martins de Paula, de 61 anos, que produz cestas e outras peças de artesanato feitas com jornal. Vindo de Pirassununga, ele largou a vida nas ruas para se abrigar no Paiva, onde está há cinco anos. Fazer a terapia ocupacional, produzindo as peças, que são vendidas na feira, é para Martins um motivo de orgulho e mostra que há saída quando a atenção é feita com seriedade.

Do outro lado do salão, a pedagoga Patrícia Sganzerla Durand faz sua parte com o grupo de alfabetizados. Caprichosos, os idosos se esforçam para realizar os trabalhos designados pela professora. “Muitos não gostavam das aulas, mas agora freqüentam”, conta.

Tradição

Outro abrigo legalizado em Bauru é a Vila Vicentina. Funcionando desde 1940, a entidade é tradicional e muito conhecida por seu churrasco anual, que é uma das formas de arrecadar dinheiro para manter o abrigo.

Atualmente a Vila conta com 100 idosos, sendo 80 internos e 20 participantes do Centro Dia, a “creche do idoso”. Neste caso, os idosos ficam durante o dia, realizam atividades de recreação, além de receber atendimento psicológico e fisioterapia, quando necessitam. Além de subsídios da prefeitura, a Vila Vicentina tira os recursos do churrasco, de doações, da campanha “Revoada Vicentina”, entre outros.

Quem está internado é mais relutante em participar das atividades, que são propostas e avaliadas pelos grupos de terceira idade. Além de artesanato, o bingo é uma das favoritas dos internos. O maior problema da Vila é a falta de lugares disponíveis. A procura é grande, mas só há abertura de vagas quando algum volta ao convívio familiar, em caso de morte ou partida do idoso por vontade própria.

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