Bairros

Cinco minutos como deficiente físico geram horas de reclamação

Luiz Galano
| Tempo de leitura: 2 min

Acessibilidade: substantivo feminino indicador de situações que proporcionam facilidade na aproximação, no tratamento e na aquisição do que se precisa. Para quem não tem nenhuma deficiência física, apenas uma palavra bonita para ser lembrada em discursos. Para quem precisa seguir a vida em cadeiras de rodas, muletas ou bengalas (só pra ficar em alguns exemplos), um direito que ainda demanda muita luta. Dificuldades, direitos e deveres que um grupo de estudantes de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) não vai mais esquecer.

O cenário para a encenação do teatro da vida real é a Praça Rui Barbosa, no Centro da cidade. As estrelas, um cadeirante há 22 anos e uma deficiente visual de nascença. Na platéia, cerca de 40 futuros arquitetos prestando atenção nos diálogos sobre as barreiras físicas que os portadores de deficiência enfrentam.

Depois da conversa, a parte prática. A estudante Mariana Takeda Frezatti, de 22 anos, arrisca andar cerca de 50 metros, da roda onde era feita a discussão até a Catedral. No caminho já surge o primeiro obstáculo: o piso irregular. Ao chegar, uma enorme escadaria e ao lado uma rampa íngreme. Uma tentativa já é suficiente para perceber que não é possível chegar à igreja sozinha. A amiga Aline Regina Godoy, 19 anos, deixa a sua muleta de lado (após quase cair nas escadas) e vai ajudar. Mesmo sendo empurrada, a dificuldade é grande. Para descer, a velocidade alta e a falta de prática com os freios resultam num arranhão no pé esquerdo.

Ela deixa a cadeira e conta a experiência. “Foram cinco minutos e já deu pra perceber muita coisa errada que passa despercebido. O piso tem que ser mais liso e as rampas de acesso menos inclinadas”, opina Mariana. “Sinceramente, eu não imaginava que a dificuldade fosse tanta”, acrescenta Aline. “Para a gente que faz arquitetura, é interessante sentir isso na pele”, termina.

Um pouco mais distante, com uma venda nos olhos e uma bengala na mão direita, Ludmila Raciuna, de 19 anos, tenta se locomover sozinha. “Não faço a mínima idéia de onde estou”, diz. Enquanto isso, a ponta do instrumento de locomoção vai se prendendo levemente entre as frestas do piso de pedras da praça. Uma amiga fica por perto e segura no ombro quando ela precisa.

Para os universitários, muita coisa pôde ser constatada em apenas cinco minutos. Para os cerca de 35 mil deficientes (em todas as modalidades) que vivem em Bauru, barreiras físicas somadas às sociais, precisam ser superadas diariamente. “Espero que a acessibilidade melhore em Bauru, mas confesso que estou desanimando”, diz Daniel Cavalcanti, de 44 anos, sem movimento nas pernas há 22 anos após ter sido atingido por um tiro.

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